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Brasília, de de . Ano: -2004
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DEU NA VEJA
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"Lula não fará seu sucessor"
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Carlos Augusto Montenegro é um dos mais experientes analistas do cenário político nacional. Presidente do Ibope, empresa que virou sinônimo de pesquisa de opinião pública no Brasil, ele acompanhou com lupa todas as eleições realizadas no país desde a volta à democracia, em 1985. Agora, faltando pouco mais de um ano para a sucessão presidencial, Montenegro faz uma análise que o consagrará se acertar. Se errar? Bem, dará às pessoas o direito de igualarem seu ofício às brumas da especulação. Em entrevista ao editor Alexandre Oltramari, Montenegro aposta que o governo, apesar da imensa popularidade do presidente Lula, não conseguirá fazer o sucessor – no caso, a ministra Dilma Rousseff. Também afirma que o PT está em processo de decomposição.
O que os acontecimentos da semana passada revelaram sobre o PT? Que o partido deu um passo a mais na direção de seu fim. O PT passou vinte anos dizendo que era sério, que era ético, que trabalhava pelo Brasil de uma maneira diferente dos outros partidos. O mensalão minou todo o apelo que o PT havia acumulado em sua história. Ali acabou o diferencial. Ali acabou o charme. Todas as suas lideranças foram destruí-das. Estrelas como José Dirceu, Luiz Gushiken e Antonio Palocci se apagaram. Eu não diria que o partido está extinto, mas está caminhando para isso.
Mas por trás do apoio ao PMDB e ao senador Sarney não está exatamente um projeto de poder do PT? É um projeto de poder do presidente Lula. O desempenho eleitoral do PT depois do mensalão foi um vexame. Em 2006, com exceção da Bahia, o partido só venceu em estados inexpressivos. Nas eleições municipais de 2008, entre as 100 maiores cidades, perdeu em quase todas. Lula sempre foi contra a reeleição e só resolveu disputá-la para tentar salvar o PT. Sua reeleição foi um plebiscito para decidir se deveria continuar governando mais quatro anos ou não. Mas tudo indica que agora ele não fará o sucessor justamente por causa da mesmice na qual o PT mergulhou.
Ao contrário do que muita gente acredita, o senhor aposta que Lula, mesmo com toda a popularidade, não conseguirá eleger o sucessor. Uma coisa é ele participar diretamente de uma eleição. Outra, bem diferente, é tentar transferir popularidade a alguém. Sem o surgimento de novas lideranças no PT e com a derrocada de seus principais quadros, o presidente se empenhou em criar um candidato, que é a Dilma Rousseff. Mas isso ocorreu de maneira muito artificial. Ela nunca disputou uma eleição, não tem carisma, jogo de cintura nem simpatia. Aliás, carisma não se ensina. É intransferível. "Mãe do PAC", convenhamos, não é sequer uma boa sacada. As pessoas não entendem o que isso significa. Era melhor ter chamado a Dilma de "filha do Lula".
Porém já existem pesquisas que colocam Dilma Rousseff na casa dos 20% das intenções de voto. A Dilma, em qualquer situação, teria 1% dos votos. Com o apoio de Lula, seu índice sobe para esse patamar já demonstrado pelas pesquisas, entre 15% e 20%. Esse talvez seja o teto dela. A transferência de votos ocorre apenas no eleitorado mais humilde. Mas isso não vai decidir a eleição. Foi-se o tempo em que um líder muito popular elegia um poste. Isso acontecia quando não havia reeleição. Os eleitores achavam que quatro anos era pouco e queriam mais. Aí votavam em quem o governante bem avaliado indicava, esperando mais quatro anos de sucesso.
Diante do quadro político que se desenha, quais são então as possibilidades dos candidatos anunciados até o momento? Faltando um ano para as eleições, o governador de São Paulo, José Serra, lidera as pesquisas. Ele tem cerca de 40% das intenções de voto. Em 1998, também faltando um ano para a eleição, o líder de então, Fernando Henrique Cardoso, ganhou. Em 2002, também um ano antes, Lula liderava – e venceu. O mesmo aconteceu em 2006. Isso, claro, não é uma regra, mas certamente uma tendência. Um candidato que foi deputado constituinte, senador, ministro duas vezes, prefeito da maior cidade do país e governador do maior colégio eleitoral é naturalmente favorito. Ele pode cair? Pode. Mas pode subir também.
A entrada em cena de Marina Silva, que deixou o PT para disputar a eleição presidencial pelo PV, altera o quadro sucessório? A Marina é a pessoa cuja história pessoal mais se assemelha à do Lula. É humilde, foi agricultora, trabalhou como empregada doméstica, tem carisma, história política e já enfrentou as urnas. Além disso, já estava preocupada com o meio ambiente muito antes de o tema entrar na agenda política. Ela dificilmente ganha a eleição, mas tem força para mudar o cenário político. Ser mulher, carismática e petista histórica é sem dúvida mais um golpe na candidatura de Dilma.
Na hora de votar, o eleitor leva em consideração o perfil ético do candidato? Uma pesquisa do Ibope constatou que 70% dos entrevistados admitem já ter cometido algum tipo de prática antiética e 75 % deles afirmaram que cometeriam algum tipo de corrupção política caso tivessem oportunidade. Isso, obviamente, acaba criando um certo grau de tolerância com o que se faz de errado. Talvez esteja aí uma explicação para o fato de alguns políticos do PT e outros personagens muito conhecidos ainda não terem sido definitivamente sepultados.
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Da Redação
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23/08/2009 07:36:02
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DISTRITO FEDERAL - a pedidos
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José Roberto Arruda - “Quero ser útil ao projeto vitorioso”
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Rafael Paixão - Jornal Hoje em dia
O governador José Roberto Arruda (DEM) não admite ainda oficialmente, mas seu discurso é de quem concorrerá à reeleição em 2010. Em entrevista exclusiva ao Caderno Brasília, Arruda faz uma defesa apaixonada do seu Governo e diz que é fundamental continuar com esse projeto e deixa escapar que quer ver a conclusão de várias obras iniciadas agora, entre elas algumas que ficarão prontas apenas nos próximos anos, como as que serão feitas para a Copa de 2014.
O senhor será candidato à reeleição?
O meu desejo pessoal era ter um pouco mais de tempo para cuidar da minha família e da minha vida pessoal. Sempre trabalhei muito. Completei agora 35 anos de trabalho. Aposentei como engenheiro da CEB, porque nunca quis ter Instituto de Previdência de Congressista. A vida pública suga muito de você. Hoje tenho uma família organizada, minha mulher Flávia tem se dedicado muito para me ajudar, mas se sacrifica também, temos uma filha pequena. Gostaria de ter uma atividade menos sacrificante do que essa de governador. Agora, tenho uma responsabilidade de que este projeto da cidade organizada tenha continuidade. Portanto, no ano que vem, estarei na trincheira com meus amigos defendendo este projeto na posição que eu puder ser mais útil para que esse projeto seja vitorioso.
Pelas pesquisas, o senhor seria mais útil como candidato à reeleição.
Muitas vezes a vontade não é a vontade pessoal da gente. Agora, eu não fujo da luta. É fundamental para Brasília que esse projeto, que não tolera invasões, transporte pirata, comércio irregular, grilagem de terra, contratação sem concurso de cabos eleitorais, e que faz o choque de ordem na cidade e o choque de gestão no Governo que diminui as despesas de custeio e tem dinheiro para investir para diminuir as desigualdades, tenha continuidade. Quero ver todos esses projetos, como o estádio para a Copa de 2014, o VLT, a ampliação do aeroporto e do sistema viário, levar o metrô para Asa Norte e o Setor O, concluídos. O Distrito Federal tem 12 áreas degradadas, como a Estrutural, Itapoã e Arapoanga. Não quero deixar nenhuma rua sem asfalto. A defesa desse projeto é fundamental. Para isso, faço o que meus companheiros desejarem, embora pessoalmente meu desejo era descansar um pouco.
Se o senhor disputar a reeleição, o vice-governador Paulo Octávio não ficaria chateado, já que havia um acordo para que ele fosse o candidato em 2010?
O acordo prevalece. Portanto, o Paulo Octávio, como presidente do nosso partido no Distrito Federal, será o primeiro a escolher. Ele que saberá qual melhor formação do time para a gente sair vencedor da eleição. O Paulo Octávio tem sido um companheiro muito correto, leal e decente. Essa avaliação será feito com ele.
O senhor aceitaria ser candidato a vice-presidente?
Meu projeto é consolidar esse trabalho em Brasília. Não é questão de aceitar ou não aceitar ser vice. Isso não depende de mim. Mas essa possibilidade não está no meu plano de voo.
Como ex-senador, como o senhor vê a crise no Senado?
O problema do Senado é mais institucional do que circunstancial. Se a legislação político-eleitoral não mudar vai sempre ficar muito difícil. Vamos viver de escândalo em escândalo. O fim da verticalização na próxima eleição foi um grande retrocesso. A existência de 30 partidos complica muito a vida democrática. Temos que rapidamente aprovar um legislação eleitoral mais rígida, com financiamento público de campanha, fidelidade partidária, e o fim das legendas de aluguel. Também sou a favor de que servidor público só se for concursado.
Qual é a sua maior alegria nestes dois anos e meio de Governo?
Na minha vida, foi o nascimento da minha filha. No Governo, foi a inauguração do metrô em Ceilândia, que ficou treze anos parado. Tinha me comprometido com toda a cidade que, eleito governador, terminaria a obra. Quando assumi, havia uma dívida muita grande e vi que era muito mais difícil que eu imaginava. Fui ao Governo federal, consegui a ajuda do presidente Lula, que liberou R$ 30 milhões em emendas, economizei tudo que eu podia, coloquei mais R$ 70 milhões do GDF e em um ano consegui fazer o metrô rodar na Ceilândia. Eram 50 mil pessoas que andavam de metrô por dia. Hoje são 170 mil pessoas. Isso melhora muito a vida das pessoas. Quando eu inaugurei o metrô em Ceilândia e eu e o presidente Lula andamos no metrô foi o dia mais feliz nestes dois anos e meio de Governo.
E qual a maior frustração?
Tenho frustrações todos os dias, mas me esqueço delas! Então não consigo me lembrar de nenhuma. Até porque um dia você se frustra, mas no dia seguinte você consegue superar o obstáculo e resolver, Meu Governo não tem sido marcada por frustrações. Meu Governo tem sido marcada por dificuldades e pela constante superação dos obstáculos.
A maior reclamação do brasiliense, segundo as pesquisas, é em relação à saúde pública. O seu Governo está no segundo secretário da área. A saúde vai melhorar?
A saúde tem melhorado e muito. Mesmo antes de eu chegar no Governo a saúde já vinha melhorando. O problema é que há uma enorme população do Entorno que não tem tratamento de saúde e vem buscar isso no Distrito Federal. Isso gera uma pressão muito grande nos nossos hospitais. Por outro lado, o crescimento desordenado da cidade não veio acompanhado de investimentos nas áreas fundamentais. Por exemplo, já contratei 3 mil novos profissionais concursados da saúde e ainda assim falta gente, porque havia uma demanda reprimida muito grande. Compramos 47 aparelhos de raio-X, 6 tomógrafos, estamos terminando a reforma do Hospital de Base, colocamos o Hospital de Santa Maria para funcionar, reformamos os hospitais de Taguatinga e Sobradinho, inauguramos 6 novos postos de saúde, mas essa melhoria é lenta. Em algumas áreas de cidade, ela já é sensível.
Falta apoio do Governo de Goiás e da União para melhorar a saúde do Entorno?
A saúde do Entorno depende do Governo federal, do Governo de Goiás e do Governo do Distrito Federal. Nós estamos fazendo a nossa parte. Fizemos convênio com Águas Lindas, Santo Antônio do Descoberto, estamos pagando médicos nessas duas cidades para que as pessoas sejam atendidas lá e diminua a pressão sobre os hospitais de Brasília. Mas não é fácil. Realmente espero que o Governo federal e o Governo de Goiás consigam, pelo menos, concluir as obras dos hospitais que estão parados em Águas Lindas, Santo Antônio do Descoberto, Novo Gama e Valparaíso. Se esses quatro hospitais começarem a funcionar vai ser um grande alívio para Brasília.
Outro grande problema em Brasília é o transporte público. O programa Brasília Integrada vem sendo prometido há anos, mas não sai do papel. Por quê?
Hoje o transporte público não é problema, é solução! O Brasília Integrada está saindo do papel. Na EPTG (Estrada Parque Taguatinga) temos uma obra de R$ 240 milhões, na Epia (Estrada Parque Indústria e Abastecimento), uma de R$ 60 milhões, temos mais de 1,4 mil novos ônibus no sistema. Dia 23 vou com o presidente Lula para São Paulo assinar contrato com o BNDES para a compra de mais 48 vagões para o metrô. Vamos iniciar a obra do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). O que estamos fazendo de obras no sistema viário, mais os 1,4 mil novos ônibus, mais os 450 micro-ônibus, mais as 8 estações novas de metrô, tudo isso somado já é uma grande melhoria. Imagine se tudo isso não tivesse sido feito.
O senhor esteve na França recentemente para negociar recursos para o VLT. Quando ele começará a ser construído?
As negociações estão muito adiantadas. Garantimos um financiamento de 138 milhões de euros do Governo francês. O presidente Nicolas Sarkozy estará no Brasil na comemoração do 7 de Setembro e espero assinar o financiamento para iniciar as obras.
O senhor espera encontrar resistências para a construção do VLT?
Não encontrei ninguém ainda contra o VLT. Todas as cidades do mundo estão usando o sistema de Veículo Leve sobre Trilhos para tirar os carros dos centros urbanos. O VLT é uma exigência da Fifa para a Copa de 2014 e vai se integrar ao patrimônio da cidade. Imagina daqui a seis anos como o VLT vai facilitar a vida das pessoas ao ligar o aeroporto ao centro da cidade pela W3, e depois um VLT rodando na Esplanada. Em relação ao patrimônio histórico, as coisas estão sendo muito bem conduzidas. Até porque Paris, que tem VLT, é um pouco mais antiga que Brasília, assim como Bordeaux, que é do século XII, Montpellier, do século XI, Sevilha, Madri, Barcelona, Berlim, Dusseldorf. Todas cidades importantes do mundo que têm patrimônio histórico têm VLT. Não há por que Brasília não ter.
O senhor acredita que o brasiliense que está acostumado a andar de carro passaria a usar o VLT?
Você só muda o hábito do transporte individual para o transporte coletivo quando você tem o transporte coletivo de qualidade. É o caso do metrô. Hoje 170 mil pessoas andam de metrô todos os dias. Essas pessoas andavam de ônibus ou carro. Por que foram para o metrô? Porque o metrô tem qualidade. Na questão do transporte, tem uma outra coisa que as pessoas não param para pensar. A passagem de ônibus hoje é R$ 3,00, no dia que tomei posse era R$ 3,00, e no final do meu Governo será R$ 3,00. Acho que é o único Governo da história que não aumentou o preço da passagem de ônibus. E não vou aumentar, porque combati a pirataria e com isso melhorei o índice de passageiros no transporte convencional.
O senhor acabou de se reunir com representantes do setor dos micro-ônibus, que fizeram uma manifestação em frente à residência oficial de Águas Claras. Qual é a reivindicação deles?
Eles perderam na Justiça o direito de operar uma linha por uma ação que foi impetrada por uma outra cooperativa. E obviamente tenho que cumprir as decisões judiciais. Fora isso, a única reclamação que recebo nas cidades que visito é que ela precisam de mais micro-ônibus, o que é sinal que eles deram certo.
O senhor disse que a educação seria a prioridade. O que mudou na educação no DF?
Foi a área que mais avançou. Hoje tenho 200 escolas e 50 mil alunos humildes em educação integral. Eles chegam 7 da manhã, saem 5 da tarde, almoçam na escola, têm atividades esportivas e culturais. Essas 200 escolas vão mudar a vida e o futuro dessas 50 mil crianças. Temos 4,5 mil bolsistas universitários. O Governo paga a faculdade deles e eles trabalham como monitor nas escolas de ensino fundamental. Já formamos mil alunos em escolas técnicas, que não existiam em Brasília, e temos mais 4 mil estudando. Tem 18 mil professores da rede pública que já têm seu laptop. Todas escolas estão com laboratório de informática com internet wireless, inclusive nas escolas rurais, e laboratório de ciências. Contratamos 3 mil novos profissionais de educação e fizemos um plano de cargos e salários que é o melhor do Brasil. Fizemos eleições diretas e democráticas em todas as 620 escolas do Distrito Federal. Tínhamos 16 mil licenças médicas de professores por ano e baixamos para 7 mil. Diminuímos pela metade o índice de repetência escolar. Aumentamos os nosso índices no Ideb, porque quando você investe na educação você melhora a qualidade do ensino.
Mesmo assim, o senhor enfrentou uma greve dos professores.
Há um lado retrógrado do corporativismo, minoritário, que, mesmo tendo avanços na educação, quer fincar bandeiras políticas. Mas a greve não demorou 15 dias e acabou por si própria, porque não havia objeto, a não ser a politicagem. Tenho encontrado em 90% dos professores um apoio muito grande, porque eles foram esquecidos durante décadas. Agora eles percebem que são respeitados e é exatamente da motivação deles que estamos fazendo a melhoria da educação.
Uma das medidas mais duras tomadas pelo senhor foi a demissão de quase 20 mil pessoas.
Na verdade, o que houve foi uma decisão do Ministério Público dizendo que o ICS tinha 15 mil servidores contratados ilegalmente sem concurso. Na verdade, a maioria era cabos eleitorais. Se eu tivesse continuado com eles, a pergunta que fariam para mim é porque eu mantinha 15 mil funcionários sem concurso. É uma medida dura e dói, mas, infelizmente, era necessária. O choque de gestão que eu dei no início do Governo, com a diminuição de pessoal, a redução de secretarias, a devolução de prédios e carros alugados, a mudança da sede do Governo para Taguatinga, é base do resultado que a gente tem hoje. Por que hoje consigo fazer 1,7 mil obras? Por que hoje tenho crédito internacional e consegui novos financiamentos? Porque no início do Governo tive a coragem de tomar medidas duras para pagar as dívidas e diminuir o custeio para o dinheiro ir para o investimento.
Outra queixa comum é em relação à segurança pública. O senhor também já está no segundo secretário da área.
O problema da segurança pública é nacional. No caso das grandes cidades, a origem da violência está no crescimento desordenado. Durante 20 anos, Brasília experimentou um crescimento absolutamente indisciplinado e virou o melhor lugar do mundo para o grileiro, o invasor de terra e o condomínio irregular. Acabamos com as invasões e o uso indisciplinado do solo. Com isso, estamos preservando o futuro de Brasília. Sobre as invasões e as ocupações irregulares que já existiam, como Itapoã e Estrutural, eram os locais exatamente onde está concentrada a maior violência. O governante demagogo que deixa as pessoas invadirem é aplaudido num primeiro momento. No momento seguinte, as pessoas reclamam da violência e da falta de infraestrutura nesses locais. Estou sendo vaiado num primeiro momento porque proíbo a invasão. No longo prazo, as pessoas vão entender que a cidade organizada atende o interesse de todos. A cidade desorganizada atende o interesse de meia dúzia de espertalhões. Quantas pessoas enriqueceram em Brasília à custa da boa fé dos humildes, promovendo invasões e divisões irregulares de terra? Acabamos com isso. Em segundo lugar, estou investindo na educação. A cidade terá menos violência quanto mais educados forem seus jovens e crianças. Por último, estou investindo na segurança imediata. Já temos cem postos policiais funcionando, compramos novos equipamentos para a polícia, fizemos concursos para as polícias civil e militar. Fizemos um novo plano de cargos e salários. Não tenho dúvida que é sensível em várias áreas da cidade uma melhoria muito grande do nível de segurança.
Os postos são criticados porque os policiais não podem sair do local.
Muitas vezes, essa crítica nasce de alguns maus policiais, que ficavam livres nos seus carros e iam para casa tomar um café e passavam na casa da namorada. Agora não, a sociedade sabe onde encontrar os policiais. Mudou tudo. E não é verdade que eles ficam presos nos postos. Você tem um policial num posto e você tem a viatura e outros policiais fazendo a ronda. O importante é que em todos os lugares onde os postos estão funcionando diminuíram os índices de violência.
O senhor prometeu acabar com a indústria de multas, mas ainda tem pardais por aí.
Já coloquei onde tem pardal um display com um visor que mostra a velocidade para o motorista. O pardal era escondido. O display é visível. Apenas num deles, na L4 Norte, depois do display o número de multas por mês caiu de mil para cem. Então, 900 pessoas deixaram de ser multadas porque viram o display e se atentaram para o limite de velocidade. O objetivo do pardal é controlar a velocidade e não ser uma indústria caça-níquel. O interessante é que o Detran reage contra, porque gostava da arrecadação, que caiu muito. Mas não quero continuar esse assalto ao bolso do motoristas. Com o display, o motorista não se sente mais agredido. Aquele que é multado é porque merece mesmo. O projeto é que todos os pardais da cidade tenham displays ou sejam transformados em barreira eletrônica.
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Da Redação
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em
23/07/2009 07:20:53
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DISTRITO FEDERAL
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PT dá a largada na corrida eleitoral
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Lívio di Araújo, da Tribuna do Brasil
O deputado federal Geraldo Magela (PT-DF) é o relator da Medida Provisória 431, que garante reajuste salarial a mais de 800 mil servidores públicos federais. Em entrevista a Tribuna do Brasil, Magela explicou que os servidores serão avaliados e terão seus salários reajustados em até quatro anos. Mas o deputado não falou apenas sobre a MP - cujo relatório é apresentado hoje e que deve ser apreciada amanhã. Falou sobre os rumos do PT no Distrito Federal, de possíveis alianças e nomes para conquistar o GDF em 2010 e sobre a postura do presidente do PT-DF, Chico Vigilante, em seu apoio declarado ao governo Arruda. Com declarações fortes, Magela dá o pontapé inicial na corrida eleitoral ao Buritinga.
Tribuna do Brasil: O senhor é o relator da Medida Provisória (MP) 431, que prevê reajustes salariais para 800 mil servidores públicos, além de 700 mil militares. Não é um projeto muito polêmico num momento em que o governo federal está tão voltado para os programas sociais? Geraldo Magela: Na verdade há um desvio de interpretação. Essa MP é muito positiva. Ela é resultado de meses e meses de negociações entre a categoria e o governo. Foram várias rodadas de conversas e busca de acordo e ela atende a 17 categorias profissionais com uma lógica muito importante: a profissionalização e valorização do servidor público. O governo vai acabar com as gratificações que eram verdadeiros penduricalhos no contracheque dos servidores. Temos casos de vencimentos básicos que eram menores que o salário mínimo. A MP cria a gratificação de desempenho para todo o serviço público.
O governo tem mecanismos para avaliar o servidor público? Hoje, todas as grandes empresas têm metas, têm programas de avaliação de desempenham, e o serviço público precisa disso. A avaliação vai valorizar o bom servidor e recuperar salários. O funcionário será avaliado individualmente e o órgão, institucionalmente. A MP somente cria a gratificação e diz que até o início do ano que vem serão criadas as regras. Obrigatoriamente serão critérios científicos e objetivos. Não podemos deixar que um chefe que não goste de um servidor o avalie e avalie. Os mesmo critérios devem ser aplicados a todos e serão fiscalizados.
O governo tem como arcar com esses reajustes? A MP já prevê um escalonamento de pagamentos. Ela prevê reajustes em 2008, 2009, 2010 e, em alguns casos, em 2011. A recuperação do salário do servidor, em três ou quatro anos, já prevê de onde virão os recursos. Foi uma orientação que o próprio presidente Lula passou. A gratificação de desempenho será paga de acordo com o que as metas forem sendo atingidas. Não teremos problema de recursos. Foram vários meses para se chegar a um acordo.
O senhor disse que recebeu orientações do presidente Lula. O fato de ser um deputado do mesmo partido do presidente facilitou esse diálogo ou o Planalto está mais aberto, mais acessível? Eu tenho a vantagem de ser um deputado que é apoiador do governo Lula, mas o próprio presidente já disse que não lhe interessa o partido, está aberto ao diálogo com todos.
“No DF, o PT é oposição, e não governo. Então, deve agir como oposição. O companheiro Chico Vigilante cometeu um grande equívoco”
Isso foi facilitador para o trabalho da bancada do DF na Câmara e até o do Governo do DF? A bancada do DF tem uma relação muito boa entre si e com o presidente. Temos uma tradição de trabalhar em conjunto pelos interesses do DF. Estou muito orgulhoso de coordenar essa bancada. É um exercício muito democrático. Quanto à relação com o governador Arruda, o grande mérito é do presidente Lula, que quando assumiu o seu segundo mandato disse: "não temos diferenças partidárias", e deu a senha para essa boa relação dos governos com o governo federal.
Mas a postura do governador Arruda contribui para essa aproximação, não? Vivemos um momento de muita convergência, isso é muito positivo para o DF. A postura do Arruda contribui sim, claro. Mas é bom lembrar que o presidente também tem boas relações com os governador de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraíba. Todos de partidos diferentes de Lula. As coisas funcionam bem assim, quando até a oposição coloca a sigla partidária de lado para ajudar seu estado. Na bancada do DF, por exemplo, nós esquecemos as diferenças e nos unimos. Conseguimos que as emendas que seriam individuais fossem coletivizadas. Cada bancada apresenta cinco emendas coletivas e cada deputado e senador podia apresentar cinco individuais. Seriam 55 emendas, sendo que a relatora só ia escolher cinco. Então, decidimos apresentar cinco individuais, como se coletivas fossem. Ou seja, foram feitas 10, e todas serão acatadas para a votação da lei de Diretrizes Orçamentárias que acontecerá antes do recesso.
Em suma, o PT está bem menos radical, mais aberto e menos militante? Nós passamos por algumas crises no partido que levaram a um certo acanhamento. No DF, o escândalo do Mensalão abateu fortemente sobre nós. Tínhamos o voto da classe média e sofremos o baque da crise naquele momento. Tivemos a falta de uma política clara da direção partidária para 2006, tanto que não houve clareza de que tática adotar nas eleições. Tivemos uma disputa interna muito intensa em 2007. Mas olho para o partido hoje e vejo que o pior já passou.Passou, mas deixou seqüelas. O partido no DF perdeu os jovens, a militância e se tornou quase que um apoiador do governo local. Ainda temos ¼ do eleitorado acreditando no PT. Com migração de voto. Graças á qualidade do governo Lula, conseguimos aumentar nosso votos na classe D e E, e mantivemos os votos da classe média. O período de dificuldades já está sendo ultrapassado. Mas é importante que fique claro que, no DF, o PT é oposição, não governo. E sendo oposição, tem que agir como oposição.
Mas não vem agindo... Temos quatro excelentes deputados distritais, com diferenças de estilos. Cabo Patrício é muito arrojado e deu nova característica à liderança, com forte oposição. A população espera isso do PT. Ela sabe que quem ganhou a eleição foram os Democratas, e espera do PT uma postura crítica, firme, de oposição. E o Patrício tem feito isso muito bem. Oposição sem incoerência, sem intransigência.
Então, o PT está se resgatando? Essa é a postura que a militância do PT estava exigindo da liderança. Isso é bom para a cidade. Um governo que não tem oposição, não consegue ver nem seus próprios erros.
E o senhor acha que é com essa postura que vai manter os votos e trazer novos aliados? Sim. Temos de ter postura firme sempre. Tanto para defender o governo Lula, quanto parta criticar erros e equívocos do governo Arruda. Oposição não pode ser cega, se tiver que elogiar, deve ser elogiado também. Eu acho que o governo Arruda acertou ao adotar a postura da legalização da cidade, mas vejo equívocos como privatização dos serviços da Saúde e da Educação. E acho que assim, com essa postura, atrairemos novos militantes e lideranças para 2010. Hoje nós estancamos a saída de pessoas e estamos recebendo outras. Nós acabamos de receber o Agnelo e estamos esperando receber, em 2009, o Reguffe.
Já falando em 2010? O PT no DF então já deu o pontapé na corrida eleitoral? Vejo o partido disputando o governo em 2010, cargos importantes como o Senado, e com boas chances de ganhar. A política é um processo permanente de articulação. Ainda faltam dois anos e meio, mas é inevitável que a qualquer momento tenhamos de conversar sobre 2010. O PT chegará nas próximas eleições com muito mais força.
“Temos bons nomes para 2010. Recebemos o Agnelo e devemos receber o Reguffe em 2009. Uma alinaça com o PMDB também não é descartada”
Aliado com quem? Vão seguir a tendência de Lula e se aliar ao PMDB? É forte essa especulação na cidade... A prioridade é fazer alianças com o campo da esquerda. Mas devemos estar abertos a todas as possibilidades. Quem quer ganhar uma eleição faz como Lula fez em 2002. O PT precisa se aliar a alguém para chegar ao governo do DF. Hoje, o PMDB é nosso aliado e tem ajudado muito o presidente Lula no cenário nacional, temos de reconhecer. Mas a melhor aliança para 2010 só será discutida em 2010. Será com o PMDB? Difícil responder agora...
Já foram citados os nomes de Agnelo, que não entrará no partido em vão, Reguffe, Cabo Patrício, e até o PMDB de Filippelli e Roriz. Quais seriam os outros nomes? Temos, pelo menos, cinco bons nomes para serem candidatos a qualquer cargo. Mas seria precipitação definir nomes fora da hora. É perigoso expor esse nome a "chuvas e trovoadas". Em setembro de 2009 devemos discutir nomes. Mas é muito cedo para falar ainda.
Passamos de MP 431 a política e campanha de 2010. Poderíamos terminar falando sobre a presidência do partido no DF, que está nas mãos do ex-deputado Chico Vigilante. Ora, se o PT quer ser oposição, como manter um presidente que é, declaradamente, apoio do governador Arruda? Infelizmente o companheiro Chico não consegue diferenciar o papel de um presidente do partido de um parlamentar. O parlamentar é obrigado a dialogar com o governo. Se um deputado tiver uma reunião com Arruda, ele é obrigado a ir, a interlocução e institucional. Eu, como coordenador da bancada do DF, sou obrigado a me reunir com o governador. Mas ele não! Se ele não é da base do governador, não tem de ficar se encontrando, se reunindo com o Arruda. Este papel é feito pelo parlamento. Muito menos, ele tem que substituir a CUT para discutir questões sindicais. Esse é um equivoco que ele não consegue perceber.
E o resultado disso? Ele tem de representar o partido e o partido é oposição. É difícil trabalhar quando o presidente do partido não adota uma postura clara, firme. Isso atrapalha o trabalho das bancadas, da militância. Mas acredito que ele está vendo que ele não pode ter essa postura dúbia. Mas já fiquei sabendo que houve uma orientação muito clara em um seminário recente que aconteceu
Que orientação? Que o partido deve fazer oposição ao governador Arruda, sem negar as suas interlocuções institucionais.
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Carlos Honorato
Blog
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01/07/2008 19:05:09
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‘A ameaça não vem da China e Índia, mas do Japão’
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Priscila Dal Poggetto
Do Diário do Grande ABC
A Índia também chegará no mercado brasileiro por meio de acordo assinado com a Fiat. A Tata Motors, maior empresa automotiva indiana, concedeu licença para a montadora italiana produzir na fábrica de Córdoba, na Argentina, uma picape de porte médio, um segmento em que a Fiat ainda não atua. Entre os alvos de vendas está o Brasil. O investimento foi de US$ 80 milhões e a meta é produzir 20 mil unidades anuais.
No entanto, não é nem o carro chinês nem o indiano que vão ameaçar as montadoras aqui instaladas. Em entrevista ao Diário, o consultor Corrado Capellano, da Creating Value Consultoria, destaca a ameaça dos japoneses. Além disso, contextualiza as necessidades que essa região precisa suprir. Leia trechos a seguir:
DIÁRIO – Qual é o tamanho do mercado asiático?
CORRADO CAPELLANO – O mercado asiático, em termos de tamanho, já é o que mais precisa importar. Até 2005, esse mercado crescia 40% ao ano. Agora, esse ritmo vai reduzir um pouco e espero que fique na faixa entre 10% e 11% até 2010.
DIÁRIO – A diminuição será significativa? O que explica essa tendência?
CAPELLANO – Quando você sai de um volume mais baixo, os percentuais iniciais são altos. O mercado atingiu um número importante, o que significa que vamos ter na China os mesmos problemas que o Brasil tinha no final da década passada.
DIÁRIO – Quais seriam esses problemas?
CAPELLANO – Houve muito investimento na China e muitas fábricas foram abertas. No entanto, a utilização das fábricas chegará a 50% da capacidade, abaixo do nível de eficiência.
DIÁRIO – E qual será a saída para esse problema?
CAPELLANO – Eles precisam de mercado para sustentar as fábricas lá e vão procurar nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil. Os fabricantes chinesas vão começar a montar carros no Brasil em breve. Elas vão testar o mercado nacional.
DIÁRIO – E esses produtos serão realmente mais baratos que os produzidos aqui?
CAPELLANO – Sim. Os preços para produzir lá são mais baratos e chegariam aqui com valor 8% menor que o de um Uno Mile (carro mais barato no Brasil), por exemplo.
DIÁRIO – Esse preço pode ser considerado assustador para os concorrentes brasileiros?
CAPELLANO – Não é assustador, porque eles precisam conquistar a confiança do mercado. Fazer grandes investimentos é uma coisa, mas conquistar consumidores é outra.
DIÁRIO – Então isso irá gerar uma corrida pela imagem entre as montadoras?
CAPELLANO – Isso irá resultar em uma verdadeira guerra de marcas. O que fará a diferença serão as revendas e a assistência técnica.
DIÁRIO – E como está a imagem das fabricantes chinesas atualmente?
CAPELLANO – No geral, as marcas chinesas têm rejeição, pois são ligadas a baixa qualidade, baixa tecnologia e pirataria.
DIÁRIO – O que elas farão para reverter o preconceito?
CAPELLANO – As marcas chinesas vão comprar marcas ocidentais para entrar no mercado e se fixar. Foi o que aconteceu com a britânica MG Rover, que foi adquirida pela Nanjing Automotive .
DIÁRIO – E a Índia? Ela pode ser considerada também uma ameaça?
CAPELLANO – A Índia é um mercado menor. O fabricante local forte é a Tata, que tem negócios com a Fiat. Só que ela não possui tradição no mercado por ter apenas dez anos de existência.
DIÁRIO – A Tata entrará no mercado global?
CAPELLANO – Atualmente, as vendas da Tata são basicamente para o mercado interno da Índia, mas já exporta produtos. Porém, entrará sim no mercado global, vendendo carros populares com grande chamativo de preço, para garantir a aceitação dos clientes.
DIÁRIO – Então, também será um concorrente?
CAPELLANO – Ela pode ser considerada concorrente. Por isso, fidelizar o cliente hoje em dia é dizer tudo. Isso é proteção contra qualquer novo concorrente.
DIÁRIO – Ao observar as vendas globais da Toyota Motors, percebe-se que ela mostra fôlego imenso e se tornou a segunda montadora no ranking de vendas do mercado norte-americano. Qual sua visão sobre o desempenho da empresa?
CAPELLANO – A Toyota é mais um argumento de conversa do que objetivo de negócios. A meta é lucratividade,rentabilidade e pagar investimento. E o caminho dela não é entrar na guerra do ranking de vendas. É um bom sinal, mas não é tudo.
DIÁRIO – Ela vai ameaçar o mercado brasileiro?
CAPELLANO – Nos próximos quatro e cinco anos, quando deverá entrar no país um veículo menor da Toyota, ela vai mexer com a concorrência e afetá-la mais do que os chineses. A América Latina como um todo é muito importante dentro da economia. E o Brasil pertence à rede de desenvolvimento mundial das montadoras.
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Carlos Honorato
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18/02/2007 17:55:06
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Collor: “Fui vítima de um golpe”
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Marcelo Vieira - Jornal da Comunidade
Após 15 anos afastado da vida política, o ex-presidente e agora senador por Alagoas, Fernando Collor de Mello (PTB), diz que foi derrubado por um “golpe”. Um “golpe” cometido pela mesma Casa, o Senado, onde hoje tem assento. Em entrevista ao Jornal da Comunidade, ele diz que contará a sua versão sobre o impeachment logo no primeiro pronunciamento que fará na tribuna. Ele promete contar os bastidores de toda a articulação feita para lhe derrubar, dando inclusive nome aos bois.
Como está sendo sua volta à política?
Chego ao Senado como ex-presidente, como uma pessoa que acumulou uma experiência e desejoso de participar do debate nacional.
Qual é o primeiro projeto que pretende apresentar?
No mais tardar na segunda quinzena de abril, estarei apresentando um proposta de reforma política ampla, abrangente, profunda. Também pretendo fazer um pronunciamento da tribuna do Senado em que darei a minha versão dos fatos que redundaram no meu afastamento da Presidência em 1992.
Por que falar sobre isso?
Porque inúmeras versões foram dadas, livros foram escritos, teses foram defendidas, uma profusão de artigos, um atrás do outro, todos se julgando muito mais que circunstantes, se julgando participantes ativos daquelas dias que foram um tormento para todos nós. Todos deram a sua versão, menos eu que não tive ainda a oportunidade de oferecê-la à nação brasileira.
Apresentarei fatos concretos da violência que foi cometida contra um presidente da República legitimamente eleito, no exercício de seu cargo, que foi absolvido contra todas as acusações que foram feitas contra ele e afastado em função de um golpe.
O senhor tem até um livro...
O título do livro que eu já escrevi e ainda não publiquei é o seguinte: Crônica de um golpe, a versão de quem viveu o fato. No pronunciamento, estarei fazendo, cronologicamente, todas as violências que foram cometidas contras as lei vigentes no País e contra a Constituição. Por exemplo: no dia tal, foi dada a entrada do pedido da CPI para apurar tais e tais coisas; foram nomeados os seus integrantes, o que aconteceu na nomeação.
Então eu digo: às tantas horas, de tal dia, foi feito um acordo para retirar fulano e colocar beltrano, fora do acordo feito pelas lideranças. Vou mostrar também as vozes lúcidas, juristas importantes, inclusive alguns investidos de mandato parlamentar, que alertavam para a violência jurídica que estaria sendo cometida naquele processo.
Qual a sua proposta de reforma política?
O meu projeto de reforma política passa pela proposição da mudança de sistema de governo, de presidencialismo para o parlamentarismo. Esse é o ponto fundamental.
Além disso, eu pretendo colocar a questão do financiamento público de campanha, a questão da fidelidade partidária, a questão da obrigatoriedade dos partidos na formação de seus quadros, para que quando deles sair algum candidato, conheça, entenda alguma coisa sobre o que significa uma representação popular.
A questão do voto distrital misto, da não-obrigatoriedade do voto, enfim, vários outros pontos que nós pretendemos colocar, para que seja, de fato, uma reforma política à altura do seu nome e do seu espírito.
O parlamentarismo vigorou no País e foi negado em plebiscito....
Ele foi imposto. Não podemos dizer que o Brasil viveu um regime parlamentarista porque aquele foi um momento (renúncia de Jânio Quadros) de grande ebulição, de grande comoção política, foi uma saída que se encontrou para que o vice-presidente legitimamente eleito pudesse ser empossado, senão seria destituído.
Para mim o sistema presidencialista é a grande carroça do sistema político brasileiro. Não há nada mais anacrônico, mais atrasado, não há nada mais república de bananas do que o sistema presidencialista.
Quais as fragilidades do presidencialismo?
Todas as fragilidades possíveis. A primeira delas é a que acomete, semana após semana, mês após mês, que é a questão da governabilidade. Qualquer problema que exista no seio do governo já é uma crise. Essa crise desperta, sempre, a ingovernabilidade.
Temos que preservar a governabilidade. Falo com autoridade de quem já foi presidente no sistema presidencialista. Em várias oportunidades me pegava discutindo problemas de renegociação da dívida externa, no outro telefone um ministro querendo falar sobre uma greve dos eletricitários que receberam uma proposta que eles estavam fazendo para terminar a greve, do outro lado o pessoal da indústria automobilística querendo que fosse revogada aquela questão da abertura, sistema de cotas, depois alguém esperando para ser atendido pois quer a nomeação de alguém em cargo federal em seu estado. Isso são coisas absolutamente díspares. O presidente da República não pode ficar submetido a isso.
O que o senhor gostaria de ter feito na Presidência que não fez?
Eu gostaria de ter formado uma base parlamentar mais sólida, de ter dedicado mais atenção ao Congresso Nacional.
Se desse atenção, evitaria o impeachment?
Não tenho dúvida de que não teria sofrido esse golpe. Não é uma impressão minha. A rigor, eu tenho que dar esse crédito ao então líder do PMDB na Câmara, que foi um dos protagonistas desse golpe e que mais tarde foi apanhado com as mãos nas burras do orçamento. Então diziam: o Collor caiu porque não tinha maioria. Se tivesse, ele não teria caído.
O que o senhor diria aos caras-pintadas que saíram às ruas em 92 e hoje estão vendo esses escândalos de corrupção patrocinados pelos seus algozes?
Eu só teria a dizer o seguinte: ouçam com muita atenção o discurso que farei no Senado e façam as suas reflexões.
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Carlos Honorato
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10/02/2007 12:28:43
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Abadia: "O Entorno me preocupa muito"
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Priscila Mesquita - Jornal de Brasília
O ano de 2006 foi intenso na vida da governadora Maria de Lourdes Abadia. Ela assumiu o Palácio do Buriti, concorreu à reeleição, perdeu e se viu abandonada por aliados. A poucos dias de passar a faixa de governador ao pefelista José Roberto Arruda, ela revela nesta entrevista ao Jornal de Brasília que as mágoas estão passando. Tanto que jogou no lixo o primeiro discurso que escreveu para a cerimônia da posse, dia 1º de janeiro. "O meu discurso seria de uma tucana desaforada, sem papas na língua, falando de tudo. Mas eu refleti", conta, dizendo que vai mudar o tom. Ansiosa para deixar a Residência Oficial de Águas Claras, que considera "sombria e solitária", ela adianta os convites de emprego que está analisando e revela que seu maior temor em relação a Brasilia é a situação do Entorno: "Não adianta ter ilha da fantasia cercada por dificuldades. Isso me preocupa muito".
Faltam poucos dias para a passagem do cargo. Que atitude prática a senhora gostaria de ter tomado à frente do GDF que não conseguirá realizar?
Gostaria de ter resolvido o problema do transporte de massas. Espero que Brasília compreenda por que não o fiz. Em nove meses, com todo aquele projeto do Banco Mundial, não houve tempo suficiente. Não deu para terminar o metrô de Ceilândia porque dependíamos da importação de equipamentos. Mas as obras continuam, os recursos estão saindo.
Sabe onde vai trabalhar no ano que vem? Recebeu convites?
Meu principal projeto de 2007 é fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Esse é meu grande sonho. No aspecto profissional, recebi três convites muito bons. Pedi um tempo para pensar. Um é para fazer consultoria para uma organização internacional, outro para trabalhar em uma instituição de grande credibilidade no DF e o um terceiro também na linha de consultoria. O da área internacional me preocupa porque eu teria que passar seis meses em Genebra, na Suíça, e não quero ausentar-me de Brasília. Quem não é visto, não é lembrado. Se eu saio daqui, corro o risco de o povo esquecer-me. Outro grande projeto que tenho é tocar meu trabalho à frente do PSDB Mulher. Quero viajar o Brasil todo, tendo em vista as eleições de 2008.
Realizar o trabalho à frente do PSDB Mulher significa então que a senhora não está pensando em trocar de legenda?
Não penso em mudar, absolutamente. Nós podemos divergir, como é o caso desse momento, mas eu respeito a decisão da maioria. E eu ajudei a fundar o PSDB. Tenho um carinho muito grande pelo partido. Essa possibilidade está descartada. A não ser que eu seja expulsa (risos).
A senhora nunca escondeu que não se sentia muito à vontade na Residência Oficial de Águas Claras. Quando deixará a casa? A reforma do seu apartamento está pronta?
Estou arrumando meu poleiro, porque tucano tem poleiro (risos). É uma pequena reforma. A casa em Águas Claras fica em um local muito bonito, porém lá é muito grande. E como minha família é pequena, a casa se torna sombria e solitária. Para as pessoas irem lá, é uma confusão. Têm que se identificar, apresentar identidade, se não tiver o nome de todos na lista não entra. Tenho muitos amigos que não vão lá e preferem que eu vá à casa deles. Aí eu fico isolada. Por outro lado é uma experiência incrível. Tem plantas, flores, pássaros. Mas, é muito diferente da minha vida, da minha referência e da minha história humilde. Não sou acostumada a ter muita gente em volta, garçons. Isso às vezes me incomoda. Claro que não é culpa deles.
Que lembranças deixará na residência oficial?
Uma imagem de Nossa Senhora Aparecida na capela, muitas flores que pedi aos jardineiros que plantassem e a fotografia do Pantoja (Nelson Pantoja, marido de Abadia) na galeria das primeiras-damas. Ele está resistindo, mas eu disse que ele precisa seguir o protocolo. Ele não vai escapar. Eu não fui a primeira governadora mulher? Ele foi o primeiro primeiro-damo, ué!
Passado um tempo depois da eleição, depois de mais reflexões, a senhora acredita que possa colaborar de alguma forma com o próximo governo?
Eu até falei isso para o Arruda. Sou cidadã de Brasília, acima de tudo. Sou uma candanga, ajudei a construir essa cidade, dediquei grande parte da minha vida à Ceilândia. Claro que dar conselhos ou sugestões eu não farei se não for convidada. Até mesmo porque ele tem seu próprio plano de governo. Mas, eu não serei oposição por oposição. Não sou tão ingênua assim e nem maldosa. Quem vai fazer o julgamento do governo dele é o povo. Torço para que ele faça um bom governo porque o que está em jogo é a nossa qualidade de vida. Torço muito para que ele tenha sucesso, que a equipe dele seja comprometida. Desejo mesmo, de coração. Mas, claro que se eu sentir algo, como cidadã, vou cobrar e protestar.
Em que político a senhora ainda confia, depois das eleições de outubro?
Não é questão de confiar. Até mesmo porque em política há algo interessante. Em uma campanha somos aliados, na outra somos adversários, depois voltamos a ser aliados. As coisas mudam de acordo com as circunstâncias. Não podemos dizer dessa água não beberei, por esse caminho não seguirei. Eu me deixo seguir pelo destino. Acredito muito em Deus. Sou uma pessoa de fé. Tudo de bom que aconteceu comigo foi misericórdia de Deus. Procuro não guardar mágoas. Pesa. E, para piorar, sentimos mágoa de amigos, e não de adversários. A mágoa é diferente do ódio. Temos mágoa de quem consideramos. E ela fica corroendo. Vai e vem. Isso impede o crescimento como pessoa, estadista, política, cristã. Recentemente participei de uma missa de ação de graças. Roriz e dona Weslian foram, a maioria do secretariado também. Eu sinto que foi muito bom o ato. Até mesmo para fazermos acerto de perdão, de compreensão, de gesto de fraternidade, com a proximidade do Natal.
Passada a campanha eleitoral, como a senhora encara agora a sua relação com o ex-governador Joaquim Roriz?
O governador Roriz nunca ofendeu-me. A missa da qual participamos fez-me chegar em casa e rasgar o discurso que eu tinha preparado para a solenidade da posse. O meu discurso seria de uma tucana desaforada, sem papas na língua, falando de tudo. Mas eu refleti. Coloquei-me nas mãos de Deus e pensei: somos todos irmãos, todos temos limitações, todos fracassamos, todos avançamos, todos crescemos. E o importante é que a gente não interiorize esses sentimentos, para sermos mais felizes. Hoje estou bem mais leve. Rasguei o discurso do dia 1º. Farei outro, talvez com a frase de Fernando Pessoa: 'Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena'.
Que lição ficou da disputa de outubro?
Se eu tivesse ficado em terceiro lugar, teria sido muito ruim. Mas isso não aconteceu. A diferença de votos entre Arruda e eu foi pequena e tive uma votação expressiva, com mais de 300 mil votos. Então, sinto que perdi a eleição, mas não fui derrotada politicamente. Se você pensar em outros perdedores, há os que têm bom conceito na cidade e tiveram votação expressiva. Se você somar os meus votos com os da Arlete, verá que apenas por uma questão de número não vencemos. Brasília mostra um quadro de perdedores que não são derrotados. Teve uma pessoa que me disse: 'Abadia, você não foi vitoriosa. Você deixou de ganhar'. É mais ou menos essa diferença. Acho que nós não podemos desistir da carreira política. Até porque a população exige a nossa participação.
Com uma larga experiência como vice, o que sugere ao senador Paulo Octávio para que ele se saia bem na função?
Eu diria para ele nunca ser vice (risos).
Mas, já que ele é...
Já que ele é eu não posso mais dar esse conselho a ele. É um cargo estepe. O Jô Soares é quem diz: 'Você já viu alguma rua com o nome de vice?'. Não tem.
Com uma visão de cidadã e com sua experiência de governante, qual a maior preocupação que a senhora tem em relação a Brasília?
O Entorno. Os governos de Minas Gerais, Goiás e DF precisam se unir para salvar Brasília. Ninguém vai conseguir isso se não forem feitos projetos integrados, com visão metropolitana para o Entorno. Não adianta ter ilha da fantasia cercada por dificuldades. Isso preocupa-me muito.
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Carlos Honorato
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18/12/2006 09:47:27
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Abadia usará receita de Arruda
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Ana Maria Campos e Lilian Tahan
Da equipe do Correio Braziliense
Primeiro de novembro de 2006, véspera do dia dos mortos. A governadora do Distrito Federal recebe em seu gabinete no Palácio do Buriti um arranjo de orquídeas brancas. A orquídea é a sua flor predileta. Ao ler o cartão, ela chora. A mensagem diz: “Uma homenagem pelo Dia de Finados”. Em entrevista ao Correio, na última quarta-feira, Abadia falou pela primeira vez sobre o episódio e voltou a se emocionar. “Eu não merecia isso”, afirmou. Mas esse foi o único momento de fragilidade. A tucana diz que saiu da eleição e deixa o governo no dia 31 mais forte e mais preparada para os embates futuros.
Abadia avisa que vai entrar em quarentena até o carnaval. Mas depois vai mergulhar no seu projeto de disputar a eleição para governador em 2010, quando planeja aplicar a receita que, na sua opinião, rendeu a vitória ao pefelista José Roberto Arruda. “A lição do Arruda foi de que gastar sola de sapato, ir a batizado de boneca, ao cemitério e até beber café em xícara furada é ótimo”, confessa.
Apesar de ter sido a principal rival de Arruda na eleição, neste momento ela mira a artilharia sobre seu próprio partido, que acusa de se oferecer ao governador eleito. E também fala de mágoas. Embora reconheça a importância do ex-governador Joaquim Roriz na sua trajetória política, Abadia afirma que jamais entregará novamente seu destino a ninguém, como fez nos últimos quatro anos. O isolamento político, que ficou claro na campanha, já começa a ser digerido. “Estou juntando os cacos”, conta.
O que houve de mais importante neste período de governo?
Foi mais uma experiência que me enriqueceu muito, em todos os sentidos. Não se pode deixar uma decisão para ser tomada amanhã. Você é a última palavra. A sua caneta resolve. A sua ordem tem que ser cumprida. É uma experiência nova, principalmente para a assistente social que começou a vida com o pires na mão.
Nove meses foi pouco tempo?
É o prazo de uma gestação. Não tem coisa mais representativa que uma gestação. Nove meses foi o tempo suficiente para que eu visse todas as preocupações e atribuições de um governo.
A senhora acha que poderia ter feito mais se tivesse montado a sua própria equipe?
Quando fizemos a aliança PMDB e PSDB e assumi a vice-governadoria, trabalhamos muito juntos. Mas algumas pessoas não manteria, se tivesse sido eleita.
A senhora acha que conseguiu dar a sua cara ao governo?
Acho. Em nove meses não é possível fazer grandes obras. Então qual foi a minha decisão? Investir em pequenas grandes coisas, pequenas no tamanho mas que têm resultado grande.
Tem alguma área que estava abandonada e que a senhora acha que merecia uma atenção especial?
Até o governador falou quando me entregou o governo sobre a questão do transporte. Nessa área não adianta fazer remendos. Você pode até correr o risco de piorar ainda mais. A melhoria do transporte é uma dívida com a população tanto do governador Roriz, quanto dos meus noves meses.
Como a senhora avalia as mudanças que o governador eleito está propondo?
Brasília teve um crescimento muito grande e as demandas aumentaram demais. A gente teve que atendê-las muito urgentemente. O momento exigia. Hoje, no entanto, concordo que é salutar fazer um reestudo da situação, da realidade de Brasília. Não quero entrar na questão do que o novo governo vai fazer, até porque eu sou suspeita. Mas quando ele (Arruda) me pediu para encaminhar (para a Câmara) a reforma administrativa, fui muito clara e sincera. Disse que não mandaria porque, no meu plano de governo, não tinha demissão em massa. Seria muito bom ele dizer: foi a Abadia que demitiu vocês. Vou, não. O Paulo Octávio disse: “ajuda, Abadia. E eu, ó!” (nesse momento, ela sinaliza uma banana). Depois não saio na rua. Todo mundo vai dizer: é a megera, que perdeu a eleição. Vingativa, né?
Como vai ser a relação da senhora com o novo governo?
De independência. Eu fiquei muito triste com meu partido. Um desabafo: não tive oportunidade de conversar com o PSDB.
A senhora ficou sabendo pelos jornais que havia uma decisão do PSDB de apoiar o Arruda?
Foi. A gente lutou muito para construir um partido ético, diferente, com a cara do Mário Covas, do Franco Montoro. E quando vi nos jornais que na calada da noite um assessor do Arruda procurou o PSDB para negociar e que eu não fui avisada, pensei: vou lavar as minhas mãos. Mas eu disse ao Arruda. Levar o PSDB não é certeza de apoio na Câmara. Os votos do partido são do Roriz. Jaqueline Roriz e Milton Barbosa não vão brigar contra interesses dele.
O PSDB atropelou a senhora?
A mim, não. Atropelou a história. O PSDB foi de oferecido apoiar o Arruda. Aí o Arruda fez o que eu faria também: mandou um assessor conversar. De segundo escalão para segundo escalão. De pequeno para pequeno. Eu fiquei triste com meu partido. E sou até generosa porque o Geraldo Campos, que está de licença médica, não estava na direção. Então fiz uma carta e disse que respeito a maioria do partido, a decisão de apoiar, até sem saber o motivo. Mas da mesma forma, queria que eles respeitassem o meu direito de ser independente. E mais uma coisa: quem votou em Abadia — foram mais de 300 mil votos — não votou em Arruda. Acaba a eleição e apareço abraçada com Arruda? Eu estou pensando em 2010.
A senhora vai disputar o governo?
Não sei. Muita água pode correr. Mas eu não morri. Perdi a eleição, mas não estou morta, não. Estou vivinha da silva e mais esperta do que nunca.
A senhora acha que no dia seguinte à eleição já está todo mundo pensando em 2010?
Não sei. Mas eu estou e muito. E é engraçado: está todo mundo me oferecendo emprego. Eu digo não. Quero ser uma borboleta voando. Todo mundo quer me dar trabalho para eu não dar trabalho para ninguém.
O Arruda venceu as eleições fazendo campanha durante quatro anos. A senhora já vai começar?
Isso eu aprendi com ele. A lição do Arruda foi de que sola de sapato, batizado de boneca, ir ao cemitério e beber café em xícara furada é ótimo. Vou ter uma quarentena e vou arrumar minha casa, minhas gavetas, pregar botão nas camisas do Pantoja (marido de Abadia), ver o que eu uso, o que não uso. Vou repaginar minha vida. Deletar o que não presta. Jogar fora o que não uso, terminar o tratamento de dentes, fazer um check-up, fazer hidroginástica…
E quanto tempo dura essa quarentena?
Vou retornar depois do carnaval. Depois eu vou pensar o que fazer.
A senhora esperou muito o governador Roriz, entregou seu destino político a ele. Hoje a senhora acha que fez a coisa certa?
Aprendi que nunca mais entrego meu destino a ninguém. Para errar, para acertar, para me lascar, o que for… Eu e o Filippelli (Tadeu, deputado federal eleito) ficamos muito no trabalho. Pensamos que o que fosse decidido estaria decidido. E Arruda e Paulo Octávio saíram na frente. Então nós ficamos reféns de um processo. Se tem uma pessoa que comandou as eleições de 2006, essa pessoa se chama José Roberto Arruda.
Como a senhora analisa o comportamento de Roriz na campanha?
Nunca sentei com ele para conversar, fazer uma análise política, uma reflexão do que aconteceu. No fundo, acho que a mais prejudicada de todo o processo fui eu porque todos se elegeram, todos estão com mandato. Eu fiquei com o governo, tendo que trabalhar, que dar conta do recado. Essa foi a pior campanha que eu tive na minha vida, a mais difícil.
Essa campanha apontou traidores?
Não digo isso. Prefiro interpretar que o Arruda foi mais sedutor.
Durante a campanha, a senhora falou que não sabia qual era
o seu grupo político…
Estou fechando o governo e não sei quem ainda está comigo ou já está do outro lado.
Como a senhora acha que vai ser a relação de Roriz e Arruda?
O Arruda vai querer deixar a marca dele, ainda mais se cumprir com a promessa de só vai ficar quatro anos. Vai ser um touro. Se não sair da frente, ele vai passar por cima. E que se cuide o Paulo Octávio.
A senhora acha que é possível fazer um governo compartilhado?
Até que é. Eu e o governador Roriz fomos muito parceiros. Tenho as minhas mágoas, mas sei reconhecer que ele me deu carta branca na área social, me entregou os programas e me entregou Brasília. Não sei como foi o acordo do Arruda e o Paulo. Mas duvido muito que, se o Arruda fizer um governo brilhante e o povo o estiver carregando nas costas, ele cumpra a palavra. É difícil até porque o povo não vai deixar. Acho que o Paulo vai ter que rebolar.
O governador Roriz tem dado sinais de que pode se aliar ao Arruda.
Ele está aliado há muito tempo. O Roriz quis agradar a todos. Ele não quis nem contrariar ao Arruda e nem a mim. E como ele precisava do voto de todos, ele não quis se posicionar.
Na última semana da campanha, a senhora estava visivelmente abalada. Em algum momento a senhora pensou em não votar no Roriz?
Não. É uma questão de caráter. Muitas pessoas que vieram falar que não iam mais votar no Roriz porque não estavam sentindo firmeza, compromisso da parte dele, eu dizia que nós não tínhamos que dar explicação do que os outros estão fazendo, temos que dar explicação do nosso compromisso. Se o governador Roriz tivesse um voto, seria da Abadia.
A senhora ainda sente a autoridade do Roriz? Alguns setores do governo prestam contas a ele?
Ele tem um governo de 14 anos, foi muito ativo, com muitas grandes obras.
Como a senhora acha que será o relacionamento daqui para frente com o Roriz?
Com muito respeito. Tenho respeito pela história e oportunidade que ele me deu. Como eu sou leonina, a emoção fala muito alto. Estou num momento de juntar cacos. É aquela história, uma vez um discípulo chegou para o Gandhi (líder espiritual da Índia) e disse que havia engolido uma mosca. Então ele aliviou: isso não é nada, a sua garganta é mais larga que uma mosca. Depois esse mesmo discípulo chegou dizendo que engolira sapo. Mas aí Gandhi falou: “Poxa, mas sapo tem a pele tão lisinha, manda brasa”. Mais adiante, ele chegou dizendo que não seria possível passar um caroço de pêssego. Mas Gandhi o incentivou. Por fim, o discípulo avisou que estava em fim de linha porque ele não era capaz de engolir um elefante. E Gandhi respondeu: “Pois, fatie o elefante”. Eu estou assim: engolindo elefante fatiado.
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Carlos Honorato
Blog
em
11/12/2006 01:42:12
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Governo divulga estimativa de desmatamento na Amazônia nos últimos 12 meses
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Carolina Derivi
De São Paulo
O Governo Federal apresentou uma estimativa de 13.100 km2 desmatados na Amazônia no período de agosto de 2005 a agosto de 2006. Os dados são do Projeto de Monitoramente do Desmatamento na Amazônia Legal (Prodes), desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Com o anúncio, o Inpe atende a uma solicitação do próprio governo brasileiro referente à próxima etapa da Convenção de Mudanças Climáticas (COP), no mês que vem em Nairóbi, no Quênia. Nesse Fórum, o Brasil procura defender a criação de um fundo internacional para compensação financeira de países que conseguirem conter o desmatamento em seus territórios. Para fortalecer a idéia, os representantes brasileiros precisariam de dados atualizados indicando a queda do fenômeno na Amazônia.
Caso essa taxa se confirme, indicará uma desaceleração de 30% no avanço do desmatamento, em relação a 2004/2005, e seria a segunda menor taxa registrada desde a criação do Prodes, em 1988. Entretanto, o cálculo se deu com base em 34 imagens de satélite da região amazônica. No ano passado, o INPE também fez um estimativa como essa, mas utilizou 77 imagens (veja mapa abaixo). Isso significa que a amostragem atual é 44,7% menor que a utilizada para fazer a mesma projeção no ano passado.
O governo já havia divulgado no mês passado uma outra estimativa bem menos otimista: 16.700km2 desmatados. Esse número é baseado no sistema Deter, criado para acompanhamento em tempo real, menos preciso. Embora os dados do sistema Prodes sejam produzidos para fornecer o panorama mais confiável do desmatamento, o resultado apresentado hoje está longe de ser definitivo.
O MMA argumenta que as áreas analisadas concentraram, no período anterior, 67% do desmatamento total. Para Roberto Smeraldi, diretor de Amigos da Terra-Amazônia Brasileira, essa é uma referência perigosa: "Não podemos atribuir muito peso às projeções apresentadas, que carecem de massa crítica para permitir uma avaliação. Analisar apenas 34 imagens já é insuficiente como amostragem. Mas principalmente, ao extrapolar uma projeção a partir dessas 34 imagens, se esquece que o desmatamento migra e, especialmente ao longo dos últimos anos, não tem reproduzido a distribuição geográfica do ano anterior".
Comparação
Ao ser questionado porque os dados apresentados para 2005/2006, baseados em uma área menor, não foram comparados com dados da mesma área, no período 2004/2005, o Secretário Capobianco informou que "qualquer entidade pode fazer esta comparação, usando as imagens disponibilizadas pelo INPE. Foram usadas 34 imagens para o cálculo parcial, apresentado hoje referente à 2006. Tanto as imagens de 2005 como as de 2006 são georeferenciadas." O INPE comprometeu-se, durante a reunião da Ministra Marina com as ONGs, a disponibilizar as 34 imagens de 2006 amanhã em seu site.
O governo afirma que os dados consolidados devem ser apresentados somente no final do ano, juntamente com os números de cada estado e dos principais municípios. Atribuiu o resultado ao Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento, lançado em 2004, à criação de 19 milhões de hectares de unidades de conservação, entre outras medidas. A tendência de queda foi recebida com entusiasmo por alguns representantes do movimento socioambiental e cientistas atuantes na Amazônia. Entretanto, salientou-se que a área desmatada ainda é muito grande e que a manutenção de queda só será garantida com o fomento a atividades sustentáveis.
No próximo dia 09 de novembro será realizada uma reunião entre governo e ONGs para discutir os dados do desmatamento, fatores de conteção, cenários futuros e também propostas brasileiras para a COP.
Leia abaixo o depoimento de especialistas e pesquisadores sobre as estimativas de desmatamento na Amazônia para o período 2005-2006
Irving Foster Brown - Doutor em Geoquímica e pesquisador do Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre
"Uma avaliação mais profunda desse número é prematura, pois ainda não há um resultado por estados. Outro aspecto a se considerar é que a Amazônia tende a apresentar taxas cada vez menores de desmatamento, por haver cada vez menos florestas para derrubar: Em um lugar que apresenta uma taxa de 0% de desmatamento, por exemplo, não necessariamente há florestas".
Mary Helena Allegretti - Antropóloga e doutora em Desenvolvimento Sustentável pela UnB, é ex-Secretária de Coordenação da Amazônia do Ministério de Meio Ambiente (1999-2003)
"O Prodes indica uma queda significativa nas taxas de desmatamento na região amazônica. O que mais contribuiu para o resultado foi a crise internacional que derrubou o preço de algumas commodities neste ano, dentre elas, a soja. A tendência de queda só será consolidada se os números continuarem diminuindo mesmo com o reaquecimento do mercado da soja, o que pode acontecer no ano que vem. O aumento das atividades de fiscalização é outro aspecto que contribuiu para a diminuição da área desmatada. Mas apenas o incentivo do governo para a consolidação de mais atividades sustentáveis na região pode trazer uma mudança estrutural na Amazônia, e não apenas uma queda temporária nas taxas de desmatamento".
Philip Martin Fearnside - doutor em Ciências Biológicas e mestre em Zoologia, é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
"As políticas públicas do governo para a Amazônia deram resultado positivo . O dado divulgado pelo Prodes é uma boa notícia, se considerarmos que em ano eleitoral o governo costuma afrouxar a atividade de fiscalização na Amazônia para se ocupar com outros temas. A queda do preço da soja e da carne bovina congelada, bem com a queda do dólar, contribuíram para a diminuição da área desmatada neste ano. Apesar das políticas bem-sucedidas por parte do Ministério do Meio Ambiente,as obras de infra-estrutura que estão por virpodem acabar contribuindo para um aumento no desmatamento nos próximos anos. O governo está planejando a reconstrução da rodovia BR-319. Se esse projeto sair do papel, vai abrir metade da Amazônia e ligará o coração da floresta ao arco do desmatamento".
Paulo Moutinho - Pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia
"As áreas que foram analisadas são as do macro desmatamento amazônico, representam 80% do desmatamento da Amazônia, como no Pará e no Mato Grosso. Portanto não havería grandes mudanças nessa taxa se fossem englobadas as áreas restantes. Os dados do Prodes confirmam a tendência dos últimos anos, de uma queda constante no desflorestamento na região, o que nos traz uma esperança na possibilidade de melhor controle. Mas é necessário ressaltar que 13.100 km2 ainda é uma área considerável. A discussão deve mudar o foco, pois mais importante que as taxas é qualificar esse desmatamento, saber qual tem sido o uso dessas áreas para podermos desenvolver ações específicas".
Beto Veríssimo - Mestre em Ecologia e engenheiro agrônomo, é pesquisador-sênior do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia
"Essa queda se relaciona com o maior controle por parte do governo, com a criação de Unidades de Conservação em regiões problemáticas como a Terra do Meio (PA), o sudeste do Amazonas e o noroeste do Mato Grosso, e com a crise do agronegócio nesse último ano. As ONGs também têm contribuído muito com informações para controlar o desflorestamento.A taxa de 13.100 km2 surpreende, já que esperávamos algo em torno dos 15 mil. No entanto, devemos perseguir taxa zero, 10 mil seria o máximo admissível, tendo em vista que há tantas áreas desmatadas na Amazônia que não estão sendo aproveitadas".
Colaboraram Eliane Scardovelli e Renata Moraes
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Carlos Honorato
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16/11/2006 20:12:17
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Delfim Netto: “Voto não tem ideologia.
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Por Alan Rodrigues - IstoÉ
O deputado Delfim Netto é o derrotado mais vitorioso das eleições encerradas no domingo. Seus 38 mil votos não foram suficientes para reelegê-lo, mas sua picardia, inteligência e experiência o tornaram um dos principais conselheiros do presidente Lula. Na reta final da campanha, Delfim foi chamado para dentro dos palácios do Alvorada e do Planalto, residência e local de trabalho do presidente, orientou ministros, palpitou com marqueteiros e, mais que tudo, deu munição aos petistas para baterem forte, bem onde dói, nos tucanos. Foi Delfim quem pediu acento nas comparações entre a política econômica de Lula e a de Fernando Henrique Cardoso. Aos 78 anos, sai das eleições cotado para se tornar ministro de Lula. Sem dúvida, uma reviravolta histórica. Expoente do regime militar, ele tem chance agora de fazer parte do grupo de pessoas que estavam nos cárceres, no exílio e, também, que morreram no combate ao regime. Seu posto pode ser o de ministro da Agricultura, que ele já ocupou em 1979. Dali, foi guindado de volta ao comando da economia. Hoje, como ontem, Delfim insiste que nada entende sobre os problemas do campo: “Para mim, melancia dá em árvore”, diverte-se. Acompanhe:
ISTOÉ – Por que o Brasil não cresceu?
Delfim Netto – O País não cresceu por causa das condições que foram construídas na época do Real. O plano foi brilhante, mas terminou de maneira trágica por causa de três problemas: uma carga tributária bruta de 38%, o endividamento fantástico de 57% do PIB – hoje está em 50% – e uma vulnerabilidade externa apavorante. A dívida representava três vezes a exportação.
ISTOÉ – O que deu errado?
Delfim – Quando forem publicados os livros sobre a história econômica do século XX terá, pelo menos, uma nota de rodapé dizendo que quatro ou cinco economistas brasileiros construíram um mecanismo de estabilização, espiados na estabilização alemã pós Primeira Guerra Mundial, que foi um sucesso. Mas as condições para seu funcionamento exigiam eliminação da inflação, corte de despesas e aumento, pouco, de impostos. Os planos que terminaram bem tiveram essa receita. O problema é que Fernando Henrique jogou fora a oportunidade de ser um estadista.
ISTOÉ – De que forma?
Delfim – No primeiro mandato, não teve nenhum esforço fiscal – o ideal era cortar 4% das despesas – e manteve a taxa de câmbio a juros espantosos. O Brasil, por exemplo, é o único caso do mundo em que se vendeu o patrimônio e aumentaram as dívidas. Todas as condições foram negadas, por um único objetivo, que não estava no plano, que era a transação com o diabo para a reeleição. O Brasil esperava que FHC se transformasse em um estadista, mas ele virou um oportunista. O PSDB fez a política do nhenhehém e desconstruiu as condições do crescimento ao anestesiar a sociedade brasileira. E fez isso com a conivência de todos nós.
ISTOÉ – Qual seria a receita ideal?
Delfim – A política econômica deve ser apoiada no equilíbrio fiscal com carga tributária reduzida, uma dívida líquida decente com taxas de juros próximas às externas, com câmbio flutuante e com metas inflacionárias. O que exige um Banco Central autônomo. Na verdade, essa é a política econômica canônica aplicada no mundo inteiro, não é uma descoberta brasileira.
ISTOÉ – O sr. acha que a política econômica de Lula foi mais conservadora
do que a de FHC?
Delfim – Não. Lula continuou a política que o FMI ensinou a FHC em seu segundo mandato. Política econômica mesmo foi a do primeiro mandato do PSDB, que terminou na aparência. Nós já esquecemos que em 1998 a inflação era de 1,7% e o crescimento de 0,5%. Nós esquecemos que neste ano eleitoral o Brasil estava quebrado e recorria ao FMI. O então presidente americano, Bill Clinton, olhava de um lado e via um príncipe e de outro um sapo barbudo. Como homem de inegável bom gosto escolheu o príncipe FHC. Nos deram US$ 42 bilhões e fizemos a reeleição.
ISTOÉ – E as conseqüências?
Delfim – A farsa apareceu. O governo teve que liberar o câmbio e, pela primeira vez, fazer um esforço fiscal. O FMI impôs um superávit primário de 3,5%. Outra farsa: a idéia era cortar despesas em 3,5%, mas o PSDB achou mais fácil aumentar imposto em 3,5%. Foi o que FHC fez. Foi assim, de anestesia em anestesia, que em vez de fomentar se desconstruiu o crescimento econômico.
ISTOÉ – Mas o PSDB quis jogar a responsabilidade da crise para a ascensão
de Lula em 2001...
Delfim – Depois da eleição, a inflação estava logrando em torno de 25% a 30% e se o Lula brincasse ele ia se estuporar mesmo. Aliás, essa era a esperança do PSDB. ‘Nós deixamos uma bomba aqui, esse sujeito não sabe do que se trata e ela vai explodir daqui a seis meses e nós vamos ser chamados de volta.’ Esse era o pensamento deles. A surpresa enorme é que o Lula radicalizou a política. O Meirelles (presidente do Banco Central) aumentou os juros para 26%, o Palocci (ex-ministro da Fazenda) subiu o superávit para 4,8% e, em sete meses, a expectativa de inflação tinha voltado a 6% ao ano. O governo FHC se apoiou em teorias falsas. O Lula conseguiu fazer equilíbrio. O que mostra, na verdade, que as coisas são mais profundas. Só daqui a alguns anos, quando começarem a sair as teses de mestrado e doutorado, é que vamos saber que essa foi a tragédia do governo FHC.
ISTOÉ – Qual é a diferença entre o programa do PT e do PSDB?
Delfim – O programa do PSDB é uma teoria econômica que trata o mercado de trabalho como se trata um mercado de parafusos. Se sobra parafuso vai para o estoque, se sobra mão-de-obra vai para o desemprego. Para os tucanos, a teoria econômica serve unicamente para o desenvolvimento. Para eles, o desemprego não existe. O desemprego é apenas um ataque de vagabundagem do proletariado.
ISTOÉ – E no PT?
Delfim – No PT não tem ninguém com essa pretensão científica. Eles sabem que as teorias econômicas são muito úteis se combinadas com uma certa arte. Eles sabem mais. Sabem que existe a urna. Quando você pretende ser científico demais e acha que o mercado de trabalho é igual ao mercado de parafusos, a urna corrige. Quando você tenta ser populista demais e imagina que violando o equilíbrio fiscal você pode acelerar o crescimento, a urna corrige.
ISTOÉ – Mas o PSDB alega que a justiça social começou na era FHC...
Delfim – Os cientistas econômicos do PSDB nem sequer acreditam que exista justiça social. O (Friedrich) Hayek (Prêmio Nobel de Economia) provou para eles que isso é uma bobagem e a madame (Margaret) Thatcher confirmou. No Brasil, o problema fundamental é que, enquanto você não pode dar emprego para todos, você tem que ter uma rede de sustentação para aqueles que foram expulsos do mercado. Qual é a solução dos cientistas? Se eles estão sendo colocados para fora, logo essa é uma forma muito eficiente de aumentar a renda per capita. Eles que morram.
ISTOÉ – O que é sociedade justa para os mercados?
Delfim – É igualdade de oportunidades. Cabe ao Estado produzir o único bem público que só o Estado pode fazer: aumentar a igualdade de oportunidades. Isso significa que cidadania não depende de berço, cor, religião ou região que nasceu. Diz-se que o mercado é uma corrida. Logo pressume-se que os corredores tenham duas pernas e que partam do mesmo lugar.
ISTOÉ – Mas a corrida é injusta...
Delfim – É porque se põe um corredor na frente e do outro se tira uma perna. O papel do Estado é corrigir essa distorção. É por isso que o Estado é fundamental para que o capitalismo seja um sistema razoavelmente justo. Não é, como dizem os cientistas, para garantir a propriedade privada. É também para dar igualdade do ponto de partida. Essa é a diferença fundamental entre a proposta tucana e a de Lula.
ISTOÉ – O presidente Lula, eleito para mais um mandato, conseguirá costurar um pacto com a oposição?
Delfim – Uma das coisas que eu mais confio é na racionalidade do PSDB e do PFL. Ainda que tenham teorias supostamente científicas, os dois partidos sabem que há coisas importantes que precisam ser feitas. Os dois foram a favor do equilíbrio fiscal. Como podem ser contra agora? Como eles podem ser contra uma boa reforma trabalhista, aos estímulos ao desenvolvimento econômico do País? Isso está no programa deles.
ISTOÉ – E se resolverem fazer política com o fígado?
Delfim – Aí continuarão farsantes. E preste atenção, vão continuar nessa condição em 2010, 2014 e por aí vai. A oposição irracionalmente aprovou 16% de reajuste para os aposentados. A intenção era destruir o governo Lula. Os tucanos não consideraram as duas principais leis de Tancredo Neves. A primeira diz que, quando você é esperto demais, a esperteza te come. A segunda, que prevalece até hoje e assegurou a reeleição de FHC, é que em eleição não interessam estatísticas nem o que diz o tal do Karl Marx em o Capital. Só interessa o que diz o Diário Oficial (risos).
ISTOÉ – Como se dará esse pacto?
Delfim – A recomposição se dará em torno do poder. Aécio Neves (governador de Minas Gerais) é o mais jovem político que aprendeu a fazer política como quem faz tricô com quatro agulhas (risos). Além de neto, tem doutorado em Tancredo. E o Serra (governador eleito de São Paulo) é suficientemente inteligente para saber que seu Estado não pode se declarar independente.
ISTOÉ – Houve uma divisão da sociedade nessa eleição?
Delfim – O Sul, por exemplo, mostrou que voto não tem ideologia, o voto tem interesse econômico e esse interesse foi contrariado na região, embora a política cambial tenha diminuído o custo de vida e aumentado o poder de compra do salário mínimo. Os programas sociais do governo foram uma política de sobrevivência quando não se pode dar emprego. As regiões Norte e Nordeste entenderam isso. O problema é que os intelectuais tucanos condenam os programas sociais porque acreditam que o desempregado está nessa condição porque quer. Portanto, pensam eles, não daremos cesta básica para vagabundo. É esta a filosofia implícita que o PSDB não tem coragem de declinar. Aí, eles ficam na conversa da produção do resultados do equilíbrio macroeconômico desejado. As coisas são outras: eles destruíram as condições do crescimento econômico e não entendem que essa não é uma política assistencialista. Essa é uma política de sobrevivência enquanto você não pode dar emprego.
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Carlos Honorato
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10/11/2006 16:17:06
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Maguito Vilela: “Estou confiante na virada”
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João Bosco Bittencourt - Diário da Manhã
O candidato do PMDB ao governo do Estado, senador Maguito Vilela, confia numa virada a seu favor nesta véspera de eleições, embora as pesquisas de intenção de votos indiquem vitória de Alcides Rodrigues. O peemedebista espera resultados da associação de sua imagem à do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, favorito à vitória. Ele utiliza o argumento de que, em sua eventual gestão, Goiás seria melhor beneficiado com uma parceria entres os governos estadual e federal. Para Maguito, a comparação entre administrações do PMDB e do Tempo Novo foi a melhor forma de convencer o eleitor sobre quem é o melhor para administrar o Estado.
Diário da Manhã – O senhor acredita que o debate na televisão vai influir na decisão do eleitor e mudar o jogo nestas últimas horas antes do pleito?
Maguito Vilela – Procuramos, no debate, apresentar as nossas propostas para mudar os rumos da administração pública em Goiás e, ao mesmo tempo, reafirmar o compromisso de modificar tudo que está errado. Fizemos a comparação entre o nosso governo e o de Alcides Rodrigues, mostrando que foi o PMDB que modernizou o Estado, cuidou da infra-estrutura e implantou os programas sociais que atendem às camadas mais pobres da população. Fizemos um debate questionador, mostrando nossas diferenças. O eleitor agora poderá refletir melhor para tomar a sua decisão soberana.
DM – Mas há tempo para mudanças no cenário?
Maguito – A exemplo do primeiro turno, quando o eleitor mudou de posição em dois dias, estamos confiantes que haverá uma onda em favor de Lula e de Maguito neste 29 de outubro. O eleitor está deixando para a última hora a sua decisão, pois prefere esperar e analisar melhor as propostas e o comportamento dos candidatos. Neste segundo turno, estamos percebendo que o eleitor vincula a campanha de Lula à nossa, por entender que a parceria entre os governos federal e estadual será melhor para a população. Estamos confiantes na virada até domingo e conquistaremos uma vitória espetacular nesta corrida ao Palácio das Esmeraldas.
DM – No debate houve enfoque nas questões do passado – comparações entre o “tempo velho” e o tempo novo – do que propriamente apresentação de novas propostas ou de encaminhamento de soluções para a vida do cidadão. Não é uma estratégia equivocada?
Maguito – Precisamos fazer comparações, mostrar quem ocupou o poder e aplicou melhor os recursos públicos. No meu governo, fiz o melhor, atraí empresas que geraram milhares de empregos, cuidei da infra-estrutura e fui pioneiro na implantação dos programas sociais. Fui avaliado pelo Datafolha e Brasmarket como o melhor governador do País. Ao mesmo tempo, no debate, assumi o compromisso de reduzir impostos e de gerar empregos. Isso é encaminhar soluções para a população. Temos o mais avançado e moderno programa de governo, na busca de melhor qualidade de vida para a nossa gente.
DM – O salto alto do PMDB e aliados do primeiro turno foi fatal para o insucesso de agora?
Maguito – Fizemos uma campanha de primeiro turno em alto nível, com muita humildade. Os nossos adversários é que espalharam que fazíamos uma campanha de salto alto. Nada disso ocorreu. A virada em favor do candidato da situação ocorreu em razão do fenômeno nacional, onde, de forma surpreendente, o eleitor migrou de forma inesperada o voto. Neste segundo turno, estamos seguindo com a mesma postura, ou seja, trabalhando com humildade, confiantes em Deus e convencidos de que o resultado será positivo nas urnas. O eleitor goiano tem percebido que a nossa proximidade com Lula irá apresentar resultados extraordinários para Goiás, pois a parceria vai produzir obras que irão melhorar a qualidade de vida em Goiás.
DM – Se no final do primeiro turno foi ruim a aproximação com Lula, agora, no segundo turno, a imagem do presidente da República tem beneficiado sua campanha?
Maguito – Claro. O goiano está percebendo que, com a reeleição do presidente Lula e com a minha eleição, haverá uma afinidade administrativa entre os governos federal e estadual. Os programas sociais, por exemplo, tanto da União quanto do Estado, serão ampliados e melhor implementados com a parceria entre Lula e o nosso governo. O presidente da República tem dito, na televisão e no rádio, que o programa de governo dele e o meu estão sintonizados, sincronizados, o que irá permitir maior agilidade na execução de todos eles.
DM – Caso haja um insucesso nas urnas, o senhor tem lugar garantido na equipe de Lula?
Maguito – Estou trabalhando para vencer as eleições no dia 29 e governar o Estado por quatro anos, em perfeita sintonia com o presidente Lula.
DM – Por que o senhor apóia Lula?
Maguito - Porque acompanho o governo dele e percebo que é bem-intencionado e está no caminho certo. Os indicadores econômicos são excelentes; os indicadores sociais, também. E Lula tem história como homem e como político. Sua biografia é muito rica. Ela mostra um homem sério, honesto, idealista. Lula está preocupado com as camadas mais pobres da sociedade. Fui colega dele na Câmara dos Deputados. Conversávamos muito já naquela época. Nossa visão de Brasil coincide em muitas coisas. Não tenho um pingo de arrependimento de tê-lo apoiado. E vou continuar apoiando até o último dia. Não sou oportunista. Não pulo de galho em galho. Sou contra os privilégios na política. Nunca aceitei aposentadorias. Como sou contra o instituto da reeleição, por exemplo, não quis me candidatar à reeleição. Acho que a reeleição foi um desastre para o País. Só perde reeleição quem quer perder, porque o poder da máquina influencia muito no resultado do pleito.
DM – Parece que, neste segundo turno, falta até combustível em seu comitê. As doações financeiras sumiram?
Maguito – As pessoas continuaram colaborando com a campanha. Não é em grande quantidade, mas ajuda muito. A gente faz a campanha de acordo com os recursos que tem. Como já percorri o Estado duas vezes, no primeiro turno, posso me concentrar mais na campanha de rádio e TV e nas grandes cidades.
DM – Se houver derrota em Goiânia, ela será debitada ao senhor ou ao prefeito Iris Rezende?
Maguito – Vamos ganhar em Goiânia, porque o prefeito Iris Rezende realiza uma administração exemplar. O prefeito resgata todos os compromissos firmados com a população da cidade. Iris é o maior líder do PMDB de Goiás e uma das maiores expressões do nosso partido, em nível nacional. Quem anda pelas ruas de Goiânia percebe a virada da nossa campanha, a alegria das pessoas e a mobilização das nossas militâncias, tanto do PMDB, PT, PCdoB, PDT como dos demais partidos da nossa coligação.
DM – A defecção do ex-governador Joaquim Roriz abalou a campanha do senhor no Entorno do Distrito Federal?
Maguito – Não. O PMDB e os partidos aliados, os prefeitos e as lideranças municipais estão integradas conosco em todos os municípios do Entorno do Distrito Federal. Obtivemos naquela região uma vitória espetacular e vamos repetir agora. O PMDB tem serviços prestados no Entorno e firmamos compromissos com a região para realizarmos as obras que vão mudar o panorama, principalmente nas áreas de educação, saúde, segurança pública, infra-estrutura e programas sociais.
DM – Foi um erro, no primeiro turno, não questionar o governo Alcides Rodrigues?
Maguito – Nós priorizamos a discussão em torno de propostas para a administração estadual. Mas, já no primeiro turno, não deixamos de questionar o governo Alcides Rodrigues, pois todos se lembram quando apontei o caos na saúde, as estradas esburacadas, os prédios escolares caindo aos pedaços, o atraso no pagamento do funcionalismo público, dos fornecedores e prestadores de serviços. Neste segundo turno, continuamos da mesma forma: apresentando as nossas propostas e apontando os defeitos dessa administração. Volto a repetir: o que é bom vai continuar, o que está errado, nós vamos mudar.
DM – Não se falou mais na pavimentação de todas as ruas do Estado. Por quê?
Maguito – A pavimentação é uma prioridade no nosso Estado, principalmente em cidades como Aparecida de Goiânia e Águas Lindas, no Entorno do Distrito Federal. E há uma grande demanda por asfalto até por uma questão de saúde e por um atrativo econômico. Pavimentar todas as ruas de Goiás é um compromisso que assumo e que vou cumprir rigorosamente, como cumpri todos que fiz ao longo de minha vida pública.
DM – O senhor, então, acha que ainda pode virar a eleição?
Maguito – Claro. O eleitor indeciso se define nas últimas horas. Temos pesquisas internas, feitas após o debate, que mostram a nossa virada. O PMDB e os aliados vão assumir o governo, pela vontade popular, para realizar uma administração inovadora e progressista, em perfeita sintonia com o governo Lula.
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Carlos Honorato
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28/10/2006 17:28:52
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Iris Rezende: “Está quase tudo errado no Brasil”
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Ulisses Aesse, do Diário da Manhã
Uma visita surpresa que durou a manhã inteira e o começo da tarde do último sábado. Assim foi o encontro do prefeito Iris Rezende na casa do jornalista Batista Custódio, editor-geral do Diário da Manhã, numa rua arborizada e tranqüila do alto do setor Nova Suiça.
Em cerca de duas horas e meia (o prefeito chegou à residência do jornalista às 9 da manhã e saiu às 13h40) Iris manteve uma conversa reservada com o editor-geral do DM, até às 11h30. Só depois o prefeito atendeu aos jornalistas, onde aproveitou o resto de sua permanência no local para ativar, numa sessão reminicëncias, algumas situações vividas ao lado de Batista Custódio. Na entrevista que se segue abaixo, o prefeito traçou seus planos para a Goiânia, que deseja ver na prática, além de revelar projetos futuros para a cidade. Ele continua o mesmo de sempre: fleumático, quando se critica suas gestões; polêmico, quando o tema é administração dos outros; esclarecedor, quando o assunto são soluções para o conjunto de problemas da Capital, e, por fim, apaixonado, quando o assunto é o povo goiano, que diz, conhece como ninguém.
Sem perceber a passagem das horas no seu Bulova quartz e vestido numa calça creme e camisa de manga curta (bem ao estilo de sua estampa popular desde os tempos de moço), Iris, em gestos enfáticos, falou de tudo. Criticou o excesso de cheques (programa social) e que, em vez de ajudar a população, faz é prejudicá-la, lembrou da necessidade de se concentrar esforços na educação básica das crianças, disse ser seu objetivo estimular ainda mais a criação dos centros municipais de educação infantil (os Cmeis) e afirmou estar disposto a concluir o monumento em homenagem a Pedro Ludovico, da falecida artista plástica Neusa Moraes, além de lutar pela preservação da moreira da Rua 24 (primeiro palácio estadual, abrigado nas proximidades da Praça do Botafogo e onde Pedro Ludovico, como interventor, fez seus primeiros despachos em Goiânia).
Numa visceral análise do ser humano, Iris se mostra angustiado e diz que quase tudo está errado. Copidesca a ação dos políticos, exige mais ética, aposta na força dos jovens enquanto forma celebradora da democracia, lembra que em momento algum pensou em pendurar as chuteiras e aproveita para fazer mea-culpa ao pouco tempo dedicado à família. Como político, não deixa de ressalvar aqueles que tiram férias em cargos executivos.
Na entrevista que se segue, onde responde perguntas dos jornalistas Batista Custódio, editor-geral do DM; João Bosco Bittencourt, diretor de Redação, e dos editores-executivos Deusmar Barreto, Ulisses Aesse e Reale Palazzo, Iris revela os verdadeiros motivos que levaram à venda da Usina de Cachoeira Dourada e afina seu discurso com o PMDB, seu partido desde o início de sua vitoriosa carreira política.
Diário da Manhã - Qual a diferença que o senhor encontrou na Prefeitura 40 anos depois?
Iris Rezende - Hoje está mais fácil, porque naquela época Goiânia ainda se ajustava como cidade que adquiria sua autonomia administrativa. E naquela época o município não recebia ajuda, nem contribuição de qualquer poder. Hoje, o município conta com 25% do ICMS, embora Goiânia tenha sido muito prejudicada nessa área, o município tem participação em alguns impostos federais, que integram o Fundo Nacional dos Municípios. Achei mais fácil. Naquela época não tínhamos nada disso. Ainda não existia o Imposto Sobre Serviços como fonte de renda a se considerar na cidade. Era tudo muito pequeno. Então naquela época, eu cobrava a taxa de asfalto, hoje dispensamos isso, dispensamos porque? Naquele tempo os setores ricos não eram asfaltados: Setor Oeste, Aeroporto, Setor Sul, parte do Bairro Popular, Vila Nova, Campinas eram bairros relativamente ricos, mas não tinham asfalto, não tinham nada, mas o povo era independente ali. A gente ainda podia cobrar. Hoje posso cobrar. A lei me permite a taxa de contribuição de melhorias, pavimentação, mas só estou asfaltando setores pobres e mais carentes. Então tive até a petulância de encaminhar à Câmara Municipal projeto isentando da taxa de contribuição de melhorias de asfalto às famílias que tem só tem um imóvel. Não sei se pela minha experiência administrativa, mas hoje estou achando tudo muito mais fácil.
DM - O senhor julga que vai cumprir todas as promessas que fez durante sua campanha ou acha que precisará de mais quatro anos?
Iris - As promessas feitas serão todas cumpridas. É claro que determinadas áreas não têm fim. Acho que para a educação municipal que a população está a merecer, ainda demanda algum tempo. Melhoramos muito a educação, estamos melhorando, porque hoje tenho uma visão às vezes até diferente. Entendo que se o governo estivesse dando ao filho do povo, dos trabalhadores, uma educação de alta qualidade, semelhante aquela que o filho do rico recebe nas escolas particulares, teria, em termos de futuro, muito mais valor do que essa quantidade de cheques que se distribui hoje para uma família, principalmente nos grandes centros. Porque esses cheques resolvem um problema do dia de hoje, mas não está criando aquela perspectiva de uma justiça social à altura. Hoje entendo: não se deve falar em justiça social sem se falar na educação. É o único caminho para promover a justiça social no Brasil, criando igualdades de oportunidade é investindo no filho do trabalhador, justamente na educação. E estamos dando exemplo disto. Encontrei um programa que me apaixonou: foi o Centro Municipal de Educação Infantil. O que é esse programa? É um misto de creche e jardim de infância. Porque ele é importante? Porque o filho do pobre nunca tinha oportunidade na creche, de se adaptar à escola, e o jardim de infância é isso. Além de guardar criança rica durante o dia, ela adapta aquela criança à escola. Quando chega no ensino fundamental, o filho do rico vai depressa, o filho do pobre fica porque não teve tempo de adaptação. Encontrei esse programa e, dos 62 centros, já implantamos 32. Já ultrapassamos em 50%.
DM - A tendência é priorizá-los?
Iris - Eram 4 mil criancinhas de zero a sete anos. Hoje estamos com 7 mil. Estou dando ao filho do casal trabalhador ou ao filho da mãe solteira ou da mãe viúva, aquilo que o filho do rico tem nos sofisticados Jardins de Infância e o ensino fundamental também: um ensino à altura. Amanhã, ela vai competir em pé de igualdade, queira nos vestibulares, nos concursos públicos. Quer dizer, vai tirar de letra no futuro. Então isso não se muda, não se completa durante um mandato. Acho que é uma cultura educacional que se cria em torno de quem sabe três, quatro ou mais mandatos, porque não adianta começar. Amanhã entra um outro que até entender aquilo o mandato já passou. Por exemplo, não condeno aqueles que implantaram no município de Goiânia o sistema de Ciclo. Mas implantaram açodadamente, porque o sistema de ciclo só se torna realmente aquilo que seus idealizadores conseguiram dando à criança tempo integral nas escolas. E agora que estamos estabelecendo em torno de quatro ou cinco escolas municipais que vão manter a criança ali em tempo integral, ela vai chegar de manhã e sair no final do dia.
DM - O senhor acha que está existindo uma mudança real no ensino?
Iris - Em Goiânia, a criança ia para o estabelecimento estadual já no segundo grau até que o pai descobria que a criança não sabia ler. Bem, mas vamos corrigindo isso e queremos também que o ensino fundamental em Goiânia dentro de pouco tempo -- e acho que vamos conseguir -- seja referência nacional. Por quê? Por que Goiânia tem o maior e melhor potencial na área de mestres. É uma coisa que vocês não sabem. Temos aí mais de 12 mil educadores municipais, 98% deles tem curso de graduação. Não sabia. Fiquei sabendo depois que entrei na prefeitura. 50% têm curso de pós-graduação e 20% têm doutorado. Quer dizer, um potencial extraordinário que temos que utilizar. Então esses Cimeis tem lá um professor para cada 10, 12 crianças, alguns brinquedos, tudo já se relaciona com educação.
DM - E a questão do asfalto?
Iris - O asfalto é possível que completemos até antes dos quatro anos. Estou animado, mas depende muito da arrecadação. Goiânia sofreu alguns golpes na área de arrecadação. Por exemplo, em Goiânia se arrecada 41% do ICMS do Estado. De cada 100 milhões que se arrecada no Estado 41 milhões são em Goiânia. A capital já chegou com essa liberdade que se deu ao co-índice e estabelecendo alguns parâmetros. Goiânia teve sérios prejuízos. Já participou com 33% dos 25% destacados para os municípios. Hoje tem 18%, do ano passado para esse ano reduziu mais de R$ 1 milhão por mês. Quer dizer, ela contribui com 41%, deveria ter pelo menos 41% dos 25, mas possui apenas 18%. É um desastre. Agora, a renda per-capita, nós vamos melhorando o nível de vida do goianiense. Mesmo assim estamos fazendo, estamos asfaltando. E olhe que já urbanizamos 100 praças.
DM - Cem praças?
Iris - Cem praças. Goiânia tinha 411 praças quando assumimos a prefeitura. Nós já urbanizamos 100. E são praças grandes. Chega lá no Parque Atheneu, é uma praça de um quarteirão. Do Marilizia para cá o primeiro é mais um quarteirão. Agora, nesse primeiro mutirão, fizemos lá em 72 horas uma praça de 80 mil metros quadrados, com iluminação, com tudo.
DM - O governo fez a ETE, mas temos 79 nascentes dentro de Goiânia que estão poluídas. Uma sugestão seria instituir mutirões e escolher um empresário para ficar como patrono daquela nascente, com a prefeitura fornecendo máquinas e essa pessoa mobilizaria a população para fazer a limpeza geral em todas as nascentes, lacrando esgotos clandestinos até que ficassem potáveis numa obra que mudaria Goiânia. O que o senhor pensa?
Iris - Nós estipulamos um projeto de preservar todas essas nascentes e áreas verdes ainda existentes e vamos implantar 52 parques. Quando você passa a preservar, a dar oportunidade dos moradores da região aproveitar e freqüentar, a população responde. Temos várias experiências que indicam que vai evoluindo a cultura conservasionista da população. Vamos aproveitar esse embalo e vamos já deixar todas essas áreas verdes devidamente urbanizadas, com passeio, com possibilidade da família passar bons momentos ali.
DM - E sobre a Moreira da Rua 24? Pedro Ludovico fez o acampamento dele e governou Goiás dali. Agora querem se apropriar disto. Não acha que a prefeitura deveria desapropriar o terreno, trocar por outro? E tem também o monumento a Pedro Ludovico que a escultora goiana Neuza Morais trabalhava quando morreu. O senhor não acha que a prefeitura deveria tomar as providências para erguer o monumento na Praça Cívica?
Iris - Eu vi no jornal a reportagem da Moreira e a prefeitura está verificando o que deve ser feito no sentido de preservar. Quanto a Neuza Morais, sempre fui um entusiasta do trabalho dela. Vamos viabilizar os dois projetos.
DM - Como está a retomada do projeto Macambira-Anicuns?
Iris - Na campanha passava-se a impressão de que o projeto já estivesse em execução, mas até hoje não foi concluído, mas estamos em cima. Vieram duas missões aqui do Banco Mundial. Agora tem esse rito no Brasil, precisa passar pelo Ministério da Fazenda, Senado Federal. Eu acredito que aí dentro de uns seis meses a gente começa as obras. E quando as obras começam eu sou violento, é 200 km por hora.
DM - Circulou a informação de que a prefeitura não estava conseguindo honrar com seus compromissos de asfalto. Foi por isso que o senhor determinou que os secretários cortassem gastos?
Iris - Não. Isso não existe. Eu determinei economia interna desde o primeiro dia que assumi a prefeitura. A minha função como coordenador é reunir a equipe de vez em quando e dar uma balançada. Falei: olha, vem cá, vamos gastar 30% a menos com combustível nos caminhões e máquinas, e por aí afora. Vou contar para vocês como é que eu administro: todos os dias, às 10 horas da manhã, chega para mim que foi arrecadado no dia anterior e o que se pagou, quem recebeu, quanto recebeu, aquela coisa toda. Por quê? Porque eu tenho minhas ordens. Eu entrei e congelei os débitos de 2004. Então, para pagar um processo de 2004, tem que ter minha autorização. Eu quero ver se está sendo obedecido. Eu recebi a Prefeitura com R$ 250 milhões de dívidas contraídas nos últimos oito meses de administração. Então, quando autorizo uma obra, eu sei porque estou autorizando. Se a situação está apertada, eu puxo a rédea. Se está bem, começo a acelerar. Agora estamos retomando as obras de asfalto. Terminaram as chuvas e vamos entrar de novo aí no serviço de pavimentação.
DM - Como está o relacionamento da prefeitura com a câmara? Do lado de fora, a impressão é que é péssimo.
Iris - Comecei minha vida pública na câmara. Então, compreendo. Lá são 34 vereadores, cada um reage de forma diferente. Isso é próprio do parlamento. Quando comecei como vereador achei que iria resolver os problemas de Campinas em um mês. Então, fui notando que minha ação como vereador era limitada. Assim, essas contrariedades na câmara quando se inicia uma legislatura são naturais. Eu trato a Câmara com muito respeito e quero que a prefeitura também seja respeitada.
DM- Mas essa turbulência não atrapalha a administração? A reforma administrativa, por exemplo, teve que ser recolhida.
Iris - Não. Eu retirei a reforma porque o governo estadual meteu o bedelho lá, e eu não queria abrir briga com governo.
DM - Como avalia os mais de 40 dias do governo de Alcides Rodrigues?
Iris - Ninguém pode avaliar uma administração com 40 dias. Não tenho como avaliar.
DM - E como é seu relacionamento com o novo governador? Com Marconi Perillo, por exemplo, o senhor tinha um bom diálogo.
Iris - Quando assumi a prefeitura eu tinha consciência de que nem o Lula e nem o Marconi iriam administrar a prefeitura para mim. Então o que nós criamos, eu e o Marconi, um relacionamento institucional de respeito. Pedi ao governador Marconi à época que determinasse à Saneago para não deixar faltar água e esgoto nos bairros porque tinha um programa de asfaltar tudo. Eu não posso reclamar, eles têm se esforçado. O que tenho reclamado é para eles pagarem a prefeitura o que o Estado deve. A Saneago acabou de pagar, agora a Celg temos ainda um acerto para fazer. A SMT deve energia, mas a Celg deve repasse para a prefeitura da taxa de iluminação pública. Na questão do transporte urbano, eu não fiquei perdendo tempo aí. Assumi, convoquei os empresários, cooperativas, discuti com eles e e se empolgaram tanto que já colocaram 416 ônibus novos. Acho que uma pessoa da minha idade não pode ficar perdendo tempo com questiúnculas e nem ficar à espera de ajudas. O mérito do administrador é conseguir fazer muito com pouco dinheiro.
DM - O pré-candidato do PMDB ao governo, Maguito Vilela, vai enfrentar na campanha principalmente a acusação de que vendeu Cachoeira Dourada quando devia preservá-la. O que acha?
Iris - Eles imputam a Maguito a venda de Cachoeira Dourada e ao PMDB a venda do BEG, quando na verdade, foi determinação do governo federal. Primeiro investiram contra as instituições de crédito estaduais, fecharam estupidamente a Caixego, privatizaram, obrigaram a privatização do BEG, para que ele não fosse liquidado. Veja bem, me lembro daquilo, 90 milhões de títulos vencidos no BEG não cobrados, deram aí não sei quantas horas ou o estado punha o dinheiro no caixa ou iriam liqüidar. Quer dizer, tinham aquela tara pela privatização. Da forma como as privatizações foram feitas, podem cometer erros. Foi uma privatização exagerada, rápida, podíamos ter privatizado, mas com resultados muito maior para o País. Veja a Vale do Rio Doce por Exemplo. Ela foi vendida por dois, três bilhões de dólares, inclusive com dinheiro do próprio governo financiando a compra. O ano passado ela deu 10 bilhões de dólares de lucro num ano. Era uma empresa que podia pagar todas nossas dívidas externas, um patrimônio imenso. Quer dizer, tudo isso foi dado de graça.
DM - Hoje as palavras que estão na cabeça do brasileiro é medo e desesperança. Medo por causa da violência e desesperança em face das denúncias de corrupção. O que o Brasil precisa para que o brasileiro possa recuperar a auto-estima?
Iris - Olha, o País não pode continuar como está. Tem que se rever tudo, sobretudo na área política. O País está passando por uma corrosão inaceitável. O comportamento de quem assume função pública neste País tem que mudar, bem como comportamento na vida particular e privada. A impunidade no Brasil é o maior mal, é o que tem proporcionado esse desmoronamento de nossas instituições, do próprio caráter humano. O Brasil perdeu um momento importante na sua história: foi quando da convocação da Assembléia Nacional Constituinte.
DM - A nova constituição nasceu torta?
Iris - Naquele momento o Brasil tinha que ser passado a limpo. Ali teria que se começar um novo dia na vida nacional, mas, o que virou aquela constituição? Virou um amontoado de pleitos. Todos os segmentos se sentiram no direito de ir à constituinte, em comissão, pedir. E a comissão não negou nada. De repente, acordamos para uma realidade: se colocou ali o possível e o impossível. O exagero até. Foram tantos direitos mas e os deveres? A constituição ficou tão defeituosa, que o que mais existe no Congresso Nacional são propostas de emenda constitucional.
DM - De que forma o País pode ser revisto?
Iris - Pode ser um sonho, mas acho que pode ser um caminho: convocando-se uma Assembléia Nacional Constituinte e já determinando na própria convocação que quem integrá-la não pode se candidatar nos próximos 10 anos seguintes.
DM - Seria exclusiva?
Iris - Sim, porque? Todo mundo que foi eleito constituinte, procurava atender às reivindicações para receber o voto daí a dois anos, quando se candidatasse à reeleição. Não há possibilidade de conseguir uma boa constituição se quem vota não tem a consciência de que ali é um pacto.
DM - Ou seja, seria eleito o Congresso Nacional e uma constituinte paralela.
Iris - É claro. Comecei a desenvolver essa idéia ainda senador. Eu pensava em ser reeleito. Então reeleito eu poderia desenvolver mais aquele trabalho. Agora, a questão é para você convocar hoje uma Assembléia Nacional Constituinte. Isso teria que ocorrer pelo próprio congresso, e com esse congresso que está aí é muito difícil mudar as coisas.
DM - Não há cenário para mudanças?
Iris - Hoje vivo até momentos de angústia. Eu não enxergo possibilidades de uma mudança radical de comportamento do mundo político com esse quadro que está aí. Eu estou preocupado por que eu não sei até quando a opinião pública vai tolerar tanto escândalo. Quando a gente pensa que acabou uma coisa, vem essa história de ambulâncias e daqui a alguns dias irão surgir outras questões. Quer dizer, onde estamos? Digo aqui com muita ênfase, não é esse o comportamento que o País está a esperar das câmaras municipais e das assembléias. É esse o comportamento que o País está a sonhar com o congresso nacional? Não é também, e aí vamos incluir prefeituras, governos estaduais e governo federal. Está quase tudo errado. O problema é sério, não pode continuar. Olha o imposto que o brasileiro está pagando hoje, olha a política de juros. Está custando tudo muito caro para o povo. Afinal, quem é que paga imposto nesse país? É o povão. É o povão que consome, que passa fome, que está aí sofrendo nos ônibus, filas de hospital, postos de saúde. É esse povo que paga imposto, por que quando ele compra o chinelo ali foi embora uma parte do salário dele no imposto, quando compra, por mais humilde que seja, a calça, a camisa o vestido, quando ele compra o caderno para o menino dele, está pagando imposto. E pesado. Aí pergunto: com tanto imposto o povo está recebendo todo esse esforço em benefício? Não está. Isso vai para as mãos de poucos.
DM - O senhor não acha que há corporativismo? Por exemplo, o MST quer tudo para os sem-terra e os fazendeiros querem perdão para as dívidas. A sociedade não deveria reagir contra isso?
Iris - Tem que reagir contra tudo. Está quase tudo errado. É justo que num país com a dimensão territorial do nosso, o governo ainda se torne insensível a essas pessoas que querem um pedaço de terra e não conseguem? Ora, isso é coisa de resolver de um ano para o outro. Quando o governo quer resolver, ele consegue. Mas existe um pouco de política. Desta forma, no momento em que destinar terra para todo mundo, a política nessa área desaparece, porque não tem mais motivação. Quanto aos agricultores, estou sofrendo na carne. porque está desesperado aí, fechando rodovia? É por que o governo não conseguiu uma política agrícola que dê segurança a essas criaturas. Todo agricultor comprou adubo, insumos, que não são baratos, com o dólar a R$ 3,80. O dólar hoje esta a R$ 2 e pouco. O preço do produto caiu. culpa de quem? Da política econômica. Que política é essa que deixa o dólar lá, ontem estava a quase R$ 4 e, de repente, vem para R$ 2? A agricultura tem que ser tratada de maneira diferente.
DM - O senhor colocou suas máquinas na estrada também?
Iris - Não (risos). Mas eu disse isso na abertura da Pecuária: o governo tinha que ter criado uma política de preço mínimo enquanto garantia. Por que vem um veranico e o agricultor quebra. Vem uma supersafra, uma intempérie aí e o agricultor quebra. O próprio governo não consertou a estrada para transportar. Passa da hora de colher e se perde tudo. Seria o caso de o governo estabelecer um seguro firme e sério para acudir o agricultor numa dessas intempéries, estabelecer um preço mínimo que corresponda simplesmente ao custo de produção. Não é para ele ter lucro, não. É para ele não quebrar. Nós fizemos isso quando eu era ministro da Agricultura (governo Sarney) e a produção do País estourou. Agora, tratar a agricultura como um item qualquer da economia num regime capitalista, onde toda ação é de risco, amanhã pode acontecer um grande fiasco de faltar arroz e feijão na mesa do povo. É muito séria a situação. O agricultor tem razão, os sem-terra têm razão.
DM - É difícil para um homem de bem vencer no País?
Iris - O povo é sábio. O grande mal desse País, é que chega em época de eleição, muitos aproveitam das dificuldades do povo, dificuldades fortes, e levam vantagem.
DM - Como é que o senhor explica o fato de o presidente Lula continuar favorito para a reeleição mesmo depois de tantas denúncias e acusações?
Iris - Quem sabe se dentro desse conceito o povo está achando que no meio de tudo ele ainda é o melhorzinho?
DM - O senhor também pensa desta forma?
Iris - Estou angustiado com esse quadro e não tem paixão. Eu sou frio, vivido, calejado. A coisa não vai bem, está mal conduzida em todos os aspectos.
DM - Há o perigo de o povo achar que a democracia não resolve?
Iris - Este é o grande perigo de qualquer país. Quando o povo perde a crença, a confiança nas suas instituições democráticas, ele se torna como aquela criatura que, afogando no rio, se agarra em qualquer raiz para se salvar. Esse é o perigo.
DM - Esse perigo poderia chegar ao retrocesso institucional, a volta da ditadura?
Iris - Não chegaria a tanto. Perigo nós corremos, sob muitos aspectos, até para a desordem. Por que o cidadão, o chefe de família, tem limite também de paciência, de tolerância, e num determinado momento isso pode redundar até em perda de juízo, de senso. Nós temos que rever tudo.
DM - Teria sido essa angústia do senhor que levou o apóstolo César a anunciar que o senhor pensa em pendurar a chuteira, em se aposentar?
Iris - Isso foi um equívoco, eu não tenho direito de falar que vou pendurar a chuteira. O dia que pensei e fiz isso, fui lá mexer com soja daí a quatro meses estava aqui sacudindo o partido.
DM - O senhor concorda com as opiniões do governador de São Paulo, Cláudio Lembo, segundo as quais a elite branca deveria enfiar a mão no bolso e dividir com os pobres para que a violência do Brasil não fosse tão intensa?
Iris - A questão da segurança pública no Brasil é a impunidade. Falta dinheiro para São Paulo? Não. São Paulo tem tudo, nada no dinheiro. A violência acontece por que nossos códigos penal e de processo penal favorecem a impunidade. A pessoa de má indole não se preocupa com a prática de um crime, ela sabe que não será punida. É claro que existe a injustiça social. As favelas, por exemplo, representam ambientes que induzem as pessoas ao crime, por que ali a pessoa perde a auto-estima, os filhos crescem na promiscuidade, isso sem falar no desemprego que é um passo para o crime. Temos que rever muita coisa, mas culpar uma elite também é uma forma fácil de justificar aquilo que aconteceu em São Paulo, um estado que se considerava o supra-sumo e, de repente, se viu vítima de um grande sobressalto.
DM - E esta absolvição em massa de parlamentares acusados de irregularidades? Como vê a pizza servida no congresso?
Iris - Isso foi um erro imperdoável do congresso, tanto é que isso vai repercutir nessas próximas eleições.
DM - O senhor acha que haverá uma renovação acentuada no congresso?
Iris - Eu entendo que haverá uma grande renovação se surgirem candidatos suficientes para tal, por que o povo está ficando tão descrente que não quer nem se candidatar.
DM - O senhor acha que também pode haver um grande número de votos nulos e brancos?
Iris - Eu acho que o povo tem conhecimento suficiente para entender que não é por aí né? Por que o voto em branco e o voto nulo é a oportunidade que os indesejáveis têm para se reeleger.
DM - O senhor vai apoiar a chapa com o senador Pedro Simon (RS) e Anthony Garotinho (RJ) que tenta disputar a Presidência pelo PMDB?
Iris - O que o partido decidir eu acato.
DM - O que pensa sobre esse processo de disputa interna do PMDB?
Iris - Horrível essa dubiedade do partido. Eu fico com pena por que o PMDB é um grande patrimônio político.
DM - O que achou da mini reforma eleitoral?
Iris - Insignificante. Não é proibindo o uso de camisetas que vamos consertar isso aí.
DM - Proibir showmicio foi correto?
Iris - Foi, mas foi pouco.
DM - O povo não vai lá para ver político, mas para ver o cantor...
Iris - Mas vai corrigir muito pouco diante da dimensão de abusos que nós temos na área poítica. Hoje a influência do poder econômico é paupável, a influência de quem está no poder ganhar uma eleição é paupável. Nós precisamos de uma reforma muito profunda na área eleitoral.
DM - Os programas eleitorais na TV também deveriam sofrer mudanças?
Iris - No momento que em que o programa na televisão se resumir em palestras, na fala pessoal de cada candidato, que não poderia ler, não poderia se produzir, iria só mesmo com sua cara e suas idéias, teríamos uma eleição realista. Quem tem dinheiro contrata os Dudas Mendonças da vida, produz um programa extraordinário. O outro não tem, já começa o dinheiro a influenciar, por que fica cara a produção de um programa. O correto é o candidato falar o que pensa, pronto e acabou.
DM - A política ambientalista precisa ser revista?
Iris - Nós temos que defender a natureza, a fauna e flora, com racionalidade. Quando Deus fez o mundo, o fez em função do homem. Mas se ele não interferisse na natureza, viveria apenas de frutos e de peixes. Então temos que tocar a terra, mas tocar com respeito à natureza, estabelecer as regiões que podem ser cultivadas e as que não podem. Hoje temos o grande rebanho bovino mundial, com a pastagem natural de nossos campos, mas nós não temos o direito de estragar. Temos que reflorestar.
DM - Está na hora de o Brasil assumir de vez uma política ferroviária?
Iris - Eu vou além, entendo que o grande erro do Brasil nessa área foi quando fez opção pelas rodovias em prejuízo das ferrovias. O Centro-Oeste teria alcançado uma dimensão na área econômica muito grande se há 50 anos a ferrovia tivesse prosseguido e avançado, porque o transporte pelas rodovias é muito mais caro que pelas ferrovias.
DM - Não acha que alguém tem que ter coragem de corrigir esse erro?
Iris - É preciso. Isso tem sido o pecado de muitos governantes: não estabelecer prioridades, e não ter coragem de fazer as coisas.
DM - O político Iris tem obtido voto da juventude?
Iris Rezende - Essa geração que hoje já participa das decisões políticas, essa geração nova, ela não me conheceu como político porque foi a fase de cassação que vivi. Fiquei 11 anos fora da ação política e ela está me conhecendo agora. Esses meninos que votaram com 16, 18, 19 20 anos, essa geração tinha seis anos quando deixei o governo de Goiás e agora que ela voltou a tomar conhecimento da presença do Iris na vida política administrativa do EStado.
DM - Essa juventude conversa com o senhor, o procura para fazer reinvidicações?
Iris - Entendo que a minha presença na disputa municipal despertou a atenção desse segmento porque de qualquer maneira foi um fato e observo que os jovens estão a cada dia acompanhando as nossas ações nosso comportamento, nossas reações, tanto é que me vem aqueles convites para formaturas, sem pedido nenhum. Tenho paraninfado dezenas de turmas, dezenas e dezenas. Quer dizer, não tenho como ajudá-los com dinheiro, com nada porque realmente eles estão nos conhecendo hoje como políticos. Vejo, quando vou a essas solenidades. Quando vou aí me infiltrando no meio do povo, nos dias de mutirão, nas inaugurações ou no início das obras. A juventude tem-se voltado para mim com muito carinho.
DM - O senhor dedicou grande parte da vida às atividades burocráticas, executivas. E o moço Iris ainda continua no senhor, mesmo com a idade e a experiência acumulada?
Iris - Integralmente. É um fenômeno que acontece no meu ser. Sobre o aspecto espiritual vibro com as coisas como vibrava a 30, 40 anos e encaro meus projetos políticos, administrativos com o mesmo entusiasmo, com a mesma determinação de antes.
DM - Então, o senhor continua o mesmo moço?
Iris - Bem, sempre provido de muito entusiasmo e muita fé no futuro. A minha vida tem sido tão atribulada desde a fase estudantil que a vida passa e eu não vejo.
DM - E o Iris família? O senhor tem tido tempo para se dedicar à família?
Iris - Não, foi uma falha na minha vida. Não vi meus meninos crescendo. Não tive tempo de curtir a família e quando fui cassado, veio aquela preocupação de não poder fracassar na vida privada. Então, de novo eu vivia dia e noite, quase todos os dias, em audiências no interior, audiências que muitas vezes iam longe sobretudo na área criminal e quando ia até a noite, chegava de madrugada no dia seguinte e saia de novo. Sempre foi uma vida de muita agitação. E eu então advogando no terceiro ano de advocacia, no segundo ano comprei uma gleba de terra em Britânia. Fim de semana corria para lá para a fim de formar fazenda. Quer dizer, sempre tive uma vida muito agitada e aí ocorreu essa falha. Hoje fico querendo tirar diferença em cima dos dois netinhos que tenho. A minha família talvez não entenda. O Cristiano quando nasceu, eu era prefeito e telefonava para lá dizendo para não deixá-lo dormir, porque queria vê-lo, mas chegava em casa 22 horas, 23 horas. Então passou, ele cresceu dormindo pouco (risos), mas tudo valeu a pena. Meus filhos entendem a minha ausência naquela fase importante na vida de cada um. Se não me dediquei a eles, me dediquei a milhares e milhares de filhos por esse Estado afora.
DM - O senhor acha que o politico que exerce o cargo executivo tem o direito de tirar férias?
Iris - Bem isso depende da formação de cada pessoa, porque tem aquele ditado: "Cada cabeça, uma sentença". Sempre entendi que ao assumir uma função executiva, já que o tempo, o período é tão pequeno para a quantidade de problemas que devem ser resolvidos, não se deve tirar férias. Então você tem que desdobrar, para cumprir aquele lema que sempre adotei "Quarenta anos de trabalho e quatro anos de governo". Então você não tem tempo de tirar férias e essa é a única exigência que sempre fiz desde quando fui prefeito pela primeira vez, governador. Até hoje prefeito, ao convidar uma pessoa para integrar minha equipe, faço isso. Se alguém atender meu chamamento tenho algumas exigência à pessoa pública, por exemplo, não tirar férias, não descansar sábados e domingos e se entregar de corpo e alma a missão.
DM - Qual a sua agenda aos sábados e domingos? O senhor tira algumas horas de descanso?
Iris - Não, não paro. Estou sempre conhecendo, contactando pessoas com as quais entendo que preciso conversar, até para conhecer a realidade local.
DM - O Brasil vai ganhar a Copa?
Iris - Eu nunca tive tempo para ser desportista, porque a política não me deixou. Desde rapazinho eu era presidente de dois grêmios estudantis. Muito jovem fui candidato a vereador, presidente da câmara. Na prefeitura, quando fui cassado tinha aquele medo de fracassar na vida privada, de não dar conta. Estava casado com dois filhos. Nunca tive tempo de dedicar aos esportes mas a cada quatro anos, quando vem a copa do Mundo, então eu reflito sobre o quanto eu amo essa pátria. E eu sofro.
DM - Por quê?
Iris - Medo de perder, fico lá sofrendo.
DM - O Senhor acha que o Brasil ganha o hexa?
Iris - Ah, vai ganhar.
DM - Ronaldinho gaúcho é igual ou melhor do que Pelé?
Iris - O Ronaldinho faz coisas que o Pelé não dava conta, mas até hoje o Pelé é insuperável. Pelé é o maior dos gênios. Agora, o Ronaldinho vai melhorar muito mais ainda e pode até superar o Pelé.
DM - Como mantém a boa forma física?
Iris - Faço esteira todos os dias. Começo às cinco da matina, a única hora que tenho disponível. Nas terças e sextas-feias vem o personal.
Iris - Qual o segredo da boa saúde?
Iris - Eu acho que você tem que se preservar na proporção que os anos passam justamente movimentando o organismo, porque a tendência da pessoa humana é, com o passar dos anos, ir se acomodando. Então a partir dos 60, o próprio organismo pede mais tranqüilidade e passa a definhar. Então, se você obriga o organismo a se movimentar, ele requer mais alimentação.
DM - O senhor faz dieta?
Iris - Eu como muita fruta. Eu como bem.
DM - Come frituras? Torresmo, banana frita?
Iris - Não. Nada de frituras. cortei tudo.
DM - Mas isso foi depois do acidente automobilístico durante a campanha de 1990?
Iris - A cerca de sete anos minha taxa de glicose passou a subir um pouco e eu fui no doutor Nelson Rassi, que é um médico extraordinário e ele ficou comigo umas duas horas. Ao final ele disse: olha, se você se adaptar a umas restrições que vou fazer na hora da alimentação, você nunca será diabético. Eu era louco com leite e ele: não, você tem que tirar por que não justifica leite para pessoa idosa. E eu cortei o leite. Bebida, só uma dose por dia. Frituras, acabou. Óleo em casa só de canola. Tudo que ele receitou eu segui.
DM - Então é disciplinado?
Iris - Ah, eu sou muito.
DM - O senhor não fica sofrendo?
Iris - Não. Eu como muita fruta. O médico pediu que eu só evitasse quatro frutas: uva, caqui, ata e banana. Só não obedeci em relação à banana(risos).
DM - O senhor é estressado, explode de vez em quando?
Iris - Não. Eu durmo bem. Durmo pouco, mas bem. Às 23 horas tenho que me acomodar. Então me isolo. Tenho facilidade de bloquear o cérebro para não ficar sofrendo com as coisas, com pessoas. Nunca fiquei apegado a poder, nunca. Eu saia do palácio, no outro dia passava na porta e nem olhava para lá.
e saia de novo. Sempre foi uma vida de muita agitação.
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Carlos Honorato
Blog
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30/05/2006 22:29:25
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(1) comentários | Topo
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Pinheiro Salles: “Farinha do mesmo saco”
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Ulisses Aesse, do Diário da Manhã
Uma das referências do Partido dos Trabalhadores, o cidadão Antônio Pinheiro Salles (ele é jornalista profissional e bacharel em Direito) guarda junto de si um grande trunfo: uma longa militância política, que vem desde os seus tempos de estudante, na Universidade Federal da Bahia, onde iniciou-se na vida universitária. Pinheiro, ativista radical, desde início atuou em movimentos políticos ligados à esquerda, como na Polop (Organização Marxista Política Operária), no POC (Partido Operário Comunista) e MCR (Movimento Comunista Revolucionário), do qual foi o principal fundador. Nos estertores da ditadura, quando o clima fechou sobre o País, Pinheiro atuou na clandestinidade durante dois anos, participando da luta armada contra a ditadura militar. Foi preso em Porto Alegre, em 1970, e solto em São Paulo, nove anos depois, após a Lei da Anistia, com irreversíveis seqüelas das torturas. O jornalista teve participação decisiva na fundação do PT em nível nacional. Em todos esses anos, sempre esteve na direção do partido (já foi presidente do Diretório Municipal e é membro dos diretórios Estadual e Nacional). É um dos coordenadores nacionais da Tendência Marxista do PT (TM). Hoje, prestando assessoria ao deputado Mauro Rubem, líder da bancada do PT na Assembléia Legislativa, mesmo enfrentando graves problemas de saúde (sofreu um acidente vascular cerebral), Pinheiro abre o verbo contra a chamada elite dominante, faz críticas severas ao seu partido, a quem chama de “farinha do mesmo saco” (insinuando aqui semelhanças com o PSDB e PMDB), além de se mostrar confiante no comunismo, o que, para ele, ainda nem começou.
Diário da Manhã – O senhor escreveu o livro Confesso que peguei em armas. Novamente pegaria em armas, e contra quem?
Pinheiro Sales – Participei da luta armada, durante a tirania do governo Médici, quando pareciam esgotadas todas as demais alternativas de resistência democrática. A iniciativa confirmou o heroísmo do povo brasileiro, que nunca aceitou a omissão nos momentos cruciais da nossa história. Foi uma luta de David contra Golias, mas cumpriu o seu papel. Ninguém participa dessa forma de luta a não ser levado pela consciência de que precisa atender a uma determinada necessidade histórica. Assim, eu não poderia dizer contra quem, hoje, eu pegaria em armas. Mas estou certo de que a transformação da sociedade capitalista não exclui nenhuma forma de luta, porque o capitalismo é perverso, desumano, implacável. Neste momento, Bush semeia o terror no mundo, enquanto, segundo a FAO, 842 milhões de pessoas vivem em estado de desnutrição crônica. Agiram corretamente aqueles que pegaram em armas contra a truculência dos militares, mesmo em condições adversas. Eu repetiria as minhas ações e permaneço fiel a todas as convicções que me levaram a pegar em armas para defender a democracia, a justiça e a paz, defender o socialismo.
DM – Como o sr. vê o mundo hoje? A globalização é positiva ou negativa?
Pinheiro – Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia e ex-assessor da Casa Branca, diz que, trabalhando no Banco Mundial, ele percebeu com os próprios olhos o efeito devastador que a globalização pode ter sobre países em desenvolvimento, em especial sobre populações pobres. A tão decantada globalização em vigor significa a remoção de quaisquer barreiras ao chamado livre comércio e à maior integração política e econômica entre as burguesias de todos os países capitalistas, facilitando até mesmo as intervenções bélicas. São eliminadas as barreiras alfandegárias, permitindo o livre trânsito de capital e mercadorias, por cima das fronteiras nacionais. É a ditadura do mercado internacional. Prega-se o modelo dos Estados Unidos, onde, por exemplo, as despesas com presídios superam o total do orçamento para a cultura. Junto a tudo isso, vende-se a idéia de que a felicidade reside na despolitização, no lazer, na busca dos interesses individuais, abandonando o cidadão solidário em benefício do indivíduo.
DM – O comunismo morreu? O socialismo...
Pinheiro – Ao contrário, o comunismo ainda não nasceu, a não ser na sociedade primitiva. Precisamos compreender que o socialismo pode ser entendido como um período de transição entre o capitalismo e o comunismo, após uma revolução de caráter socialista. É quando se dão os primeiros passos para a socialização dos meios de produção e, conseqüentemente, das forças produtivas. Apesar de todo esse processo ser tratado cientificamente por Marx e Engels, superando os socialistas utópicos, nada pode ser imposto por decreto. Além disso, Marx não oferece nenhuma receita. Como bem lembrou Lênin, a teoria de Marx não é algo acabado e intangível. Nesse longo período de transição, quando o nível de desenvolvimento econômico, político e ideológico houver chegado a um estágio de harmonia que permita a cada cidadão uma nova forma de pensar, agir e viver, então é que se tem início o processo de construção do comunismo, quando as classes são abolidas e o próprio Estado não mais se justifica. Portanto, o que faliu na União Soviética foi o projeto de construção do socialismo, que trazia em seu bojo uma série de deformações, como a burocracia, o autoritarismo, a tirania stalinista...
DM – Para o sr., Marx ou Deus?
Pinheiro – Não há comparação possível. Karl Marx foi um político, revolucionário, filósofo e cientista, que nasceu em 1818, na pequena cidade de Treves, no sul da Prússia Renana, região situada hoje na Alemanha, na fronteira com a França. Foi um homem de carne e osso. As classes dominantes, com suas organizações de direita, tentam a todo custo jogar os cristãos contra os marxistas, como se o marxismo também fosse uma religião. O pretexto encontrado foi uma afirmação de Marx, numa polêmica com Bruno Bauer, de que as religiões funcionavam como “ópio do povo”, pregando o conformismo e a resignação. Obviamente, nenhum cristão pode negar isso. A propósito, lembro-me do inesquecível companheiro Antônio Carlos Moura. Quando uma vez fui questionado numa reunião em Iporá, por não ser religioso, o Moura me tomou o microfone e disse: “A divisão da sociedade não se dá entre religiosos e não-religiosos, mas entre oprimidos e opressores, explorados e exploradores.” Marx criou o Materialismo Histórico (Ciência da História) e o Materialismo Dialético, mostrando em todos os níveis o processo de luta de classes na sociedade, analisando o modo de produção capitalista e apontando para a construção do socialismo e do comunismo, quando nenhum homem será explorado por outro homem. Sou marxista, sou adepto da Teoria fundada por Marx.
DM – O sr. crê em Deus?
Pinheiro – Não considero essa questão relevante. E não faço demagogia com o nome de Deus e de ninguém. Estou certo de que não é pertinente a preocupação manifestada na pergunta. De qualquer forma, filosoficamente, não sou idealista, sou materialista. Quem reconhece a primazia do mundo material, da natureza, considerando secundária a consciência, derivada da natureza, está no campo da filosofia materialista. Ao contrário, quem admite a primazia da consciência, considerando secundária a natureza, derivada da consciência, está no campo da filosofia idealista. O idealismo está em desacordo com a prática humana. A vida quotidiana mostra a verdade da concepção materialista do mundo. Lembre-se que a Terra, conforme dados científicos, existe há mais de cinco milhões de anos, mas o homem nela apareceu apenas há cerca de um milhão. O Frei Beto informa: “Não cremos no deus do capital, das torturas ditatoriais ou das idolatrias modernas. Cremos no Deus da vida anunciado por Jesus aos oprimidos. Deus que exige justiça para todos e quer libertar também os opressores de sua condição de artífice da injustiça.”
DM – Acredita na clonagem como avanço da Ciência?
Pinheiro – Não tenho dúvidas. O avanço da Ciência é exigência da humanidade. Quanto à clonagem, certamente deve haver constante preocupação com as questões éticas. O principal objetivo da Medicina, como de todas as ciências, deve ser a defesa da vida e de um mundo melhor.
DM – O sr. tem o hábito de navegar na internet, tem Orkut, se comunica através de MSN?
Pinheiro – Não cedo aos modismos a serviço das futilidades, fofocas e arengas, quando se busca compensar a atrofia do cérebro com o culto do corpo e das fantasias preparadas pelos ideólogos do neoliberalismo, que desejam a perenização da burrice. Tenta-se retirar de cada pessoa a capacidade de pensar, de questionar, de agir, porque o que importa é acreditar que daqui a 500 ou mil anos tudo ainda girará em torno do shopping center, do mercado, da bolsa de valores, da competitividade, da música sertaneja, do carro bonito... Não “navego” na internet. A ela eu recorro para algumas pesquisas e comunicações, com a ajuda da minha filha Clara e da Lara. A internet é uma importante conquista, desde que sua utilização contribua para a superação dos atrasos e humilhações que sufocam a grande maioria da população. Não possuo nem telefone celular... E isso não me diminui em nada. Não me sinto envergonhado!
DM – O PT de Lula hoje é o quanto melhor, melhor?
Pinheiro – Na verdade, não mais sei qual é o PT de Lula, hoje. Sei qual foi o PT de Lula durante a fundação e os primeiros anos de existência do partido. Na 1ª Convenção Nacional do PT, em 1981, em Brasília, Lula não deixou dúvidas sobre o seu partido, que era o meu e de milhares de trabalhadores brasileiros. Ele disse em seu discurso: “Não queremos apenas melhorar as condições do trabalhador explorado pelo capitalismo. Queremos mudar a relação entre capital e trabalho. Queremos que os trabalhadores sejam donos dos meios de produção e dos frutos de seu trabalho.” Disse mais: “Queremos deixar bem claro uma coisa: no dia em que dirigentes do PT não puderem mais ir às portas de fábricas, aos locais de trabalho, ou lá onde se luta pela terra, é melhor fechar o PT. Não somos um partido de gabinetes, de salas atapetadas, de conchavos nos bastidores. É lá na porta de fábricas, no local de trabalho, na luta pela terra, na periferia, que nos abastecemos, que aprendemos com o povo, que corrigimos a direção do nosso projeto político, que reafirmamos a nossa fidelidade ao trabalhador brasileiro.” E me fez aplaudi-lo com mais entusiasmo quando afirmou o que muitos queriam ouvir: “O socialismo que nós queremos terá que ser a emancipação dos trabalhadores. E a libertação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.” Então, não sei qual o PT de Lula, hoje, porque, para ele, pode ser que o partido já tenha sido fechado. Sei qual é o meu PT.
DM – O sr. ainda tem esperança no PT ou se desiludiu?
Pinheiro – Mesmo reconhecendo as dificuldades para o PT se firmar como uma alternativa de transformação da sociedade, eu acreditei no papel que ele poderia desempenhar. E estou certo de que isso aconteceu, justificando minha absoluta dedicação ao partido. Para que tudo isso possa ser entendido, precisamos lembrar que o PT nasceu dentro da uma crise de esquerda, quando o reformismo oficial dos partidos comunistas, as vias militaristas e as débeis tentativas de fidelidade à doutrina marxista-leninista não conseguiram acúmulo teórico que lhes permitissem processo autocrítico vigoroso. Por isso, internamente, o PT sempre esteve em crise, não conseguindo promover ajuste de contas com o passado da esquerda. O PT tem uma história bonita, de luta, de heroísmo, reunindo as esperanças do povo sofrido do País inteiro. Mas hoje o PT se transformou num partido parlamentar, com atuação condicionada a acordos e coalizões com os partidos conservadores, priorizando o reforço e o aperfeiçoamento dos limitados espaços de representação burguesa na sociedade. Como se pode verificar, está aí correndo atrás do PMDB.
DM – O sr. acredita nas denúncias de corrupção no governo?
Pinheiro – Os dados atestam comportamentos reprováveis e a existência de corrupção no governo Lula, só que num nível inferior à corrupção praticada em todos os governos anteriores, principalmente nos oito anos de Fernando Henrique Cardoso. A corrupção é inerente aos governos que se submetem às regras ditadas pelo capitalismo.
DM – O sr. é amigo de Delúbio? Crê nas denúncias contra ele?
Pinheiro – Nunca tive nada contra a pessoa de Delúbio, militante do PT, bom papo, amigo de seus companheiros. Mas, nos debates internos, sempre estivemos de lados diferentes. Quanto às denúncias, tenho impressão de que ele parece mais um bode expiatório ou um boi de piranha, que, na correnteza, não tugiu nem mugiu, ao contrário de outros rebotalhos, que antes eram vistos como deuses. Ele me conhece muito, certamente me dá razão por ter me manifestado a favor da sua expulsão do PT. Muitos, porém, precisavam também ser expulsos, se o PT quisesse dar passos para resgatar a sua credibilidade, buscar autonomia frente ao governo, reaproximar-se de seus compromissos históricos. Além de tudo, não se pode atribuir à iniciativa pessoal de um tesoureiro do partido todas as operações do “mensalão”. O fato é que esses caras causaram grande prejuízo à esquerda, porque o povo ainda os via como pessoas de esquerda.
DM – O governo Lula representa uma frustração para o sr.?
Pinheiro – A famigerada Carta ao Povo Brasileiro, divulgada na campanha de 2002, teve o objetivo de informar às classes dominantes, aos donos do capital, que não haveria mudanças substanciais na política neoliberal de FHC. Mas, ainda assim, os empedernidos petistas como eu acreditavam na possibilidade de algumas medidas que pudessem ser caracterizadas como de um governo democrático e popular, que facilitasse a conscientização e organização da classe trabalhadora. Mas foi muito grave o que veio depois. O governo fez mais de que prometeu em sua carta, até encabrestando o já domesticado PT. O partido tanto passou a aceitar o jogo da política burguesa, que não recusou alianças nem com velhos representantes da tropa de choque de Fernando Collor, inviabilizando a implementação dos compromissos, como, por exemplo, rompimento com o FMI, auditoria da dívida pública e das privatizações, taxação das grandes fortunas na reforma tributária, efetivação da reforma agrária e prevalência das políticas sociais sobre as exigências do mercado.
DM – Acredita na reeleição de Lula? Vota nele para presidente?
Pinheiro – Voto em Lula. E acredito em sua reeleição. Não votaria jamais nos candidatos e partidos que, direta ou indiretamente, governam o Brasil há 500 anos. Também não votaria em candidato ou candidata de partido que foi organizado para combater o PT e o governo Lula, até se aliando ao PFL de Antônio Carlos Magalhães e a outras cobras criadas pelos fascistas que governaram o País durante a ditadura militar.
DM – O sr. ainda aposta no PT de Goiás?
Pinheiro – Nunca antes as dificuldades foram tão grandes. Durante o nosso primeiro embate eleitoral, em 1982, lançamos candidato ao governo, quando o Tocantins ainda era território goiano. E percorremos os municípios de ônibus ou em três fusquinhas – de Athos Magno, de Rubens Otoni e Darci Accorsi –, levando as propostas de organização e a nossa esperança. De cabeça erguida, enfrentamos o PDS de Otávio Lage e o PMDB de Iris Rezende, que eram “farinha do mesmo saco”. Tivemos candidatos em todos esses anos, mas, finalmente, houve a rendição, a capitulação, não dos militantes, mas do conjunto do partido. Sem grande temor de cometer injustiça, alguém poderia dizer que também viramos “farinha do mesmo saco”. Nem tudo, porém, é derrota. Os Estados Unidos estão perdendo a guerra no Iraque, como aconteceu no Vietnã. Vencemos as ditaduras militares do Cone Sul. Os movimentos sociais avançam, tendo à frente o MST. A esperança sobrevive.
DM – Depois do PT, qual partido ou qual realidade?
Pinheiro – A história não coloca problemas que ela não consiga resolver. Hoje, mais de que nunca, se justifica um investimento teórico-político que ultrapasse as demandas imediatistas, inclusive as da conjuntura eleitoral. O PT ainda aglutina a maioria dos lutadores sociais do País, que não se deixam levar pelo canto das sereias. Ninguém poderia descartá-los. Então, temos de fixar uma práxis política que seja alternativa para esse contingente de militantes e para todos os que estão dentro dos movimentos sociais, chegando à intelectualidade de esquerda, que está sem saber para onde caminhar neste momento de crise. Se o PT não mais está em disputa, porque os defensores do socialismo perderam a batalha interna, importantes disputas ainda podem ser feitas no PT.
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Carlos Honorato
Blog
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28/05/2006 07:09:28
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‘O plano era faturar R$ 1 bi’, conta Silvio
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Soraya Aggege, de O Globo
Submetido nos últimos 12 meses à “lei do silêncio” imposta pelo PT, o ex-secretário-geral do partido Silvio Pereira rompeu o pacto e relatou, em duas conversas exclusivas com O GLOBO, na quarta e na quinta-feira passadas, o que ainda não havia contado sobre o esquema do valerioduto. Em seu apartamento no bairro Bela Vista, Centro de São Paulo, Silvio disse que tentou contar tudo à nova direção do PT e que telefonou para o presidente do partido, Ricardo Berzoini, se pondo à disposição. Não conseguiu ser ouvido. Um ano depois das primeiras denúncias de corrupção nos Correios, que desaguaram no escândalo do valerioduto, o que Silvio conta são detalhes da operação comandada pelo empresário Marcos Valério e a antiga cúpula do PT, da qual fazia parte como secretário-geral, e também sobre o esquema de distribuição de cargos para petistas e aliados no governo, a operação da máquina do partido nas duas últimas eleições e sua visão sobre o envolvimento da cada personagem.
Segundo Silvio, o plano do empresário Marcos Valério com o PT era arrecadar o montante de R$ 1 bilhão, em quatro áreas, todas com pendências na atuação do governo: Banco Econômico, Banco Mercantil de Pernambuco e Opportunity, além de operações de passivos na área da agropecuária. As operações não teriam dado certo e por isso Valério teria passado a cobrar as faturas.
O esquema foi investigado por duas CPIs (dos Correios e do Mensalão), pela Polícia Federal e pela Procuradoria Geral da República, que denunciou ao Supremo Tribunal Federal 40 autoridades, ex-autoridades e empresários envolvidos diretamente com a “sofisticada organização criminosa” que resultou na cassação dos mandatos de deputado de José Dirceu (PT-SP) e Roberto Jefferson (PTB-RJ) — o primeiro, o todo-poderoso chefe da Casa Civil do governo Lula por dois anos e meio e o segundo, o antigo aliado que denunciou o mensalão.
Silvio afirma que existem outros partidos envolvidos e que “há cem Marcos Valérios por trás do Marcos Valério”, dizendo acreditar que o esquema todo pode ter voltado a funcionar, já que, apesar das CPIs, as estruturas de corrupção não foram modificadas.
Segundo Silvio Pereira, a fonte dos recursos que foram injetados no PT, principalmente para campanhas eleitorais do próprio partido e do PTB, nas eleições de 2004, é basicamente oriunda de um pool de empresas, empenhadas em ganhar contratos com o governo e também em garantir o destino de emendas de parlamentares. Bastaria o governo não notar os pools , principalmente em consórcios, disse. Na versão do ex-secretário-geral do PT, Marcos Valério funcionaria como um dos emissários da arrecadação ilegal junto a empresas de variados setores.
Silvio contou ainda que foi feito um acordo com Marcos Valério logo depois de estourado o escândalo, que completa um ano este mês. A culpa ficaria mais centrada no PT e nos principais envolvidos. O empresário teria dito aos petistas que tinha três opções: contar tudo o que sabe e “derrubar a República”, por causa do envolvimento dos outros partidos, dos políticos e das empresas; calar-se e acabar assassinado como PC Farias (o tesoureiro do ex-presidente Collor); ou contar parcialmente o que sabe. O PT ficou com a última opção.
— Mas não há santo nessa história toda, em nenhum partido, nem na direção do PT, que pagou o pato todo — diz.
O ex-secretário-geral exime o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de responsabilidade no esquema e afirma que em 2004, já ministro, o ex-presidente do PT José Dirceu não recebia Marcos Valério, nem gostava da situação. O empresário teria tido um comportamento normal na campanha de 2002, mas em 2004 passou a ter acesso irrestrito à direção nacional do PT. A maior parte dos dirigentes sabia da influência de Valério e das dívidas do partido com ele, que chegaram a R$ 120 milhões, segundo o ex-secretário.
O poder de Valério se tornou tão grande que o próprio tesoureiro, Delúbio Soares, perdeu o controle da situação, segundo Silvio. Valério passou a ter contatos diretos com políticos petistas e não-petistas. No relato dele, os saques feitos no Banco Rural não foram autorizados pelo então tesoureiro do PT, Delúbio Soares. Teriam sido acordos entre parlamentares e o empresário com toda a sua enorme rede de lobbies.
Segundo Silvio, o plano dos petistas seria ajudar as campanhas municipais de candidatos aliados em 2004 e cobrir as dívidas de R$ 32 milhões dos aliados nos estados em 2002. A dívida que restou do diretório nacional (com as campanhas para a Presidência e o Senado) teria sido de R$ 3 milhões, disse. No entanto, em vez de se preocupar em pagar as contas anteriores, já no poder federal, em 2004 a direção do PT optou por deixar Valério cobrir as dívidas e ainda financiar as campanhas eleitorais em cinco capitais, mais a campanha do PTB, e ainda implantar projetos para ampliação do partido.
Silvio disse ainda que nenhum petista ficou com dinheiro para enriquecimento pessoal. E admitiu que foi um erro aceitar o Land Rover de presente do empresário César Roberto Santos Oliveira, da GDK, que presta serviços à Petrobras.
Os principais trechos da entrevista:
Marcos Valério e seus interesses no governo
“Foi o Virgílio Guimarães (PT-MG) quem apresentou Marcos Valério ao Delúbio. Em 1998 ele operava para o PSDB. Marcos Valério é um homem muito, muito inteligente. Ele atuou na campanha do Lula (em 2002) na normalidade. Depois foi crescendo. Ele tinha quatro pontos de interesse com o governo. Não se esqueça que ele vem do Banco Central, foi funcionário de lá. Por que você acha que acharam ele 17 vezes acionando o BC? Não tem essa história de propaganda, isso é bobagem. O plano era faturar R$ 1 bilhão. Eles iam ganhar R$ 1 bilhão. Em quatro áreas: Banco Econômico, Banco Mercantil de Pernambuco e Opportunity. Tinha ações dele lá que renderiam dinheiro. Mas nenhum dos quatro esquemas rolava. Valério trabalhou com o Dantas (Daniel Dantas), mas o governo era dividido com essa história. O quarto ponto eu não sei bem, mas eram uns passivos na área de agropecuária. Mas não deu certo, o BC não acertou as coisas para ele.”
Encontro com a cúpula do PT depois do escândalo
“O PT virou refém do Marcos Valério, não tinha mais jeito. O Marcos Valério estabeleceu canais próprios com petistas e com não-petistas. Tem muita gente, muitos partidos (estão envolvidos). Só que tudo caiu na nossa conta. Não tinha jeito de ser diferente. Quando estourou (o escândalo), nos encontramos com ele. Marcos Valério disse três coisas: ‘Olha, tenho três opções: entregar todo mundo e derrubar a República, ficar quieto e acabar como o PC Farias, ou o meio termo’. Foi isso.”
A origem do dinheiro arrecadado por Valério
“Empresas. Muitas. Não vou falar nomes. As empresas entre si fraudam as coisas. Às vezes o governo não persegue, e é só isso. Elas se associam em consórcios, combinam como vencer (licitações). O Delúbio começou a usar o Marcos Valério para pagar as contas. Agora, da lista do Banco Rural, o Delúbio não sabia, não. O que aconteceu é que o Delúbio perdeu o controle. Ele só sabia de três ou quatro deputados do PT. O resto, que recebeu no Banco Rural, não era esquema do Delúbio. Tudo o que foi sacado não tinha a ver com o Delúbio. Quem mais sacou? Há muita hipocrisia.”
A distribuição dos cargos para petistas e aliados
“Quando assumi os cargos, fui muito abordado. Ganhei uma dimensão que não tinha, trânsito com todo mundo. Essa gente não é fácil, tentou tudo. Mas eu não ia a festas com eles. Por isso nunca vão provar nada, porque nada fiz de errado. Meu papel era convencer os ministros do PT a liberarem cargos para os aliados. Porque tenho palavra. Quando o PMDB veio, em abril, e já estava tudo ocupado no governo, fiquei com o abacaxi. E muitos da base aliada de fato não entraram por questão ética, os ministros do PT são sérios. Não me conformo de o PT pagar todo o pato. Se investigassem a fundo realmente, veriam isso. E o governo nada fez de errado. Mas não há interesse porque quase todo mundo está envolvido. Foi uma grande mística (a distribuição dos cargos). De 7.900 pessoas que se inscreveram no sistema que eu montei, para toda a base aliada, com cargos e perfis técnicos, ficaram mais de 90% de fora. Foi um sistema legítimo. Cada deputado da base queria um cargo (federal) nos estados. Tinha ainda que dar uma cesta para o PMDB. Seriam 50 cargos. Mas em 2004 atuei só no rescaldo disso. Roberto Jefferson inventou que eu era o gerente dos cargos em 2004.”
“É um mecanismo que continua no país”
“A verdade do PT não tem como ser digerida pela mídia. Como o Delúbio consegue, com uma assinatura dele mesmo, R$ 50 milhões? Olha, eu acho que o Delúbio não parou e olhou a coisa como um todo. Ele não é corrupto. Não é. Quem decidia tudo isso? Não havia uma decisão, não é como vocês pensam. Atrás do Marcos Valério deve haver cem Marcos Valérios. É um mecanismo, e que agora continua no país.”
“Nem traficante usa mais malas de dinheiro”
“É mentira (sobre as malas de dinheiro denunciadas por Roberto Jefferson). Não houve nenhuma mala de dinheiro. O dinheiro não passava pelo PT. Era um esquema cômodo. Nem traficante usa mais mala de dinheiro. Isso é Al Capone. Agora, o PT deu muito dinheiro ao PTB.”
Acusações e o esquema nos Correios
“Cadê a Skymaster? Cadê as minhas empresas que os jornais falaram? Disseram até que a HHP era minha. Estive uma vez apenas na Sky, a pedido de um líder da base aliada, cujo nome eu vou preservar, porque segundo ele a empresa estaria sendo prejudicada pelo governo. Fui ouvir e não fiz acordo. Nos Correios, quem operava de fato era o PMDB. Eduardo Medeiros não foi indicado por mim.”
Tentou falar, mas o PT preferiu não ouvir
“Se a direção do PT me chamar para ser ouvido, eu vou. Por que não me chamam? Eu liguei para o Berzoini e disse a ele que gostaria muito de ser ouvido para que minhas informações ajudassem nas investigações internas. Eu disse a ele e repito agora: estou à disposição. E à disposição mesmo. Inclusive se quiserem fazer um depoimento aberto à imprensa. Ou sob sigilo, gravado, eu falo. Mas coloco só uma condição: que avaliem a postura de quem recebeu. Aliás, quem recebeu? Sabe qual é o problema? Eu nunca fui ouvido pelo PT. Nunca quiseram saber. Mas deveriam. Ou talvez saibam.”
‘Quem mandava eram Lula, Genoino, Mercadante e Dirceu’
Soraya Aggege
Na entrevista ao GLOBO, o ex-secretário-geral do PT Silvio Pereira disse que não procurava empresários para arrecadar fundos para campanhas eleitorais e apontou quem mandava no partido na campanha de 2002:
— Eu nunca me reuni com empresários. A imprensa toda sabia o que eu fazia: levantamento de dados, análises dos palanques estaduais e nacionais, cruzamento de dados, análise política. Sempre fui da organização partidária. Quem mandava? Quem mandava eram Lula, (José) Genoino, (Aloizio) Mercadante e Zé Dirceu. Eu não estava à altura desse time.
A seguir, outros trechos da entrevista:
“Nas veias do Zé corre política”
“Num domingo, segundo turno, eu cheguei no Zé Dirceu: ‘Zé, eu estou há 22 anos no PT e não vou me candidatar, não é a minha área. Quero ir para o governo’. E o Zé: ‘Não, você vai ter que ficar no partido’. Foi o meu primeiro não para o Zé. Mas eu sabia que meu destino estava selado. Mesmo assim, fui falar com o Lula, lá no IC (Instituto de Cidadania). Naquela época eu tinha uma velha mágoa porque não me deixavam ser dirigente. O máximo era a Secretaria de Organização, e por mérito meu. Foi uma conversa de três horas com o Lula. É que com o Zé, o Zé... Nas veias do Zé Dirceu não corre sangue, corre política. Depois de muito papo eu falei: ‘Lula, minha vida toda foi o PT. Agora eu quero um cargo (no governo)’. O Lula respondeu: ‘Fica tranqüilo. Nem sempre o time que começa é o time que termina’. E depois emendou: ‘Fica tranqüilo, eu não vou deixar meus amigos na mão’. Mas eu continuava carregando o piano. Eu queria a secretaria geral, mas o Delúbio quis o (Jorge) Bittar. O Delúbio não me queria. Depois eu entendi por que ele não queria. Hoje gosto muito do Delúbio. Mas era uma disputa constante entre mim e Delúbio. E o Genoino fechava sempre com ele. Então eu fiquei no GTE (Grupo de Trabalho Eleitoral), e me deram um orçamento de R$ 600 mil. Duda Mendonça era com ele. E eu fui contra ajudar prefeituras (nas campanhas eleitorais de petistas para prefeito).”
Os maiores com Gushiken
“Para os cargos foi criada uma comissão: Genoino, Delúbio e eu. Só não mexi com os fundos de pensão. Os fundos ficaram por conta do (Marcelo) Sereno e do Delúbio. Os maiores ficaram com o Gushiken. Mas não houve nada de errado com os fundos. Com os cargos, eu tentava cumprir os acordos do partido. Mas o governo não cumpria, não funcionava. Mesmo com o Roberto Jefferson. Eu ia sempre lá para tentar fazer os ajustes. Tinha um descontentamento muito grande do PTB. Os ministros bloqueavam. O PT teve mil novecentos e poucos cargos. Não teve, por exemplo, no Ministério da Justiça, na Fazenda, nem no Banco do Brasil. Um dia eu fui lá falar com o Casseb (Cássio Casseb, ex-presidente do BB) e entendi. Ele me disse: ‘Poxa, Silvio, mas parece que tem dois PTs nessa história’. Olha, essa história de cargos foi uma grande ilusão. E o Lula me indicou formalmente para cuidar dos cargos. Mas os partidos reivindicavam os cargos e eu ia lá convencer os ministros. Olha, eu só ajudei esses caras, como o Roberto Jefferson. Não acreditei quando ele falou de mim.”
Campanhas de 2004
“Em 2004 me colocaram para escanteio. Veio a campanha e eu era do GTE e da secretaria geral. Em 2004, não estive com Lula, fiquei para escanteio. E começaram as divergências.”
Cada vez mais gastos
“Fui contra o partido contratar o Ibope e o Vox Populi para fazer as pesquisas (internas). Veja só: como fazer pesquisas estratégicas com duas instituições de grife? Eu defendi a Fundação Perseu Abramo (ligada ao próprio PT), que ficou escanteada. Mas não me deixaram cuidar das pesquisas nem das relações com o Duda Mendonça. Então eu fui para o fundo do país, Norte e Nordeste, estruturando o PT. Eu queria uma nova geração de petistas. Fiz um estudo, que acabou implantado. Dividi o país em 430 regiões, cada uma com 15, 20 cidades. Eram 2.500 diretórios em menos de 70% do país. O PT tinha um milhão de filiações cartoriais. E 80% dos municípios têm 15 mil eleitores, que no total são 33 milhões. Assim, montamos o PT. O diretório nacional passava R$ 1.200 para cada microrregião, mais os outros diretórios, dava R$ 1.800 por mês para cada microrregião. Mas funcionou três meses, Delúbio não liberava mais dinheiro. Eu não queria comitês efêmeros, de campanha, mas para durar. Por isso chamei coordenadores profissionais, remunerados, pus computadores. Por isso o projeto de informática. Mas aí a informática foi para a Secretaria de Organização e, enfim, chegou um ponto em que eu cansei. Cansei, sabe?”
“Veio Duda. Aquilo nos afundou”
“Aí veio o Duda Mendonça, um projeto de pool para 30 cidades, que não seria enlatado (a produção). Eram três pólos: São Paulo, Brasília e Recife. Aí veio a minha briga com o Genoino. Um dia, soube pela Zilmar (Fernandes, sócia de Duda), em Brasília. Ela disse: ‘Nós faremos cinco capitais se o DN (diretório nacional) avalizar’. Soube por ela que os planos tinham mudado. E foram cinco: São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Goiânia e Recife. Uma loucura, o partido não podia assumir aquilo (em termos financeiros). Eu não me lembro dos valores. Mas aquilo nos afundou. Até porque, para a militância se aproximar, a gente teve que fazer campanhas paralelas, uma loucura.”
As dívidas crescem
“2004 não foi um ano de bonança para o PT. As dívidas são o seguinte: em 2002, ficaram R$ 17 milhões de dívidas do DN, contando as campanhas de Lula, de Genoino (governo do estado de São Paulo) e de Mercadante (Senado). Dos R$ 17 milhões, pagamos R$ 14 milhões. Ficaram faltando R$ 3 milhões, da campanha para o Senado. Aí veio a dívida dos estados: R$ 32 milhões. Sempre fui contra pagar essa conta. Conheço campanha, geralmente 70% são exageros, fantasias. Mas o DN assumiu. Ou seja: a dívida de 2002 foi de R$ 50 milhões. E toda a executiva topou. Chega 2003. E aí, vamos pagar a conta? Pagar? Não, não. (Em vez disso) contrataram Vox Populi, Ibope, (compraram pesquisas) computadores etc. e tal. No fim do ano de 2003, a dívida era de R$ 120 milhões. Aí veio a campanha de 2004. E como eu soube da conta? Marcos Valério entra na minha sala e mostra a conta. Ele não conseguia chegar no Zé (já ministro da Casa Civil). Ele então me mostrou a dívida. E todos imaginavam que a conta era de R$ 50 milhões ainda.”
O Land Rover que ganhou
“Eu não consegui dizer não para o César (César Roberto Santos Oliveira, vice-presidente do Conselho de Administração da GDK). Eu errei. Eu não podia ter aceitado aquilo. Foi assim: ele começou a me abordar, por meio de amigos em comum. Dizia que o pessoal da Petrobras não aceitava os projetos dele. Eu conhecia o pessoal da Petrobras, é gente séria, não fiz nenhuma ponte para ele, nem com Petrobras, nem com ninguém. Não vão achar uma ligação minha. Mas ele continuou próximo, gostei dele. Juro, eu não consegui dizer não. Um dia, numa conversa, ele perguntou qual era meu objeto de desejo. Eu disse: ‘Olha, cara, eu tenho o meu apartamentinho, o meu carrinho e a minha casa na praia. Só me falta um jipe para andar em Ilhabela. Um dia vou ter um daqueles tipo exército, sabe?’ Daí ele me disse que tinha mais de 400 jipes. E nos outros encontros foi falando disso, foi insistindo, eu disse que não podia comprar. Um dia falou que custava R$ 75 mil. Eu pensei: se eu vender o meu por R$ 45 mil... Acho que dá.” (Conta que César teria ligado para a secretária dele e insistido para que ela passasse os dados para o documento do jipe). E continua: “Eu deixei ela passar os dados e a coisa foi indo, me esqueci até. Um dia ele me entregou o carro, já com os documentos. Eu parecia criança. Falei: ‘Cara, nem que eu leve cem anos vou te pagar isso’. Mas daí pensei como ia explicar aquilo para minha mulher, e guardei o carro num estacionamento, e a coisa foi indo assim. Tentei pagar ao César por três vezes, mas ele não aceitava. Eu errei. Errei e assumo. Por isso eu me desfiliei do PT. Como vou convencer alguém da verdade, de que eu aceitei o carro para não contrariar o César?”. E continuou: “E, na verdade, eu não sabia que a história do carro tinha vazado (para a imprensa). Eu soube na ante-sala da CPI. Chamei o (Eduardo) Suplicy e perguntei a ele, só a ele, o que eu devia fazer. Ele me disse: ‘Fale a verdade’. E eu falei.”
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Carlos Honorato
Blog
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07/05/2006 05:43:00
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As pérolas pescadas no excremento
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Arnaldo Jabor
Toda hora ouço esta pergunta nas ruas e botequins: “E aí, seu Jabor, como é que fica?”. “Não fica — respondo — nada se fecha na História...”, declaro gravemente para boquiabertos negões que não tiveram a fortuna de estudar dialética na USP. No entanto, estamos num momento histórico importantíssimo no Brasil. Sinto uma bruta indigestão diante de tudo que comi no ano de 2005, com o maior escândalo de nossa História. Ando com vontade de vomitar, diante de fatos como o daquelas vagabundas do MST destruindo 20 anos de pesquisas da Aracruz, com o suíno barbudo do Stédile dizendo que são heroínas, ele, criado pelos bispos ignorantes da Pastoral da Terra (aliás, ninguém vai prender esse cara?). Tenho ganas de assassino ao ver o Pf. Luizinho saltitante na Câmara, o Janene armando fuga com aposentadoria, enquanto o Lula faz cara de lorde que nada sabia, ao lado da rainha da Inglaterra. O Brasil esta virando um bolo fecal... (desculpem as imagens intestinais, mas é o que me resta, caros leitores). Mas sejamos “dialéticos”: vem aí uma nova fase. Não acabou em pizza. De novo me desculpem, mas a merda foi-nos utilíssima. Gosto muito da expressão do Oswald de Andrade “a contribuição milionária de todos os erros”, que descreve, em outro contexto, a forma fortuita, volúvel de o país progredir. Nunca nossos vícios ficaram tão explícitos quanto nos últimos meses. Aprendemos a dura verdade num congestionamento de descobertas, como um rio sem foz, onde as sujeiras se acumulam sem escoamento. Finalmente, nossa crise endêmica está sujamente clara, em cima da mesa de dissecação, aberta ao meio como uma galinha.
Assim, tento fazer a lista das vantagens do esterquilínio, das belezas do excremento, das pérolas que a lama podre revela. O Brasil evolui de marcha a ré. Mas esta diarréia esfuziante que temos visto grava na consciência nacional alguns insights novos que, pelo avesso, ajudam a nos esclarecer. Vamos lá.
A primeira conquista da merda é que já aprendemos que a corrupção e a sordidez no país não são um “desvio” da norma, não são pecados ou crimes casuais. Já sabemos que o crime “é” a norma, que está tudo entranhado na nacionalidade, nos códigos jurídicos, nas leis, nas almas.
Outro avanço é que também aprendemos a mecânica da escrotidão: a técnica de roubar o Estado para fins políticos, como os fundos de pensão perdem de propósito no mercado financeiro, como desviam 400 milhões para bancos fajutos em troca de maracutaias, como se faz superfaturamento em publicidade estatal, como se monta um esquema “revolucionário” de mensalão, como se nega tudo sempre, como nada prova nada e como depois os advogados oficiais desculpam tudo como “caixa de campanha”. Creio que os mecanismos de controle vão se aperfeiçoar, junto com nosso des-asnamento .
Outro grande avanço é vermos, como disse Bobbio, que nada une tanto a esquerda atrasada e a direita visceral como o ódio à democracia.
Mais uma pérola: acabou o mito do “iluminismo proletário”, acabou a idéia de que o “povo” encerraria uma mensagem de sabedoria e pureza. Descobrimos com dor (uivem, populistas...) que o “povo” é fraco, doente, ignorante e que só a educação e saúde no crescimento podem criar o progresso. Foi importante descobrirmos que Lula, o messias dos intelectuais, revelou-se apenas um alpinista social bem-sucedido, competentíssimo em cinismo político e gênio do marketing popular — o que deve reelegê-lo, já que a “economia, estúpidos!” foi a única coisa que funcionou, surrupiada do governo anterior, graças a Deus.
Outra pérola foi a indigência prática de tantos intelectuais medalhões, sua falta de contato com a realidade, sua erudição vazia, quase criminosa.
Outro bem que a bosta nos fez (o principal) foi a expulsão dos bolchevistas desse governo e vermos que seus fins ridículos e seus meios vagabundos não vão enganar mais tão facilmente as pessoas. Constatamos que não foi o PT que destruiu a “esquerda”, foram as velhas idéias de “esquerda” que destruíram o PT.
Claro que os cassados serão poucos, mas a perda de poder do José Dirceu foi o fato histórico mais importante, pois ele era o único líder antigo que ainda comandava a dialética da estupidez. A permanência de Dirceu, Genoino e outros bolchevistas sem causa podia pôr em risco as conquistas da democracia dos últimos 20 anos e arrasar o sistema atual — sem dúvida excludente e injusto — em nome de um “frankenstein” maluco feito de teorias do século XIX. Em 2010, poderíamos estar diante do caos de 30 anos atrás, se o Bob Jefferson não tivesse nos “salvado” — espero em Deus.
Aprendemos também que não há “futuro” — só uma sucessão de “presentes” que têm de ser permanentemente enfrentados e corrigidos. Aprendemos que “utopia” é uma palavra ridícula, e que o certo é “planejamento”, administração do possível, projetos democráticos e realistas.
Outra pérola tirada da bosta é a clareza de que o Estado patrimonialista, inchado, burocrático é que nos come a vida. Todos os críticos da economia sabem disso: enxugar os gastos públicos. Mas ninguém consegue. Ao menos, já conhecemos melhor o “inimigo principal”, como diziam os maoístas.
A descoberta que mais me chocou pessoalmente é que não havia um mínimo de candura, de romantismo nos petistas que eu mesmo imaginava “éticos”. Nunca pensei que casos tenebrosos como o massacre de Toninho do PT e Celso Daniel seriam ocultados com empáfia, depois de reuniões leninistas nas longas noites da Executiva.
Aprendemos, creio, que agora a modernização do país tem de ir muito mais fundo, além da estabilidade monetária conseguida pelos tucanos, que precisa ser formulada uma nova plataforma que dê conta da paralisia ibérica que nos assola. Um projeto democrático mais militante e social, com muito mais coragem para contrariar interesses, isso, se os tucanos forem eleitos e conseguirem acabar com o Hamlet que lhes vai na alma.
E se Lula for reeleito, só resta rezar para que não venha aí um populismo devastador para alegrar o Chávez e ocultar sua incompetência.
Publicado na edição de hoje do jornal O Globo
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Carlos Honorato
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14/03/2006 15:52:44
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Aldo: “STF não vai interferir no fim da verticalização”
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Por Magno Martins, da Agência Nordeste
Já aprovado em segundo turno no Congresso, o fim da verticalização nas coligações nas eleições de outubro próximo não corre risco de ser derrubado pelo Supremo Tribunal Federal, segundo avalia o presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PcdoB-SP). “Não creio que o Supremo venha interferir em um assunto aprovado pela esmagadora maioria do Congresso”, desabafa Aldo, em entrevista à Agência Nordeste.
Para ele, o fim da verticalização, defendido por todos os partidos, com exceção do PT e de uma parte do PSDB, democratiza mais as eleições deste ano. Perguntado sobre as chances de Lula disputar a reeleição, o presidente da Câmara afirmou que nunca trabalhou com um cenário em que o presidente estivesse fora da disputa, descartando a possibilidade do PCdoB apoiar a candidatura de Ciro Gomes, tese defendida pelo presidente do seu partido, Renato Rabelo.
Aldo realiza neste final de semana uma visita a três estados do Nordeste: Paraíba, Rio Grande do Norte e Piauí – com o objetivo de discutir os planos estratégicos dos estados e seus interesses específicos em projetos que tramitam no Congresso Nacional. Antes de viajar, o presidente da Câmara conversou com o diretor de Redação da Agência Nordeste sobre sua ida à Região e abordou outros assuntos. “Queremos nos aproximar mais dos problemas de cada estado e ampliar nossos laços com as bancadas e os governadores”, explicou.
Agência Nordeste - Que fatores o senhor atribui à melhora da imagem do Congresso?
Aldo Rebelo - Provavelmente deve ser pelo fato do Congresso ter discutido e votado assuntos de interesse da população e do País. Acho que essa melhoria está relacionada a atitudes que o povo julgou importantes da parte do Congresso, que está fazendo a sua parte, cumprindo o seu papel.
AN - Não foi uma surpresa essa melhoria, já que, nos últimos 40 dias, o Congresso foi verdadeiramente bombardeado pela mídia em razão do esvaziamento da convocação extraordinária?
Aldo - A pressão da população se faz através das entidades, dos sindicatos, etc. Sobre esse bombardeamento, o que eu vi foi um movimento dos meios de comunicação, que é legítimo, mas que, naturalmente, não significa, necessariamente, que a população pense do mesmo jeito. Não houve surpresa de minha parte porque estamos colocando em votação e discutindo matérias que interessam de perto ao povo e à Nação.
AN - O presidente do Supremo, Nelson Jobim, faz intervenções indevidas em assuntos do Congresso?
Aldo - Não considero interferência. Acho que o Supremo Tribunal Federal recebeu a incumbência de julgar, do ponto de vista constitucional, as demandas de todas as áreas e de todos os setores do País. Então, o Supremo julga, cumpre com o seu papel, com as suas atribuições, ao apreciar matérias também do Congresso.
AN - Então, no entender do senhor, o presidente do STF, Nelson Jobim, não atrapalha o andamento das CPIs no Congresso?
Aldo - Não, em nenhum momento o Supremo interfere nos assuntos do Congresso. Na maioria das vezes, quando se pronuncia, o STF assim o faz provocado pelos congressistas. O Supremo vai continuar julgando o que acha direito e o Congresso só pode respeitar, porque essa é uma das atribuições do Supremo.
AN - O relator da CPI dos Correios disse que a investigação da lista de Furnas só caberia numa nova CPI. Isso é possível?
Aldo - Esse negócio de CPI já está esgotando um pouco o seu repertório. As CPIs precisam concluir os seus trabalhos e votar os seus relatórios. Esse não é o momento de se falar em nova CPI.
AN - A Câmara já votou, em dois turnos, o fim da verticalização nas eleições deste ano, mas há setores que recorreram ao Supremo para derrubar a decisão. Qual a avaliação do senhor?
Aldo - Não vislumbro nenhuma possibilidade de se mudar uma decisão do Congresso tomada de forma tão clara em relação à manifestação dos seus congressistas, como foi o caso do fim da verticalização. Mas, qualquer um pode tentar, se a lei assim permitir. Mas, não creio que o Supremo venha a interferir no assunto.
AN - Para o senhor, foi melhor que o Congresso derrubasse a verticalização?
Aldo - Para os partidos, foi melhor o seu fim, uma vez que, com exceção do PT e uma parte do PSDB, todos os partidos foram pelo fim da verticalização, julgando, assim, que as eleições tendem a ficar mais democráticas.
AN - O que é consensual na mini-reforma eleitoral que a Câmara aprovou de forma simbólica e deve votar as emendas nos próximos dias?
Aldo - A maior expectativa dos deputados e das lideranças partidárias é pela redução dos gastos de campanha. Da forma como se realizam, as campanhas exigem muito gastos com som, camisetas e outros brindes, fazendo com que as eleições sejam desequilibradas. Por essa razão, já há uma quase unanimidade para se estabelecer um teto máximo nos gastos das campanhas eleitorais. Isso já deve ter um desfecho em votações que faremos das emendas, que são mais de 50, na próxima semana. O fato das medidas terem sido aprovadas por voto simbólico, na última quinta-feira, sinaliza que o Congresso quer pressa na definição do assunto, que interessa de perto a todos nós. Não podemos fazer as eleições deste ano com as mesmas regras que foram estabelecidas para o pleito passado. O nosso grande desafio é reduzir custos, estabelecer critérios para inibir o uso do caixa dois e, ao mesmo tempo, definir um teto para os gastos das campanhas majoritárias e proporcionais.
AN - O deputado Moreira Franco (PMDB-RJ), relator da reforma, quer proibir o uso de outdoor na campanha. O senhor também concorda?
Aldo - Eu sou a favor. Acho que torna a eleição mais equilibrada. Sou deputado há 26 anos e estou entre aquelas que nunca tiveram condições de colocar um outdoor. Quem usa outdoor não é rico, mas tem mais dinheiro do que os outros e isso gera um tremendo desequilíbrio. Na votação simbólica, ficou aprovado o uso do outdoor apenas para campanhas majoritárias e isso já é um grande avanço, pois permite, na eleição proporcional, um maior equilíbrio entre os candidatos a deputado. Eu, volto a repetir, sou deputado há 26 anos e não sei o que é um outdoor. Trata-se de uma peça cara de campanha, de grande visibilidade, mas de acesso restrito, o que faz com que aqueles candidatos mais ricos acabem levando mais vantagem, sobretudo na produção dessas peças, porque existem aqueles luminosos, que são caríssimos, e que conseguem, evidentemente, chamar mais atenção.
AN - Ao longo da campanha, o senhor pensa em fazer esforço concentrado para limpar a pauta da Câmara?
Aldo - Isso ainda terei que discutir com os líderes. Não é uma questão tão simples assim, porque, mesmo com resultados considerados positivos, também acaba expondo o Congresso. Vamos discutir, ainda, o calendário e que for possível fazer, faremos. Temos que priorizar as questões importantes da Câmara se isso vier a ser necessário. Temos que, por outro lado, compatibilizar a agenda dos deputados em campanha com a agenda da Câmara. Se não for possível, teremos que recorrer a outros expedientes. Acho que o Congresso amadureceu bastante e que já há uma quase unanimidade entre os pares da Casa de que todo o esforço será válido neste ano de eleição, para não expor ainda mais o parlamento. Vamos trabalhar, inicialmente, sem a idéia fixa de esforço concentrado, mas se for necessário, não darei nenhum tipo de impedimento. A palavra dos líderes, entretanto, é o que vai prevalecer sobre o assunto.
AN - O senhor tem percorrido o País. Neste fim-de-semana estará em três estados do Nordeste. Qual a razão da peregrinação?
Aldo - Tenho viajado para contactar os governadores, os presidentes das assembléias estaduais e até os deputados federais. Isso tem sido uma boa oportunidade para tratar de assuntos estratégicos de cada Estado. Aqui, em Brasília, em razão da agenda tumultuada que levamos, fica difícil fazer esse tipo de contato. O Brasil é um País de grande extensão territorial, com peculiaridades próprias, o que nos obriga, num cargo como o que exerço, a criar mecanismos para ficar mais próximo da realidade das diversas regiões. Quero, se for possível, até o final do meu mandato, percorrer as 27 unidades da Federação.
AN - Por que o senhor excluiu Pernambuco do roteiro da semana que passou?
Aldo - Porque, na verdade, eu estava querendo fazer uma visita ao governador Jarbas Vasconcelos (PMDB). Soube que, na sexta-feira passada, dia agendado para o encontro inicialmente, ele estava viajando. Nessas viagens o meu interesse é saber, primeiro, dos governadores, o que é prioridade para seus estados que dependam do esforço e da atenção da Câmara. Mas, já falei com Jarbas e acertamos uma outra data. Quem sabe, não fique para a sexta-feira gorda do Carnaval, porque aí aproveito e, no Sábado de Zé Pereira, conheço o tradicional desfile do Galo da Madrugada.
AN – Para o senhor, Lula é candidato à reeleição?
Aldo - Embora não tenha tratado do assunto diretamente com o presidente nos últimos dias, acho que ele é candidato à reeleição. No momento, o presidente não deve ficar preocupado com pesquisas, pois se em algumas não aparece bem, em outras está forte, e esses cenários mudam muito. O presidente, em qualquer dos cenários, seja com Serra ou Alckmin, no PSDB, estará muito forte. Pode até aparecer uma terceira via, mas eu não saberia dizer de onde. O que posso dizer é que teremos uma eleição muito disputada. Lula será um candidato muito forte, mas que terá adversários também muito fortes. Estamos anda no início da fase pré-eleitoral, quando nada é definitivo. O que vale mesmo conta a partir das convenções partidárias, quando os partidos homologam seus candidatos. E a guerra, para valer, é na televisão, quando se inicia a chamada propaganda eleitoral, os chamados comícios eletrônicos. Aí, sim, os terrenos já estão demarcados e temos assim mais seguranças nas leituras retiradas das pesquisas eleitorais.
AN - Quais fatores influenciaram o cenário da melhora de Lula nas pesquisas eleitorais?
Aldo – Muitos fatores. A população começa a perceber que o cenário econômico de hoje já é bem melhor do que no passado e há uma forte tradição de que a questão econômica exercer forte e decisiva influência no processo eleitoral. Em síntese, diria que o crescimento da economia, a geração de emprego, o aumento das exportações e até mesmo a negociação antecipada que o presidente fez da dívida com o FMI ajudaram muito o chefe da Nação a ter de volta aquela popularidade anterior à essas questões todas que pipocaram na cena nacional. Todos esses fatores, portanto, ajudaram muito, no meu entender, Lula a recuperar aquele prestígio que ele tinha antes de eclodir as crises que enfrenta no seu Governo.
AN - O presidente do seu partido, Renato Rabelo, chegou a admitir a possibilidade de apoiar o nome de Ciro Gomes, no caso de Lula não sair candidato. É um nome da simpatia também do senhor?
Aldo - Acho ainda muito cedo para se trabalhar dessa forma, num cenário em que Lula não seja candidato. O mais provável, volto a repetir, é que Lula seja candidato, porque é o nome mais forte dos partidos de esquerda para vencer as eleições. Fora disso, não dá para ficar especulando sobre cenários, porque nenhuma força, no meu entender, impedirá que Lula deixe de ser candidato. Ele é o melhor nome não do PT, mas de todas as forças que estão na sua base de sustentação no Congresso. Ciro é um bom ministro, tem feito um bom trabalho na Integração, mas entendo que o candidato deva ser Lula, porque tem todo o direito e as condições de fato para disputar a sua reeleição, que não vai ser fácil, volto a insistir, como as pesquisas têm mostrado.
AN - O Conselho da OAB estuda, discretamente, entrar com um pedido de impeachment do presidente Lula. Chegando, o senhor arquiva?
Aldo - Não ouvi falar sobre isso, não gosto de tratar das coisas em cima de hipóteses e nem acredito que, a esta altura, se cogite de se fazer um pedido dessa natureza em relação ao presidente da República. Os resultados preliminares das CPIs não levam a nenhuma indicação nesse sentido. Também não tenho conhecimento de que a OAB esteja pensando ou trabalhando com essa hipótese.
AN - Para o senhor, como se dará o desfecho das CPIs?
Aldo - Só dá para fazer uma avaliação mais segura depois que as CPIs encerrarem os seus trabalhos. Enquanto isso, acho melhor aguardar. Não dá para saber se todo mundo vai ser cassado ou absolvido. É melhor esperar o desfecho. Quero ressaltar, entretanto, que o plenário da Câmara dos Deputados é soberano para decidir o que julgar melhor sobre esse assunto. Todos os processos esbarrarão no plenário. Vamos aguardar para saber de fato o desfecho.
AN – O ex-presidente Fernando Henrique atacou Lula e o PT. Disse que a ética do PT é roubar. Qual a opinião do senhor?
Aldo - Sem comentários, sem comentários. Não vou ficar comentando opiniões de um ex-presidente da República.
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Carlos Honorato
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12/02/2006 04:06:44
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Temer: “Prévias forçam ministros a deixarem governo”
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Magno Martins, da Agência Nordeste
Cinco dias após o PMDB marcar as prévias para escolha do seu candidato ao Planalto para o dia 19 de março, o presidente do partido, Michel Temer (SP), volta a defender a tese de que os ministros filiados à legenda entreguem os seus cargos. “No instante em que marcamos as prévias, não há como manter mais ministros no Governo”, prega Temer, em entrevista à Agência Nordeste. No seu entender, se os ministros insistirem em permanecer no poder, o partido pode negar legenda para concorrer às eleições ou até mesmo expulsá-los. “Mas isso – assegura – é uma decisão que cabe à executiva nacional”, ressalta.
Michel Temer admite que o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, leva, hoje, uma aparente vantagem em relação ao seu concorrente Anthony Garotinho, pelo fato de agregar em torno de si os governadores e estados de grande peso eleitoral, como São Paulo, os três do Sul e boa parte do Nordeste. “Mas Garotinho largou na frente e tem trabalhado as bases”, adverte. Temer também bate em Lula. Para ele, mesmo com o fim da verticalização, o presidente terá enormes dificuldades para se reeleger. “Lula vai penar”, prevê.
Agência Nordeste - Aprovadas as prévias, não seria o caso dos ministros do PMDB entregarem seus cargos?
Michel Temer - O PMDB deu duas demonstrações de que mudou e que quer, mais do que nunca, construir a sua unidade. Se uniu, primeiro, na aprovação das prévias para 19 de março, e depois quando manifestou na totalidade da sua bancada na Câmara preferência pela emenda que acabou a verticalização. No instante em que marcamos as prévias, não há como manter mais ministros no governo. Creio, até por todas as notícias que tenho tido, que os próprios ministros tomarão a iniciativa de deixar o Governo tão logo haja a definição do candidato próprio do PMDB.
AN - Se eles insistirem em ficar no Governo, o PMDB pode negar legenda para as eleições ou expulsá-los?
Temer - Vamos examinar isso no tempo mais adequado, numa reunião da executiva nacional. Primeiro, entretanto, vamos realizar as prévias e escolher o candidato. Escolhido o candidato, certamente este assunto vai ser examinado, o que, naturalmente, vai depender, como já disse, de uma reunião da executiva. Neste processo da candidatura própria, nós temos que caminhar passo a passo. Cada dia terá a sua agonia.
AN - Foi difícil levar o PMDB às prévias?
Temer - Não foi fácil. Isso tudo nasceu em 12 de dezembro de 2004, quando fizemos uma convenção nacional, que por ampla maioria - 68% dos convencionais – decretamos a candidatura própria do PMDB. Houve até, na ocasião, medida judicial para invalidar a convenção, mas sem sucesso, prevalecendo a decisão da maioria. É claro que existem setores no partido que preferem aliança com outros partidos. Quando, entretanto, conduzimos a tese da candidatura própria, isso tomou conta do País. Em todos os Estados que visitamos constatamos o entusiasmo da militância pela tese das prévias e, naturalmente, da candidatura própria, tanto que, tempos depois, estabelecemos as regras das prévias. Vamos fazer as prévias num universo de 20 mil eleitores, o que não deixa de ser algo fantástico para o fortalecimento da democracia interna do partido. Hoje, as prévias, além de bem recebidas, são, no meu entender, irreversíveis.
AN - Quais são as regras das prévias?
Temer - Elas já existem, já aprovamos na executiva e foram determinadas pela convenção nacional. Já regulamentamos e definimos a sua data, que é 19 de março. Temos, também, a definição do colégio eleitoral e estabelecemos fórmulas. Se houver, por exemplo, mais de dois candidatos e necessidade de um segundo turno, este será feito. As regras já estão prontas e foram amplamente discutidas e aceitas pelos candidatos.
AN - O senhor admite que Rigotto leva vantagem sobre Garotinho pelo fato de contar com o apoio de São Paulo, do Sul e da maioria dos estados nordestinos?
Temer - O governador Rigotto deve ganhar o apoio da maioria das lideranças do PMDB nos estados, mas o ex-governador Garotinho está trabalhando muito o colégio eleitoral, porque até saiu na frente e estabeleceu uma estratégia direcionada nesse sentido. Neste momento, diria que é difícil afirmar quem leva vantagem.
AN - O PMDB tem um histórico de divisão. O senhor acha que, qualquer que seja o resultado das prévias, o partido se une na eleição presidencial?
Temer - Acho que sim, por uma razão muito simples: diferentemente de outras ocasiões, quando tínhamos apenas um núcleo do PMDB defendendo a candidatura própria, desta feita estamos diante de um corpo muito representativo. Então, esta campanha dos dois pré-candidatos às prévias vai se alastrar por todo o País e vai somar de vez a convicção da candidatura própria e da necessidade da unidade do partido. Eu tenho a impressão de que chegaremos ao lançamento da candidatura presidencial de maneira unificada.
AN - Governadores, como Jarbas Vasconcelos, admitem que podem abrir uma dissidência no partido, caso saia vitorioso o ex-governador Garotinho. Vencendo Garotinho, será difícil assegurar o apoio dos históricos?
Temer - Isso, no meu entender, depende de conversas no futuro. Vai depender muito da forma como as coisas encaminharem. Ainda é muito cedo para se fazer uma avaliação de uma apreciação desta natureza. Respeito profundamente o governador Jarbas. É um dos mais bem avaliados do País e chegamos a insistir em várias ocasiões para que ele fosse o pré-candidato à Presidência, porque ele representaria o que há de mais sólido e de mais representativo no PMDB em nosso País.
AN - O senhor acredita no surgimento de um terceiro nome para concorrer às prévias?
Temer - É possível. As inscrições foram prorrogadas até o dia 10 de março e temos até lá um mês e meio. Se aparecer, só reforçará a tese das prévias e da candidatura própria.
AN - Especulou-se o nome do presidente do Senado, Renan Calheiros. O senhor acredita nesta hipótese?
Temer - Numa outra ocasião, o presidente do Senado admitiu a possibilidade de disputar as prévias. Eu acharia muito bom. É claro que ele, presidente do Senado, enriqueceria a disputa nas prévias partidárias.
AN - Com o fim da verticalização, parte do PMDB pode apoiar a reeleição de Lula?
Temer - Acho difícil afirmar isso agora. Creio que na área nacional não haverá essa divisão, pelo menos trabalharei para que todo o PMDB se una em torno do candidato que vencer as prévias. Eu não sei, na verdade, o que pode acontecer nos palanques estaduais. Vamos supor que, em determinado Estado um candidato a governador do nosso partido tenha o apoio do PT ou do PSDB. É possível que num caso desse tenhamos dois palanques, um para o nosso candidato a presidente e outro para o qual aquele candidato a governador tenha vinculações. Mas isso é uma mera especulação. A idéia central é a de que os candidatos do PMDB nos estados prestigiem o candidato do partido ao Palácio do Planalto.
AN - Para o PMDB, foi melhor acabar a verticalização?
Temer - Teoricamente, sou a favor da verticalização, mas num cenário em que tenhamos um número menor de partidos. Com 28 agremiações partidárias é humanamente impossível se praticar a verticalização. O PMDB trabalhou pela queda da verticalização porque, com ela, teríamos grandes dificuldades para emplacar a tese da candidatura própria.
AN - O presidente Lula também trabalhou e torceu pelo fim da medida. Até que ponto isso fortalece o projeto dele de disputar a reeleição?
Temer - Não sei dizer, porque, na verdade embora ele tenha pleiteado o fim da verticalização, o seu partido, o PT, trabalhou e votou pela manutenção da medida. Os fatos, no futuro, é que vão indicar se ele foi, verdadeiramente, beneficiado.
AN - No quadro de hoje, o PMDB tem alguma chance de emplacar seu candidato ao Planalto?
Temer - Ainda é muito cedo. Pesquisa eleitoral só fotografa aquele determinado momento. Hoje, as pesquisas mostram que o candidato do PMDB não seria competitivo, sofreria uma derrota. O que nós esperamos no PMDB é que o partido ofereça um candidato como alternativa ao eleitorado brasileiro. A nossa expectativa é de que possamos chegar ao segundo turno. Qualquer avaliação, agora, seria precipitada, mas o que posso dizer é que a candidatura de Lula não será tão fácil como foi na primeira vez, porque ele vai enfrentar as mais variadas acusações dos seus adversários.
AN - Lula não se reelege, como já prevêem diversos líderes da oposição?
Temer - Não vai ser fácil. Não entenda isso como uma declaração de um presidente de partido que quer levar o seu candidato ao segundo turno, mas, sinceramente, Lula vai penar para se reeleger.
AN - Por que o senhor brigou, divergiu da ala governista e levou o partido a ter uma candidatura própria?
Temer - Porque este é o sentimento patriótico do PMDB. O PMDB quer uma candidatura própria. Nós já ficamos sem candidato por duas vezes e um partido do tamanho do PMDB, que tem o maior número de governadores, de prefeitos, senadores, deputados e vereadores, não pode ficar sem candidatura. Isso poderia descaracterizar o partido nacionalmente. O PMDB quer uma identidade nacional própria. A candidatura própria, hoje, é uma tese irreversível.
AN - Por que o senhor divergiu do partido no momento em que ele bandeou para o governo Lula?
Temer - Governabilidade se dá com votação de projetos do Governo no parlamento. Governabilidade não se constrói pela presença de peemedebistas no Governo. Aí, sim, há realmente uma divergência muito grande. Não atrapalharíamos o Governo se déssemos apenas sustentação nos projetos que interessassem ao povo brasileiro no Congresso Nacional.
AN - O senhor é, hoje, um político desapontado com o Governo Lula?
Temer - Quando foi eleito, Lula gerou uma esperança muito grande. Eu mesmo disse que estava na hora, chegando Lula ao poder, de uma formulação diferente de governo, calcada no desenvolvimento e nos investimentos geradores de emprego. Neste particular, Lula me decepcionou e decepcionou também quanto a outros princípios de natureza gerencial, que estão denunciados aí na imprensa.
AN - Vai ser difícil Lula justificar na campanha as corrupções no seu Governo?
Temer - O PT não cuidou da ética e deixou o presidente numa situação bastante desconfortável, porque a oposição vai apontar todos esses fatos negativos ao longo do debate sucessório. Pelo lado do PMDB, nós queremos uma campanha construtiva, não queremos apenas acusações. Queremos mostrar ao País que o PMDB tem um candidato competitivo, capaz de fazer uma administração correta e competente e, mais do que isso, que gere emprego e promova o desenvolvimento.
AN - O senhor vai se envolver na campanha dos candidatos do PMDB?
Temer - De ambos os candidatos. Já na próxima semana, estarei em São Paulo participando do ato organizado pelo ex-governador Orestes Quércia em favor da candidatura de Rigotto, como já estive num ato de Garotinho no Interior de São Paulo. Não posso adotar um candidato na condição de presidente do partido. O que adotei foi uma tese, que é a tese da candidatura própria. Então, onde houver necessidade da minha presença na campanha dos candidatos estarei lá, para levar a nossa mensagem aos nossos militantes.
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Carlos Honorato
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29/01/2006 01:16:39
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Geraldo Alckmin: “O povo foi iludido pelo PT”
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Magno Martins
Agência Nordeste
Pré-candidato do PSDB ao Planalto, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que, neste domingo faz campanha no Recife, previu, em entrevista exclusiva à Agência Nordeste, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não será reeleito. “O povo foi iludido pelo PT. Depois de 20 anos fazendo proselitismo na oposição, o PT chegou ao poder sem ter um projeto para o Brasil”, afirmou. Alckmin assegura que, escolhido pelo PSDB para disputar o Planalto, apresentará um projeto baseado na experiência de JK. “O Brasil não pode esperar. Quando JK falava 50 anos em cinco, o que ele dizia? O sentimento da urgência. O PT foi lento. Lula não merece um segundo mandato”, acrescenta. O governador vê poucas chances de chamar Jarbas Vasconcelos para compor sua chapa como vice, porque não acredita numa aliança do PSDB com o PMDB.
Agência Nordeste - O ex-presidente Fernando Henrique manifestou preferência pela candidatura de Serra. Não foi ruim para o senhor?
Geraldo Alckmin - Olha, este assunto, já é objeto de uma outra matéria há 30 dias, teve um desmentido oficial do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente, aliás, é bastante cauteloso e não iria fazer manifestações dessa natureza num momento inapropriado. Esta matéria, portanto, não tem a menor procedência.
AN - O senhor, que saiu na frente para tentar viabilizar sua candidatura dentro do PSDB, que critérios defende para escolha do candidato?
Alckmin - O diretório nacional do PSDB é que vai estabelecer os critérios. Coloquei o meu nome à disposição do partido e sou pré-candidato à Presidência da República. Começo agora a percorrer o País com a intenção de construir um projeto de desenvolvimento, com grande ênfase para o desenvolvimento regional.
AN - Vai haver disputa, ou seja, há chances do senhor disputar a convenção com Serra?
Alckmin - Não acredito em disputa. Acho que nós caminhamos para um bom entendimento e creio que o partido estará unido. Unidos, construiremos as melhores condições e o melhor projeto para trabalhar pelo Brasil. O PSDB não tem tradição em escolher seus candidatos em convenção. Além do mais, as convenções somente serão realizadas em junho e temos uma data anterior, que é o prazo de desincompatibilização, que é 31 de março, que nos força a adotar outros critérios para escolha do candidato.
AN - Quais os trunfos que o senhor conta diante de Serra para viabilizar sua candidatura?
Alckmin - Não tenho nenhum trunfo diante do meu amigo Serra. O que desejo destacar é aquilo que acredito. Acredito que o Brasil está preparado para dar um grande salto de qualidade. Nós vivemos hoje num Brasil mais maduro, que aprendeu a controlar a inflação, cujo ex-presidente Fernando Henrique teve um papel importante na estabilidade da moeda e do câmbio. Nosso grande desafio agora é reduzir impostos. E nós temos experiência em relação a isso. Temos que parar com essa coisa de discurso, de blá, blá, blá, sair do palanque e fazer. É isso que estamos fazendo em São Paulo. São Paulo vive uma realidade em redução de impostos e em políticas de geração de emprego e renda. Fechamos em São Paulo todas as torneiras do desperdício e recuperamos a capacidade de investimento do Estado. É isso que faremos no Brasil.
AN - Com prioridade para regiões mais carentes como o Nordeste?
Alckmin - O Nordeste foi muito penalizado com a perda da capacidade de investimento do Governo Federal. Se compararmos com os últimos 20 anos, constataremos que a cada ano os investimentos são cada vez menores. Isso é muito ruim. Para se promover desenvolvimento regional mais forte, mais vigoroso, capaz de gerar empregos, é preciso recuperar a capacidade de investimento do Governo. Como não dá mais para aumentar impostos, a saída é ter uma boa gestão, fazer um choque de gestão, melhorar a qualidade do gasto público. Nós economizamos aqui em São Paulo, só em compras eletrônicas, R$ 3,4 bilhões em menos de três anos.
AN - O fato de o senhor estar no final do seu segundo mandato e Serra começando a gestão em São Paulo não o deixa numa situação mais favorável?
Alckmin - Estamos completando 11 anos. Fiquei aqui quase seis anos como co-piloto de um grande governador, Mário Covas. E agora mais seis anos. Trata-se, portanto, de uma experiência importante. Me sinto preparado para governar o País. Temos 62% de ótimo e bom e apenas 8% de ruim e péssimo, o que representa uma excelente avaliação depois de 11 anos de trabalho ininterrupto. Não quero fazer comparação com o meu estimado companheiro José Serra. Cabe a ele avaliar sua situação na Prefeitura. Eu pretendo fazer uma campanha com olhos no futuro, dizendo: o Brasil está maduro e preparado para dar um grande salto. Vou centrar meus esforços na questão de educação, que é fundamental, e o saneamento básico. Não quero perder muito tempo falando mal do PT, do Lula, nada disso. O eleitorado está maduro. Acho que vamos ter uma eleição diferente, fruto do desencanto, desta grave crise política que assolou o Brasil. Teremos um grande nível de exigência ética. Outro desafio é o crescimento sustentado sem voltar a inflação.
AN - O Brasil merece um segundo mandato de Lula?
Alckmin - Eu não vejo razão para reeleição do presidente Lula. Acho que seu Governo é ruim, ele não merece um segundo mandato. É um Governo moroso, lento e marcado pela corrupção, o que é muito mais grave.
AN - O Serra assinou um documento se comprometendo a ficar quatro anos na Prefeitura de São Paulo. Esse não seria um dos trunfos do senhor frente a ele?
Alckmin - Eu não posso responder pelo Serra nessa questão. Seria indelicadeza de minha parte.
AN - Lula não se reelege, conforme previu recentemente o presidente do PFL, Jorge Bornhausen?
Alckmin - Nenhuma eleição é fácil. Nunca ocupei um cargo público que não fosse pelo voto popular. Entendo que o senador Jorge Bornhausen tem razão no sentido de que é difícil se justificar um segundo mandato de Lula. Já tivemos um Governo tão difícil, tão devagar e com tantas dificuldades que, sendo ampliado por mais quatro anos, seria muito ruim para o Brasil. Quando JK falava 50 anos em cinco, o que ele transmitia? O sentimento de urgência. Ora, o Brasil não pode esperar, o Brasil não pode perder tempo. Cinqüenta anos em cinco, eis o sentimento de urgência. No ano passado, o Brasil foi o penúltimo em crescimento. Só ganhamos do Haiti, fomos lanterninha no crescimento na América Latina e no Caribe. É o povo que sofre, é o custo PT. Isso representa menos emprego, menos renda e menos reformas, que não andam. O Governo não anda, o Congresso está parado, há uma inabilidade política. Por tudo isso é difícil justificar mais quatro anos para Lula.
AN - Lula perdeu o voto da classe média?
Alckmin - Acho que perdeu bastante, porque a classe média é a que mais sofre. Ela está esmagada. Veja que o Brasil pagou, em 2005, R$ 160 bilhões de juros da dívida externa.
AN - O senhor teme que o Bolsa-Família seja usado eleitoralmente e garanta a reeleição de Lula?
Alckmin - Eu vou manter o Bolsa-Família. A chamada rede de proteção social é necessária. Fernando Henrique foi quem criou o Bolsa-Escola. Aliás, o que é importante é vincular complementação do programa de renda mínima à escola, para que a pessoa possa sair dessa condição de maior vulnerabilidade. O Bolsa-Família, entretanto, não substitui programas geradores de emprego e renda. As pessoas querem emprego, querem trabalhar.
AN - O senhor diria que o Governo Lula é uma fraude?
Alckmin - O povo foi, na realidade, iludido. O PT vendeu um projeto. Dizia, há 20 anos, que estava tudo errado, mas quando chegou ao poder não tinha projeto. Por isso que digo que não vejo razão para um novo mandato de Lula. A população vai querer mudança, mas mudança para avançar mais. O nosso projeto é o projeto do futuro.
AN - O que vai ser mais difícil Lula explicar numa provável campanha à reeleição: as promessas não cumpridas ou a corrupção no seu Governo?
Alckmin - As duas coisas. Primeiro, a questão ética, que vai estar no centro do debate. Não vai eleger ninguém, mas ela exclui, tendo, assim, um peso importante. Quando o presidente diz que nada sabia, é muito ruim para ele também. Como é que o presidente nada sabe do que se passa na sala ao lado. Qualquer que seja a resposta do presidente ao valerioduto, ela é muito grave. Quanto às promessas, elas ficaram muito longe. É muito discurso, muita retórica. As coisas não saem do papel.
AN - Qual a aliança que o senhor imagina mais forte para derrotar Lula?
Alckmin - Nós só podemos fazer aliança com quem não tiver candidato a presidente no primeiro turno. A aliança mais natural é com o PFL, respeitando o PFL. Se o PFL não tiver candidato, é a aliança mais natural. Se a gente puder ampliar, melhor. Aliança se faz em torno de projeto. Seria ótimo atrair o PMDB, que é o nosso primo. Nós, tucanos, somos do velho e antigo e bom manda brasa, o MDB.
AN - O senhor vai buscar o seu vice no Nordeste. Havendo uma aliança com o PMDB, este nome pode ser o de Jarbas?
Alckmin - O governador Jarbas Vasconcelos é um excelente quadro. Aliás, Pernambuco mudou, é, hoje, um Estado que avançou muito com o Jarbas. Agora, o Jarbas é do PMDB. Ele só poderia ser meu vice se houvesse uma aliança com o PMDB. Hoje, a decisão do PMDB é ter candidato próprio. Mas isso não diminui a nossa admiração e o nosso respeito pelo Jarbas. Neste momento, não acho fácil uma aliança com o PMDB.
AN - Mas seria Jarbas um nome dos seus sonhos?
Alckmin - Jarbas honra qualquer chapa, porque faz um grande governo em Pernambuco, é um quadro histórico do PMDB e tem conceito e respeitabilidade no plano nacional. Quando Serra tentou puxar o Jarbas para sua chapa, em 2002, ele fez muito bem, porque o governador tem todas as credenciais para assumir responsabilidades ainda maiores.
AN - Qual a posição do senhor sobre Sudene e transposição do São Francisco?
Alckmin - O nosso desafio é resgatar a política de desenvolvimento regional e isso passa pela recriação da Sudene, mas para isso é preciso que tenhamos recursos, se não a autarquia renasce fragilizada. Quanto à transposição, não vejo problema técnico, mas é preciso recuperar o rio, cuidar do seu assoreamento.
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Carlos Honorato
Blog
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22/01/2006 01:47:26
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Alckmin pronto para o confronto
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Da Agência O Globo, de São Paulo
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), não diz uma palavra sequer sem antes calcular o risco de entrar em confronto com a direção do partido. Mas afirma que, seja qual for a regra determinada pelos tucanos, vai disputar a vaga de candidato à Presidência. Sem falar em prévias, diz que está pronto para a disputa e se mostra confiante de que o seu nome será o escolhido.
Meticuloso, procura a todo custo não fazer afirmações polêmicas para não desagradar. Evita citar nomes dos correligionários que o apóiam. Ele diz não se considerar representante da “direita do PSDB”, em oposição à “esquerda” do prefeito José Serra, mas integrante de uma “nova política”, de pessoas que dizem o que pensam, lutam por seus ideais e trabalham.
Sobre segurança pública, um setor em que enfrenta problemas, prefere responsabilizar o governo federal. No Palácio dos Bandeirantes, onde recebeu a reportagem, só descontraiu quando chegou Isabela, sua neta de 1 ano e meio.
Depois de assumir que quer ser o candidato do PSDB à Presidência, o que o senhor fará se outro tucano se lançar?
Geraldo Alckmin – Sempre disse que cada pleito tem o seu tempo e que não precipitaria o debate sucessório. Agora afirmei de forma clara que sou candidato, e acho que está na hora de discutir problemas nacionais, dizer o que já foi feito.
Se o prefeito José Serra decidir ser candidato, o senhor aceitaria uma prévia?
Alckmin – Acredito, primeiro, no entendimento. As coisas têm soluções naturais. O PSDB tem tradição pela busca de entendimento. A data da convenção não pode ser antes de 1º de junho. Mas temos a data de desincompatibilização. Por isso, o ideal é que tudo fosse decidido até março. Vou disputar dentro dos critérios. Aliás, Serra diz que não é candidato.
O senhor acredita nisso?
Alckmin – Por que duvidar da palavra do prefeito?
O senhor fala em solução natural, mas se Serra renunciar à prefeitura para disputar a vaga o partido não terá que tomar decisões que vão além do caminho do entendimento, como prévia?
Alckmin – O que o partido decidir, eu disputo. Sou um homem de partido. Vou disputar. É meu direito disputar. Se o partido disser: “Olha, a disputa é no diretório, no colegiado”, não tem problema. Mas quero deixar claro: tenho experiência. Estou no oitavo mandato.
Agora que o senhor já disse que deixará o cargo antes do fim do mandato e que não pretende concorrer a qualquer outra eleição que não a presidencial, o que pretende fazer caso seja preterido?
Alckmin – Comecei a jornada buscando a vaga para disputar a Presidência. Não há razão para avaliar outras possibilidades.
O senhor estaria disposto a apoiar um candidato do PFL para o governo de São Paulo em troca de aliança nacional?
Alckmin – Aliança não se faz na base da troca, mas com base em projeto. Defendo a aliança. A gente faz acordo com quem não tem candidato. Se o PFL tiver candidato, vamos disputar. Se não, depende de nós querermos aliança.
A articulação de Serra teria mais consistência porque é feita há mais tempo. De que maneira o senhor busca seus apoios?
Alckmin – Tenho conversado com companheiros do PSDB.
Por que o seu nome seria melhor que o de Serra?
Alckmin – Não é melhor nem pior que o do prefeito.
Que política de juros e de superávit primário faria?
Alckmin – Juros mais baixos, evidente. Há um enorme erro de dosagem. O custo fiscal disso é que cada 1% a mais na taxa Selic dá quase R$ 1 bilhão a mais de custo fiscal. No ano passado foram R$ 160 bilhões no pagamento de juros. Como estimular alguém a investir em atividade produtiva com uma taxa de juros dessa?
Existem cerca de 50 pedidos para abertura de CPIs com o objetivo de investigar seu governo, e nenhum deles ainda saiu do papel. Por que tanta blindagem?
Alckmin – O Legislativo é um outro poder, eu não mando na Assembléia Legislativa. Inclusive perdi a eleição para a presidência da Assembléia (que ficou com o PFL). Eles (os deputados de oposição) podem abrir uma, duas, três, quantas CPIs quiserem. Não vejo problema algum nisso.
Reforma agrária também tem sido um problema em sua gestão.
Alckmin – Sou plenamente favorável à reforma agrária. O problema é que não sai do lugar. Vou ter uma relação boa com o MST. Sou contra a bagunça. Tem uma medida provisória que diz que terra invadida não pode ser desapropriada, por que vai invadir? Temos o melhor programa de reforma agrária.
E como o senhor explica a invasão recente de oito áreas particulares num único fim de semana em São Paulo?
Alckmin – É verdade, e vai ser desinvadida. Em São Paulo, invadiu, desinvadiu.
A política social é um dos trunfos do governo Lula. O senhor prevê mudanças na área?
Alckmin – Primeiro é preciso crescimento econômico, que é o maior projeto de inclusão social. Além disso, estimular a atividade empreendedora, pois o governo não gera emprego, educação de qualidade e rede de proteção social. O Fernando Henrique criou uma rede, com bolsa-escola, vale-gás, bolsa-alimentação, e o presidente Lula incorporou os programas no Bolsa Família, que é muito bom. Vou dar continuidade. Mas o País não pode depender só disso.
O senhor pretende continuar a política de privatizações que começou no governo FHC?
Alckmin – Sim. Mas entenda que agora a privatização não tem tanta relevância. Mais concessão e parceria público-privada, as PPPs. Na concessão, como nas rodovias de São Paulo, só as tarifas mantêm a engenharia financeira. PPP a tarifa não mantêm. Precisa ter investimento público.
Que tipo de empresa o senhor acha que se enquadraria em futuras privatizações?
Alckmin – Bancos estaduais. A maioria já foi privatizada, mas deveriam ser todos. Tem muito coisa que se pode avançar. Susep, sistema de seguros, tem muita coisa que se pode privatizar. Correios acho que teria que amadurecer um pouco. Tem muita coisa que não precisa privatizar.
O governador Aécio Neves criticou a sua atitude agressiva na disputa pela indicação do partido. Sua atitude quebra a unidade do PSDB?
Alckmin – Não! O Aécio Neves, meu colega governador e irmão, é um dos grandes governadores, está coberto de razão. Escolha de cargo majoritário é coletiva. Agora, é importante se colocar como candidato.
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Carlos Honorato
Blog
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15/01/2006 13:35:44
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"Lula eliminou a necessidade da imprensa"
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Fonte:Repórter Social
Desde 1998, o jornalista e professor dedica-se a fornecer a Lula uma análise crítica sobre a relação do presidente com a mídia: “Ninguém tem coragem para dizer a verdade para o presidente claramente e eu digo todos os dias de manhã”.
A rotina do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem uma constante: a leitura obrigatória, todas as manhãs, de um documento conhecido como “carta crítica”. Uma resenha do que saiu na imprensa sobre o governo naquele dia. Nela, o presidente tem acesso a uma análise apurada do noticiário. Recebe críticas, sugestões, advertências e até broncas. Algumas vezes, em seus discursos, Lula reclama da acidez dos que acordam mal-humorados. Nestas ocasiões, ele se refere ao autor da “carta crítica”, o jornalista e professor da USP Bernardo Kucinski. Não é para menos. Para produzir a resenha, Kucinski acorda às 5 da manhã, percorre os jornais nacionais, internacionais e faz uma análise da conjuntura a partir do que leu. No documento, o "chato do Kucinski", como é conhecido nos corredores do Planalto, tece comentários sobre as ações do governo, suas repercussões e analisa as matérias da imprensa no que elas trazem de mais interessante: as entrelinhas. A prática de escrever esta resenha para Lula começou ainda nas eleições de 1998, quando o jornalista percebeu que uma leitura crítica do noticiário poderia ajudar o então candidato a presidente. Kucinski, que era colaborador da campanha, passou a enviar relatórios diários – conhecidos como "cartas ácidas" - a Lula. Em 2000, estas cartas foram publicadas em livro. Já na campanha de 2002, dentro da lógica do "Lulinha paz e amor", as “cartas ácidas” se tornaram "cartas críticas" e assumiram um tom mais ameno. Lula venceu e quando chegou ao Planalto continuou recebendo o material do agora assessor especial da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica. Além do presidente, poucos colaboradores têm acesso ao conteúdo da resenha. Na entrevista a seguir, o autor das "cartas críticas" fala sobre o governo Lula ("decepcionou muito"), sobre a imprensa ("a palavra de ordem é linchar") e sobre o papel dos jornalistas na cobertura da crise política ("eles estão fazendo uma cruzada moral"). Por último, mas não menos importante, Kucinski também critica a atuação de Duda Mendonça no governo – “ele atuou dos dois lados do balcão” - e aponta problemas na área de comunicação do governo. Confira a entrevista dada a Alice Sosnowski, especial para a Agência Repórter Social:
Repórter Social - Qual a diferença das "cartas ácidas" feitas para o candidato Lula na campanha de 1998 para a "carta crítica" dirigida ao presidente?
Bernardo Kucinski - A própria nomenclatura já tem um significado de mudança. O Lula achava que eu era ácido demais e muito mal-humorado, sempre vendo o lado negativo e então, por sugestão dele mesmo, mudamos para uma coisa mais amena, pois você pode ser crítico sem ser pessimista. O nome não mudou só porque ele virou presidente, mas já na campanha de 2002. Ele achou que não podia sair de manhã com raiva da imprensa, pensando mal das coisas, e a carta ácida realmente era ácida. Então, por exigência dele, mudamos o nome para carta crítica. No sentido de ser algo mais propositivo, menos mal-humorado. Porque na campanha o Duda Mendonça disse para o Lula aquela história de "Lula paz e amor": E você lê aquela coisa do Kucinski e já sai de mau-humor. Isso não é bom. Então, começou ali essa mudança de postura, uma coisa menos ácida. Quando o Lula virou presidente, foi mantido o nome carta crítica.
Repórter Social - Como você avalia a relação da imprensa com o presidente Lula?
Kucinski - Sempre foi muito ruim. Ele sempre foi muito maltratado pela imprensa, tirando alguns períodos - como em certo momento da greve de 1978. Fora alguns períodos, ele sempre foi muito desrespeitado. Os jornalistas não aceitam um líder político que não tenha diploma.
Repórter Social - Os jornalistas ou os donos dos jornais?
Kucinski - Os jornalistas, não os donos. Os jornalistas não têm respeito com a pessoa do Lula. Há sempre um pressuposto de que ele vai falar besteira, vai errar, de que ele não conhece as coisas, usando como parâmetro um conceito de saber que é acadêmico. O Lula sempre foi tratado com discriminação e desrespeito. E em momentos cruciais, ele foi bombardeado com difamação. Eu me lembro que alguns momentos específicos, como aquela história do carro que ele vendeu ou dele morar numa casa de favor, coisa que milhões de brasileiros fazem. Tudo era distorcido para mostrá-lo como propenso à corrupção.
Repórter Social - Mas ele sabe que como figura pública e ainda mais como presidente que tem telhado de vidro. Ele mesmo já falou sobre isso quando ganhou as eleições.
Kucinski - Claro. Ele tem consciência disso. Esse trato que a imprensa dá ao Lula deveria criar nele uma rejeição à mídia total, mas ele se controla. Interpretando o Lula, eu acho que ele tem uma visão não muito positiva dos jornalistas, por causa de tudo isso. Agora, o erro que o Lula cometeu é quando ele virou presidente. O Lula não soube dissociar ele como pessoa, o político que vem sendo perseguido faz anos, da figura do presidente. O presidente tem por obrigação receber a imprensa. Não importa o que ela vai fazer depois. É uma obrigação institucional. O presidente tem que falar com a imprensa e, através dela, falar com a nação. Eu acho que faltou ao Lula e ao governo a percepção dessa obrigação. O governo começou a tratar mal a imprensa, não da forma que a imprensa tratava mal o Lula – ofendendo, xingando, discriminando – Muito pior, eu acho. Ele eliminou a necessidade da imprensa. Ela passou a se comunicar diretamente, através das falas do presidente, do café do presidente, dos discursos do presidente, que é sempre uma fala vertical. Ele fala e não se submete ao questionamento. O governo até poderia ter feito isso se, ao mesmo tempo, estabelecesse um rito de coletiva, como todos os governos de países importantes fazem. Uma vez, duas vezes por semana ou todos os dias. Sempre que tiver um visitante estrangeiro, fazer uma coletiva. Tem um acontecimento importante, uma coletiva. De uma forma ritualística. Sempre no mesmo lugar, com o escudo do Brasil atrás. E isso, o governo Lula não fez.
Repórter Social - Quem é contra este tipo de comunicação no governo? O presidente Lula?
Kucinski - A falha é do grupo que chegou ao poder. O PT tem uma tradição curiosa nessa análise. Ele tem propostas de políticas públicas para várias áreas: saúde, educação, agricultura, mas para comunicação não tem. As que ele tem, que os grupos de ativistas chegaram a fazer, nunca foram incorporadas pelo partido. Então já começou por aí. E quando se instalou o governo a comunicação foi... eu diria o seguinte: primeiro pela experiência de vida do Lula e a convicção que ele tem que se comunica bem diretamente com o povo, o que aliás acho verdade. Segundo, a presença do Duda Mendonça foi perturbadora. Ele passou a circular no governo de maneira informal. Ele não era ministro de nada, ele era contratado pelo governo para fazer ações de comunicação. Na minha opinião, ele não podia ao mesmo tempo ser palpiteiro do governo e quem ia fazer as ações. Nem as empresas privadas fazem isso. Você apresenta sua demanda, a empresa de comunicação apresenta a proposta e você aprova ou rejeita. Ali não. O Duda ficava dos dois lados do balcão. De maneira informal, mas isso aí prejudicou a percepção pelo governo que ele tinha de criar uma política de comunicação e colocar essa política em um plano estratégico .
Repórter Social - Como deveria ser este plano estratégico de comunicação? Deveria ser centralizado? Com quem?
Kucinski - Na forma como o governo foi criado inicialmente, isso deveria ser centralizado com o (ex-ministro) Gushiken, mas ele não era do ramo. A experiência dele é de campanha, não de comunicação do governo. Talvez por esse motivo e também por outros, ele foi tocando muito na chamada comunicação programada, em que você paga para comunicar, que são ações de propaganda. Agora, comunicação de governo não se restringe a isso. Deveria ter o mínimo de propaganda possível e ter outras formas, que são coletivas, folhetos de informação, relatórios, livros, análises, briefings com a mídia. Isso foi um dos problemas. Não houve essa percepção e não foi por falta de projeto. Eu mesmo fiz inúmeros projetos e foram todos engavetados, e também por uma outra coisa que aconteceu no começo do governo, que foi o seguinte: transferiu-se da vida política do PT um padrão de comunicação que é típico do político, que é a comunicação privilegiada. Quase todo o político tem algum jornalista que ele privilegia, e ele passa informação apenas para ele, há um acordo entre eles. Foi esse o padrão que se seguiu. O padrão de comunicação do governo Lula é por um lado a fala vertical do presidente e por outro os vazamentos, que se tornaram padrão de comunicação. Vazamento de assessores muito próximos. Os vazamentos desmoralizam o governo, desmoralizam os comunicadores, insuflam a luta interna. Passa-se a fazer uma luta interna através da mídia. Usa-se a mídia para disputa interna. Vira uma distorção. Os vazamentos ou conversas reservadas com jornalistas têm um papel importante, mas ele é acessório. É legitimo chamar um grupo de jornalistas, tentar contextualizar uma situação, baseado no off. Você num certo sentido dá uma orientação, elementos para jornalistas optarem pelas prioridades dele. Isso é legitimo e necessário, mas isso tem que fazer parte de uma política de comunicação. Com o tempo foram se perdendo outras coisas. Você não tem um sistema que decide qual é a fala do dia, você perde oportunidades. Na semana passada mesmo (a entrevista foi feita no dia 04 de dezembro), a CEF pela primeira vez abriu financiamento para a classe média de habitação, depois de 13 anos. Foi anunciado como coisa da empresa, da Caixa. Isso deveria ser coisa do governo, com o Lula anunciando. Não há o menor planejamento. A situação, em vez de melhorar, foi se deteriorando.
Repórter Social - O que aconteceu quando a carta crítica vazou para a imprensa em 2004? Como o senhor interpretou o fato?
Kucinski - Eu não dei bola. Certamente foi para me agredir. Quero deixar claro que o jornalista tem o direito de fuçar, descobrir e publicar. O erro está no fato de que a carta crítica é uma conversa reservada entre eu e o presidente que, por deferência dele, é compartilhada por alguns ministros. E alguém vazou. Hoje ela vai para umas 7 ou 8 pessoas. Mas é sempre considerada uma correspondência do presidente, que ele acha conveniente compartilhar. Eu não dei bola para esse vazamento. Tomo certos cuidados. Procuro ser contundente, ir ao ponto. Eu acho que tenho convicções muito democráticas sobre mídia. A carta crítica nunca tem nada de comprometedor. Um vazamento acaba não tendo efeito nenhum.
Repórter Social - O senhor critica a forma como a imprensa conduz a crise política em Brasília? O que falta para os jornalistas?
Kucinski - Está faltando tudo. Falta conhecer história, e falta a preocupação em conhecer. Falta operosidade. Eles não trabalham a sério as questões, não vão a fundo. Estou falando do jornalista, do repórter. Você tem aí uma grife, os colunistas. Estes têm conhecimento, bons contatos, cultura, bagagem. O problema é outro.
Repórter Social – Qual?
Kucinski - Eles têm um espaço privilegiado na imprensa porque defendem certas posições. Todos eles defendem a política econômica do Palocci, do Banco Central, defendem corte de gasto público, o Estado mínimo. Por isso, eles são premiados com espaços nobres. Há um processo de seleção na verdade. E eles estão em todos os lugares. Você abre o jornal, ele está no jornal. Você liga o rádio, ele está no rádio, você liga a TV, está na TV. Estão em todos os espaços ao mesmo tempo, porque eles estão falando aquilo que o poder quer que eles falem. Você tem exceções, mas elas são contadas nos dedos de uma mão, como o Luis Nassif, por exemplo. Em geral, eles são tolerados porque legitimam o jornal. Os dissidentes, os mais críticos também têm o seu espaço, mas é um espaço mais acessório, ocasional, calculado para que ele não influa no tom geral do discurso da mídia.
Repórter Social - E os repórteres?
Kucinski - O problema do repórter é que eles estão vivendo um momento muito difícil. De extrema competição, uma carga de trabalho que não deixa espaço para um trabalho aprofundado. E nesse ambiente, com essa carga, nas circunstâncias atuais, criou-se nesse reportariado uma postura muito igual de todos eles. Sendo todos iguais, todos correm menos risco. E qual é a postura igual? Todos acham que todo o governo Lula é corrupto, tudo que todos os ministros fazem é suspeito e qualquer coisa que se faça, alguma coisa tem por trás daquilo. Como o trabalho é uma pauleira, não dá tempo de investigar direito. Aos poucos a gente foi vendo que as acusações viraram matérias; as pautas viraram matérias. Matérias inteiras que deveriam ser o ponto de partida e elas são o ponto de chegada.
Repórter Social - Mas isso não é responsabilidade dos editores, diretores dos jornais?
Kucinski - Aí junta a fome com a vontade de comer. Eu não acho que eles (os repórteres) fazem isso porque mandam eles fazerem. Eles fazem isso porque estão possuídos por um sentimento genuíno de indignação. Eles se sentem cruzados de uma cruzada moral. Se você ousar dizer o contrário pode ser repudiado pela categoria. A palavra de ordem é acusar e linchar. Eu acho que daqui a 10 anos vai haver um mea culpa. Vão perceber que ¾ das acusações eram infundadas. Se uma pessoa vai falar com um ministro, isso não quer dizer que tem corrupção. Vão perceber que a tal empresa do Gushiken não teve sacanagem e afundou por causa dessa campanha. Vai ver quantas empresas já quebraram por causa dessa campanha
Repórter Social - E por que a imprensa entrou na campanha de linchar o governo Lula?
Kucinski - Porque o governo Lula decepcionou. Houve uma decepção que começou pequena e foi se aprofundando. E quando estouraram as acusações do Roberto Jefferson, que surgiu o cânone dessa lambança toda, aí a decepção foi total e não houve como esconder. O que está acontecendo é que todo mundo acha que tem que fazer uma acusação. Tem que fazer parte de um processo histórico, como se estivesse pertencendo a uma coisa que uma geração está fazendo: a nossa geração está derrubando um governo corrupto. Todo o jornalista se sente na obrigação de contribuir com isso. Eles acreditam que estão fazendo o bem. Eles estão percebendo a superfície das coisas e não os fundamentos. Eles não percebem que todos que estão acusando o PT sempre foram corruptos. Eles estão discriminando. Acusam o PT e não os outros. A história do Azeredo, das privatizações. Ela aparece muito minimizada, para legitimar a campanha contra o governo Lula. É um fenômeno interessante, parecido com o marcartismo, que aconteceu nos EUA. Anos depois veio a critica ao marcartismo, todo mundo que era vilão virou mocinho e vice-versa.
Repórter Social - Qual será o papel da imprensa na próxima eleição?
Kucinski - Não pensei nisso. (...) refletindo profundamente nos nossos papéis, dispostos a não cometer os mesmos erros que já cometemos e dispostos a não passar cheques em branco. Uma pessoa como eu tem uma história de jornalismo, de professor, tenho minhas convicções. Nós temos que levar muito a sério a própria história. Na questão do governo Lula: apostamos no governo Lula, eu apostei no governo Lula. Acho que o governo Lula tem muita coisa boa, mas fragmentada no campo do ensino, da agricultura familiar, da inclusão social. Infelizmente, muitas delas são reversíveis. Algumas não são, como o Prouni. A mídia não está cuidando disso, porque está obcecada pela denúncia. Uma coisa ruim que está acontecendo. Ela só trata de coisas institucionais, não trata do que acontece no dia-a-dia, no real. Mas, fundamentalmente, o nosso governo não foi capaz de mudar o país como ele prometeu. Mudar para sentir que estamos caminhando para alguma coisa, você não muda de um dia para o outro, mas você cria o sentimento da mudança e esse sentimento não foi criado.
Repórter Social - Em uma ocasião o senhor disse que o governo Lula deveria ser mais ousado. Em quê?
Kucinski - Na política econômica. Nós fomos ousados em alguns campos sociais, na política externa, mas absolutamente conservadores, retrógrados e, eu diria, até burros na política econômica. Esta política camuflada por um êxito nas exportações que não tinha nada a ver com a política econômica e muito mais com o cenário internacional. O discurso dominante acabou sendo esse, da continuidade, da estabilidade e não o discurso da mudança. Nós enterramos o nosso próprio discurso da mudança.
Repórter Social - O senhor acredita que a ministra Dilma Roussef virou porta-voz dos descontentes dentro do governo?
Kucinski - Não sei.
Repórter Social - O senhor pretende sair do governo?
Kucinski - Não vou responder.
Repórter Social - Última pergunta: por que o “chato do Kucinski”?
Kucinski - Ninguém tem coragem para dizer a verdade para o presidente claramente e eu digo todos os dias de manhã. Eu não estou lá para puxar o saco, elogiar. Eu também não estou lá para infernizar. Estabeleceu-se a partir de um certo momento que eu criei uma forma de tratamento da questão que era importante para o governo e era a única instância onde isso era feito, uma forma crítica que tinha que ser preservada. O Gushiken chegou a formular esta teoria de que eu tinha que ter liberdade total. Mas a turma fala “o chato” por um pouco de brincadeira. Por outro lado é uma coisa que não existe em qualquer governo, é muito raro encontrar.
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Carlos Honorato
Blog
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11/01/2006 01:30:08
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“Corrupção será mais sutil”
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Entrevista /David Fleischer
Daniel Pereira, Hugo Marques e Tina Vieira, do Jornal do Brasil
Mais uma vez, o Brasil não será passado a limpo, apesar da crise política e das investigações em curso. A avaliação é do cientista político David Fleischer, um americano nascido em Washington que compensa o tipo físico miúdo com um currículo e um rol de clientes extensos conquistados em mais de 40 anos de trabalho no país. Segundo Fleischer, o mensalão resultará apenas num refinamento da classe política, que buscará modos mais sutis de manter práticas à margem da lei.
– Há indícios de que outros partidos, como PSDB e PFL, estão na vala comum. A situação fede muito, mas talvez não chegue ao ponto final porque envolve muita gente – declara.
Professor emérito da Universidade de Brasília, Fleischer afirma que a reeleição do presidente Lula é muito difícil, mas possível. Haveria 50% de chance de vitória. No PSDB, o adversário ideal para o petista seria o prefeito de São Paulo, José Serra. Tucano derrotado em 2002, Serra causaria apreensão nos grandes grupos do sistema financeiro e da indústria, ao contrário de Lula.
– Eles estão satisfeitos com o que receberam como políticas públicas e benefícios nos últimos três anos – declara Fleischer.
Fala com a autoridade de quem tem entre seus clientes HSBC e JP Morgan Chase, além de embaixadas no Brasil, entre elas a dos EUA.
- A crise atual é mais grave do que a que resultou no impeachment do ex-presidente Fernando Collor?
- A crise do governo Lula é bem mais ampla do que a do Collor porque envolve dezenas de pessoas da classe política. Não são apenas os partidos da base de Lula. Há indícios de que outros partidos, como PSDB e PFL, estão na vala comum. A tendência de abafar é grande. A situação fede muito, mas talvez não chegue ao ponto final porque envolve muita gente.
- Por que a crise é mais ampla?
- O Collor perdeu a confiança do Congresso, e a maioria que ele nunca teve foi diminuída sensivelmente. A crise atual é mais ampla porque o Lula ainda tem supostamente maioria e porque envolve uma gama razoável do Congresso, principalmente na Câmara, envolvida no esquema do mensalão. São novidade também as agências de publicidade, que foram usadas como intermediárias. E estamos vendo estes dois bancos - o Rural e o BMG. O Banco Rural já tem folha corrida, era totalmente envolvido nas falcatruas do Collor. Deveria ter sido fechado pelo Banco Central, em 1992, pelos crimes que cometeu. Mas o Banco Central atua na política monetária. Na fiscalização, é zero.
- O envolvimento de vários partidos não sugere um acordão como desfecho da crise?
- O acordão salvará algumas pessoas. Mais dois ou três serão cassados, e os demais absolvidos.
- O que o futuro reserva ao PT?
- Como o Lula falou, o PT sangrou e continua sangrando. Parte do PT sangrará tanto que se conseguir eleger 50 deputados federais será milagre. O partido elegerá uns quatro senadores e talvez nenhum governador. O PT teve a chance de mudar com o Tarso Genro. Quando ele assumiu interinamente a presidência do partido, propôs uma faxina geral. Mas o partido vetou, porque muita gente seria 'faxinada'. Segundo o DataFolha o PT perdeu um terço dos seus simpatizantes em um ano.
- Os antigos simpatizantes do PT não migraram para outros partidos. Há espaço para a vitória de um aventureiro?
- Mais de 50% dos entrevistados não têm preferência partidária. Esse contingente é uma incógnita. Um novo salvador da pátria é uma das possibilidades, como o Collor em 1989. O Garotinho aspira a ser esse salvador. Mas tem muito líder tradicional no PMDB que não gosta dele. Por isso, estão lançando vários pré-candidatos para barrar o Garotinho.
- Para onde o eleitor do PT rumará em 2006?
- Na eleição para deputado, o PT perderá muito. Lula está mais ou menos descolado do PT. Em 1994, 1998 e 2002, teve muito mais votos do que o PT obteve para deputado.
- Como será a eleição de 2006?
- Tanto PFL como PSDB têm de tomar muito cuidado porque têm telhado de vidro também. Se jogarem pedras em cima do PT e do Lula, receberão pedradas de volta.
- Uma campanha pesada não jogará a crise para 2007?
- Essa foi a sensação de PSDB e PFL em 2005. Não atacaram Lula e não pediram impeachment porque ele poderia ficar fortalecido na opinião pública e virar mártir. E também porque o setor privado e os bancos estão satisfeitos com o desempenho do governo Lula. PSDB e PFL pensaram que talvez ganharão a eleição. Se derrubarem todo o edifício do governo, levarão 2007 e 2008 para colocar ordem na casa. Pode ser um freio na sangria na campanha, para evitar uma derrubada total das instituições.
- O senhor acha que Lula está morto em termos de eleição?
- Lula pode nos surpreender em 2006, recuperar uma certa posição de candidato competitivo. Isso depende muito da oposição. Acho que Geraldo Alckmin será um candidato pior para Lula enfrentar do que o Serra. Serra já foi derrotado uma vez e tem uma personalidade diferente. Alckmin tem uma experiência em São Paulo. Também tem outra grande vantagem porque o setor privado aceita ele, mas grande parte do setor privado fica um pouco apreensivo com relação a Serra. Todo mundo lembra dele digladiando com Malan.
- Os R$ 30 bilhões em investimentos previstos para 2006 podem impulsionar a campanha de Lula?
- Sim. É por isso que a oposição está tão alvoroçada e tentará atrasar o Orçamento. Tem ainda a verba do BNDES e das grandes estatais, que somadas chegam a uns R$ 50 bilhões.
- Será criado um clima de euforia econômica?
- Sim, um clima de euforia, de emprego, uma imagem de governo mostrando serviço, não apenas recapeando estradas, mas fazendo habitação popular, saneamento. E como a população não tem memória boa para lembrar o que o governo fez em 2003, 2004 e 2005...
- A classe média vota pelo bolso?
- Vota pelo bolso, mas vota muito pela percepção de sucesso ou fracasso administrativo. E o mensalão pegou muito mal na classe média. Mas é muito importante lembrar que para as classes produtoras ter um governo popular, tipo Lula, é excelente, porque muitas vezes esse governo consegue e fazer coisas que um governo neoliberal não consegue. Foi assim com os socialistas na França, na Espanha. Foi a história da reforma da Previdência, em 2003, no Brasil.
- Os bancos e as grandes indústrias estão fechados com o Lula como candidato?
- Não é que estão fechados com o candidato. Estão satisfeitos com as políticas públicas e benefícios dos últimos três anos. Também ficaram mais ou menos satisfeitos com o governo FHC. A grande pisada no tomate de FHC foi o apagão.
- Qual é o principal componente para a decisão do voto no Brasil?
- A situação econômica, acesso a consumo, emprego, a sensação de que os preços estão controlados, a inflação está razoavelmente baixa e os salários médios estão aumentando gradualmente. O salário mínimo é outro jogo importante para 2006. Lula segurou o salário mínimo em 2003, 2004 e 2005. Agora está discutindo se aumentará um pouco mais.
- A reeleição de Lula é possível?
- Sim, mas é muito difícil. Ele tem uns 50% de chance de se reeleger.
- Os clientes do senhor ficaram preocupados com a situação do ministro Palocci?
- Esse é um ponto que agitou bastante os mercados. A gente procurou mostrar duas coisas. O Palocci, mesmo enfraquecido, continuaria. Se fosse substituído, seria, aparentemente, por Murilo Portugal.
- O senhor não acreditava na hipótese do senador de Aloizio Mercadante assumir a Fazenda?
- Os clientes ficaram alvoroçados com a possibilidade de Mercadante ou outro do PT substituir Palocci, porque desde 2003 petista não entra na equipe econômica. O Lula não é burro de mudar radicalmente, o que pode prejudicar sua reeleição. Essa plataforma de desempenho econômico é um pilar extremamente importante para a campanha do Lula. Era isso que eu colocava para os clientes.
- Na hipótese de reeleição do Lula, como ele governará?
- Seu governo seria totalmente diferente. Em 2003, ele teve 63% dos votos no segundo turno, seu partido elegeu 91 deputados, o que foi um marco extraordinário do PT, e o José Dirceu e os agentes conseguiram construir uma maioria rapidamente. A melhor hipótese possível para o Lula seria o PMDB fornecer o vice e fazer uma coligação. Mas nessa o PMDB não entra de bobo. Eles podem fazer a coligação, mas vão querer nove, dez ministérios importantes. Será um governo de coalizão em que parceiros não apenas ocuparão ministérios, mas participarão de decisões.
- Teremos um presidente Lula mais fraco no segundo mandato?
- Sim, um Lula mais fraco. O problema é que ele é carismático, mas não sabe administrar. Terá que encontrar outro Dirceu para ser seu gerente.
- A crise do mensalão levará a uma mudança das práticas políticas?
- Minha resposta é não. Não mudará as práticas políticas, porque já vimos esse filme antes. O mensalão amadurecerá a classe política, que usará outros mecanismos, mais sutis, para fazer a mesma coisa.
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Carlos Honorato
Blog
em
09/01/2006 00:46:37
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