Levantamento do Serviço de Perícias de Engenharia e Meio Ambiente da Polícia Federal apontou um superfaturamento de cerca de R$ 700 milhões em 303 obras públicas investigadas no ano passado. O relatório obtido pela Folha informa que, de cada R$ 100 pagos pelo poder público para execução das construções periciadas em 2009, R$ 29 foram superfaturados, em média. O trabalho inclui inspeções em edificações, vias pavimentadas, sistemas de esgoto, rodovias, portos e aeroportos. As construções foram tocadas pelo governo federal, Estados ou municípios e foram avaliadas pela PF por terem recebido recursos da União.As perícias foram todas feitas em 2009, mas isso não significa que as obras -e as irregularidades- sejam desse ano. Entre as obras analisadas, há desde contratos assinados em 1994 até alguns do ano passado.O maior total de sobrepreços foi apurado em construções situadas no Rio de Janeiro, considerando valores absolutos. Em 14 obras avaliadas no Estado, os desvios somaram R$ 148 milhões.Em Goiás, as irregularidades totalizaram R$ 136 milhões, com base em nove laudos. O terceiro no "ranking" da PF é São Paulo, onde os exames relativos a quatro obras localizadas no Estado apontaram um sobrepreço de R$ 134 milhões. No Distrito Federal, a única construção avaliada indicou desvio de R$ 87 milhões.Os nomes das pessoas físicas e jurídicas envolvidas nas irregularidades não foram divulgados pela PF, uma vez que os inquéritos sobre os casos estão sob sigilo de Justiça. A Folha apurou, no entanto, que perícias na ferrovia Norte-Sul, durante a Operação Boi Barrica, e no aeroporto de Goiânia, na Operação Caixa Preta, fazem parte do estudo. Laudo relativo a um trecho de 105 quilômetros da ferrovia, entre Santa Isabel e Uruaçú, em Goiás, indicou superfaturamento de cerca de R$ 55 milhões na obra, cujos responsáveis são a Valec Engenharia, Construções e Ferrovias, empresa pública vinculada ao Ministério dos Transportes, e a empreiteira Constran.Outro ladoA assessoria da Valec informou que ainda não foi notificada sobre o laudo da PF, porém o diretor de engenharia e a chefe da auditoria interna da empresa foram afastados até a conclusão do inquérito da PF. Segundo a Valec, uma auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União) apontou o sobrepreço, e a empresa "apresentou sua defesa, esclarecendo que os preços praticados estavam compatíveis com os de mercado". A direção da Constran informou que não iria se manifestar.A perícia no aeroporto de Goiânia indicou o desvio de cerca de R$ 48 milhões por conta de superfaturamento no concreto utilizado na obra e da cobrança de serviços de terraplanagem não realizados. Segundo a assessoria do consórcio Odebrecht/Via Engenharia, executor da obra, a PF usou como parâmetro um tipo de concreto diferente daquele efetivamente empregado na construção e desconsiderou no laudo vários serviços, como escavações provenientes de substituições de solo na obra.Paulo Roberto Fagundes, diretor técnico-científico da PF, disse que o estudo permitiu constatar que há no país "uma prática de sobrepreço reinante e que a média dos superfaturamentos fica em torno de 30%". Segundo Fagundes, "esse montante todo de desvios serve para sustentar uma estrutura, que tem tentáculos em diversos gabinetes e setores. Se há uma associação para desviar recursos para uma eleição, há que irrigar toda uma cadeia de poder político regional. Isso não vai só para uma pessoa". Informações da Folha de S.Paulo
O governador afastado do DF, José Roberto Arruda (sem partido), contou com a ajuda de um policial aposentado para ser informado previamente sobre investigações capazes de comprometer sua imagem e atingir adversários políticos. Agora, o ex-policial Celso Ferro, consultor na área de segurança, colabora com os responsáveis pela investigação do mensalão do DEM.Há dez dias, Ferro procurou o Ministério Público e, em depoimento, disse que Arruda pediu que prestasse consultoria ao governo. Queria que o informasse "de fatos que poderiam comprometer sua imagem em vista da reeleição, bem como informá-lo sobre os passos de seus prováveis opositores".A conversa, segundo Ferro, foi em maio e, diante do pedido de Arruda, ele elencou fatos que poderiam comprometer o governo. À Folha o delegado disse que produziu ao menos três relatórios de graça. "Todos com informações já de conhecimento do governador. Nunca deixei de avisá-lo", disse, negando tratar-se de espionagem.A defesa de Arruda informou que não tem conhecimento de novos depoimentos e por isso não iria se pronunciar.Entre os relatórios elaborados pelo delegado está um informe apreendido pela PF na casa do ex-chefe de gabinete do governador no dia em que a Operação Caixa de Pandora foi deflagrada, em novembro.No documento "anotações pertinentes", Ferro lista a situação de investigações da PF e do Ministério Público, entre elas um inquérito sobre o ex-governador Joaquim Roriz (PSC). O relatório destaca que autoridades como Arruda e o vice Paulo Octávio apareciam em gravações "até o momento sem comprometimento".Após o depoimento de Ferro, dois delegados foram convocados a depor e revelaram como teria sido a interferência de Arruda. Os depoimentos foram usados pela vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat, para justificar a necessidade de manter Arruda preso. Na sessão no STF, o Ministério Público alegou que testemunhas só se encorajaram a falar porque Arruda está preso. Informações da Folha de S.Paulo
Carla Rocha e Maiá Menezes, de O GloboDepois de rastrear a origem das doações feitas para a précampanha de Anthony Garotinho à Presidência da República pelo PMDB em 2006, o Ministério Público estadual vai, agora, concentrar as investigações no destino dado ao restante dos R$ 30 milhões recebidos pelas empresas Emprim e Inconsul, as duas principais doadoras da campanha eleitoral. Sessenta por cento desses recursos (R$ 21,1 milhões) — desviados dos cofres públicos, de acordo com os promotores — foram sacados “na boca do caixa”.A Emprim e a Inconsul, segundo a denúncia aceita pela Justiça, ocupam posição de destaque no esquema de desvio de dinheiro da Fundação Escola de Serviço Público (Fesp), por meio de ONGs contratadas pelo órgão. A Emprim recebeu R$ 14,6 milhões de Inep, Inaap, IBDT e CBDDC. Já a Inconsul ficou com R$ 15,3 milhões.Nas contas das ONGs também foram constatados saques “na boca do caixa” no valor de R$ 6,2 milhões. A ação do MP chama a atenção para o fato de esse tipo de operação financeira ter como objetivo dificultar a ação do Banco Central na fiscalização de crimes de lavagem de dinheiro.As quatro ONGs investigadas foram as que mais receberam recursos da Fesp entre 2003 e 2006, durante a gestão da governadora Rosinha Garotinho.De um total de R$ 410 milhões, as quatro ONGs ficaram com R$ 257 milhões.De acordo com os promotores, os oitos mandados de busca e apreensão, cumpridos anteontem, no primeiro desdobramento criminal da ação, foram os primeiros passos para a tentativa de identificar o destino dos R$ 30 milhões retirados das empresas identificadas pelo MP como “fantasmas”.Os promotores estimaram, inicialmente, em R$ 58,7 milhões o prejuízo ao erário. Na decisão em que determinou o bloqueio de bens dos 88 réus do processo, entre eles o casal Garotinho, a juíza Mirella Letízia Guimarães, da 3ª Vara de Fazenda Pública, justificou a medida afirmando que havia risco de dano irreparável. “Ante a presença de evidentes indícios de atos lesivos ao erário público, cabe ao poder judiciário rechaçar, de forma enérgica e imediata, referidos atos que maculam os princípios norteadores da administração pública”.Uma das ONGs denunciadas, o CBDDC, cuja razão social mudou para Núcleo de Cidadania e Ação Social (Nucas), continua a prestar serviço para o estado. A ONG, que transferiu sua sede para Campos dos Goytacazes, fornece mão de obra para o Instituto Vital Brazil, órgão subordinado à Secretaria estadual de Saúde. Desde 2007, o Nucas já recebeu R$ 17,5 milhões. Segundo a assessoria de imprensa do instituto, a entidade fornece 140 funcionários para o órgão a um custo mensal de R$ 505 mil. O IVB tem como atividade principal a produção de medicamentos em seu parque industrial.Em 2008, durante uma inspeção, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) constatou uma série de irregularidades no contrato entre o Nucas e o IVB. O TCE chamou atenção para ilegalidades na forma de contratação de pessoal e na cobrança pelo Nucas de uma taxa de administração de 30% do valor total do contrato, classificada de “inadmissível”.Por meio de sua assessoria, o atual presidente do IVB, Antônio Werneck, afirmou que o Nucas ofereceu o menor preço na concorrência e que a taxa de administração foi renegociada para 12%.TCE poderá denunciar contrato com estado ao MP O presidente do TCE, José Nolasco, disse que o Instituto Vital Brazil está desrespeitando a determinação do tribunal de suspensão imediata da prestação do serviço — o contrato com a ONG foi renovado alguns meses após a inspeção. Ele afirmou ainda que, se as ilegalidades forem confirmadas, poderá encaminhar o caso para o Ministério Público estadual tomar as providências na esfera criminal.O presidente do Nucas é Carlos Alberto Lopes, um dos denunciados na ação do MP. Ele era presidente do diretório regional do PMDB em Petrópolis, onde funcionaria um dos núcleos operacionais do esquema das ONGs, segundo a ação do MP. Na época dos desvios, o secretário geral do diretório era Tufi Soares Meres, que também é réu no processo.O deputado Alessandro Molon (PT) vai pedir ao MP que investigue os contratos do Nucas na atual gestão. Em 2008, ele chegou a apresentar um projeto de decreto legislativo para cancelar o contrato da ONG com o IVB, mas o relator, deputado Paulo Melo (PMDB) indeferiu a proposta. Ontem, através de sua assessoria, Melo disse que o projeto apresentava “vício de origem” pois o Legislativo não pode interferir numa decisão que cabe ao Executivo.
Laura Diniz
Depois de quase três anos de investigação, o Ministério Público de São Paulo finalmente conseguiu pôr as mãos na caixa-preta que promete desvendar um dos mais espantosos esquemas de desvio de dinheiro perpetrados pelo núcleo duro do Partido dos Trabalhadores: o esquema Bancoop. Desde 2005, a sigla para Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo virou um pesadelo para milhares de associados. Criada com a promessa de entregar imóveis 40% mais baratos que os de mercado, ela deixou, no lugar dos apartamentos, um rastro de escombros. Pelo menos 400 famílias movem processos contra a cooperativa, alegando que, mesmo tendo quitado o valor integral dos imóveis, não só deixaram de recebê-los como passaram a ver as prestações se multiplicar a ponto de levá-las à ruína (veja depoimentos abaixo). Agora, começa-se a entender por quê.
Na semana passada, chegaram às mãos do promotor José Carlos Blat mais de 8 000 páginas de registros de transações bancárias realizadas pela Bancoop entre 2001 e 2008. O que elas revelam é que, nas mãos de dirigentes petistas, a cooperativa se transformou num manancial de dinheiro destinado a encher os bolsos de seus diretores e a abastecer campanhas eleitorais do partido. "A Bancoop é hoje uma organização criminosa cuja função principal é captar recursos para o caixa dois do PT e que ajudou a financiar inclusive a campanha de Lula à Presidência em 2002." Na sexta-feira, o promotor pediu à Justiça o bloqueio das contas da Bancoop e a quebra de sigilo bancário daquele que ele considera ser o principal responsável pelo esquema de desvio de dinheiro da cooperativa, seu ex-diretor financeiro e ex-presidente João Vaccari Neto. Vaccari acaba de ser nomeado o novo tesoureiro do PT e, como tal, deve cuidar das finanças da campanha eleitoral de Dilma Rousseff à Presidência.
Um dos dados mais estarrecedores que emergem dos extratos bancários analisados pelo MP é o milionário volume de saques em dinheiro feitos por meio de cheques emitidos pela Bancoop para ela mesma ou para seu banco: 31 milhões de reais só na pequena amostragem analisada. O uso de cheques como esses é uma estratégia comum nos casos em que não se quer revelar o destino do dinheiro. Até agora, o MP conseguiu esquadrinhar um terço das ordens de pagamento do lote de trinta volumes recebidos. Metade desses documentos obedecia ao padrão destinado a permitir saques anônimos. Já outros cheques encontrados, totalizando 10 milhões de reais e compreendidos no período de 2003 a 2005, tiveram destino bem explícito: o bolso de quatro dirigentes da cooperativa, o ex-presidente Luiz Eduardo Malheiro e os ex-diretores Alessandro Robson Bernardino, Marcelo Rinaldo e Tomas Edson Botelho Fraga – os três primeiros mortos em um acidente de carro em 2004 em Petrolina (PE). Eles eram donos da Germany Empreiteira, cujo único cliente conhecido era a própria Bancoop. Segundo o engenheiro Ricardo Luiz do Carmo, que foi responsável por todas as construções da cooperativa, as notas emitidas pela Germany para a Bancoop eram superfaturadas em 20%. A favor da empreiteira, no entanto, pode-se dizer que ela ao menos existia de fato. De acordo com a mesma testemunha, não era o caso da empresa de "consultoria contábil" Mizu, por exemplo, pertencente aos mesmos dirigentes da Bancoop e em cuja contabilidade o MP encontrou, até o momento, seis saídas de dinheiro referentes ao ano de 2002 com a rubrica "doação PT", no valor total de 43 200 reais. Até setembro do ano passado, a lei não autorizava cooperativas a fazer doações eleitorais.
Outro frequente agraciado com cheques da Bancoop tornou-se nacionalmente conhecido na esteira de um dos últimos escândalos que envolveram o partido. Freud "Aloprado" Godoy – ex-segurança das campanhas do presidente Lula, homem "da cozinha" do PT e um dos pivôs do caso da compra do falso dossiê contra tucanos na campanha de 2006 – recebeu, por meio da empresa que dirigia até o ano passado, onze cheques totalizando 1,5 milhão de reais, datados entre 2005 e 2006. Nesse período, a Caso Sistemas de Segurança, nome da sua empresa, funcionava no número 89 da Rua Alberto Frediani, em Santana do Parnaíba, segundo registro da Junta Comercial. Vizinhos dizem que, além da placa com o nome da firma, nada indicava que houvesse qualquer atividade por lá. O único funcionário visível da Caso era um rapaz que vinha semanalmente recolher as correspondências num carro popular azul. Hoje, a Caso se transferiu para uma casa no município de Santo André, na região do ABC.
Depoimentos colhidos pelo MP ao longo dos últimos dois anos já atestavam que o dinheiro da Bancoop havia servido para abastecer a campanha petista de 2002 que levou Lula à Presidência da República (veja o quadro). VEJA ouviu uma das testemunhas, Andy Roberto, que trabalhou como segurança da Bancoop e de Luiz Malheiro entre 2001 e 2005. Em depoimento ao MP, Roberto afirmou que Malheiro, o ex-presidente morto da Bancoop, entregava envelopes de dinheiro diretamente a Vaccari, então presidente do Sindicato dos Bancários e indicado como o responsável pelo recolhimento da caixinha de campanha de Lula. Em entrevista a VEJA, Roberto não repetiu a afirmação categoricamente, mas disse estar convicto de que isso ocorria e relatou como, mesmo depois da eleição de Lula, entre 2003 e 2004, quantias semanais de dinheiro continuaram saindo de uma agência Bradesco do Viaduto do Chá, centro de São Paulo, supostamente para o Sindicato dos Bancários, então presidido por Vaccari. "A gente ia no banco e buscava pacotes, duas pessoas escoltando uma terceira." Os pacotes, afirmou, eram entregues à secretária de Luiz Malheiro, que os entregava ao chefe. "Quando essas operações aconteciam, com certeza, em algum horário daquele dia, o Malheiro ia até o Sindicato dos Bancários. Ou, então, se encontrava com o Vaccari em algum lugar."
Os depoimentos colhidos pelo MP indicam que o esquema de desvio de dinheiro da Bancoop obedeceu a uma trajetória que já se tornou um clássico petista. Começou para abastecer campanhas eleitorais do partido e acabou servindo para atender a interesses particulares de petistas. Entre os cheques em poder do MP, por exemplo, está um em que a empresa Mizu, de "consultoria contábil", doa 7 000 reais a um certo Centro Espírita Redenção, em 2003. Muitas vezes, dirigentes da Bancoop nem se preocuparam em usar as empresas "prestadoras de serviços" que montaram com o objetivo de sugar a coo-perativa para esconder sua ganância. O MP encontrou quatro cheques da Bancoop, totalizando 35 000 reais, para uma ONG de Luiz Malheiro em São Vicente dedicada a deficientes auditivos – curiosamente, o mesmo endereço do centro espírita. Os cheques foram emitidos entre novembro de 2003 e março de 2005.
Tanta lambança, aliada a uma gestão ruinosa, fez com que a Bancoop mergulhasse num estado de pré-liquidação. Em 2004, com Lula já eleito, Luiz Malheiro foi pedir ao "chefe" Berzoini, então ministro do Trabalho, "ajuda" para reerguer a cooperativa. Quem relatou o episódio ao MP foi seu irmão, Hélio Malheiro. Em 2008, dizendo-se sob ameaça de morte, Hélio Malheiro ingressou no Programa de Proteção à Testemunhas da secretaria estadual de justiça de São Paulo, no qual se encontra até hoje. Em dezembro de 2004, depois que Luiz Malheiro já havia morrido, a "ajuda" chegou à Bancoop. Com apoio de Berzoini e corretagem da Planner (investigada pela CPI dos Correios sob a acusação de ter causado um prejuízo de 4 milhões de reais ao fundo de pensão da Serpro), a cooperativa associou-se a um Fundo de Investimentos em Direito Creditórios (FIDC), entidade que negocia recebíveis, e captou 43 milhões de reais no mercado – 85% dos papéis foram adquiridos por fundos de pensão de estatais controlados por petistas ligados ao grupo de Berzoini e Vaccari. O investimento resultou na abertura de um inquérito pela Polícia Federal por suspeita de que os fundos de pensão teriam sido prejudicados para favorecer a Bancoop.
João Vaccari Neto é do tipo que se orgulha de ser chamado de "um petista histórico", o que, no jargão do partido, significa, entre outras coisas, que ganhou boa parte da vida dirigindo entidades de classe e do partido. Aos 19 anos, começou a trabalhar como escriturário do Banespa. Ficou lá apenas dois anos. Depois disso, entrou no sindicato de sua categoria e nunca mais pegou no pesado. Participou de três diretorias da Central Única dos Trabalhadores (CUT), foi secretário de relações internacionais da entidade e presidiu o Dieese. Atuou sempre como braço de apoio de Berzoini, a quem sucedeu na presidência do Sindicato dos Bancários de São Paulo em 1998. Apesar de não ter a projeção política do amigo, Vaccari conquistou a amizade de Lula, coisa que Berzoini jamais conseguiu obter. Vaccari, como mostra agora a investigação do MP, tem mais em comum com seu antecessor, Delúbio Soares, do que a barba grisalha. E, como Freud Godoy, está mergulhado até os últimos e ralos fios de cabelo no escândalo dos aloprados (veja o quadro abaixo).
Há duas semanas, um juiz de primeira instância contrariou de-cisão do Tribunal Superior Eleitoral e determinou a cassação do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, por suposto recebimento ilegal de doação de campanha. A sentença, que colocou em risco a segurança jurídica, foi suspensa. Na semana passada, o TSE divulgou as regras que vão orientar as eleições deste ano. São medidas moralizadoras, que incluem a obrigatoriedade da divulgação de quaisquer processos ou acusações criminais que pesem sobre o candidato e que dificultam manobras de doadores que tenham por finalidade esconder a origem do dinheiro. Tudo isso mostra quanto o país está interessado em aprimorar seu sistema de financiamento eleitoral e proteger-se dos efeitos tão deletérios como conhecidos que sua distorção pode causar. Ao indicar pessoalmente alguém com o prontuário de João Vaccari para tomar conta das finanças do PT e da campanha eleitoral de Dilma Rousseff, o presidente Lula sinaliza que, ao contrário do resto do Brasil, não está nem um pouco empenhado em colaborar na faxina.
Quem deu o dinheiro para o dossiê dos aloprados? Entre os envolvidos, Vaccari era o único sentado numa montanha de reais
João Vaccari Neto e Freud Godoy, envolvidos agora no esquema Bancoop, já atuaram juntos em passado recente. Pelo menos é o que sugere o registro dos telefonemas trocados pela dupla às vésperas do estouro do escândalo dos "aloprados" – como ficaram conhecidos os petistas apontados pela Polícia Federal como integrantes da quadrilha que tentou comprar um dossiê supostamente comprometedor para tucanos durante a campanha presidencial de 2006. No caso de Vaccari, então presidente da Bancoop, os vestígios de participação no caso guardam cheiro de tinta fresca. Foi para ele que Hamilton Lacerda – na ocasião coordenador de comunicação da campanha do senador Aloizio Mercadante – telefonou uma hora antes de fazer a entrega de parte do 1,7 milhão de reais que seria usado para comprar o dossiê.
O episódio teve início quando a família de Luiz Antônio Vedoin, chefe da máfia dos sanguessugas, ofereceu a petistas documentos que supostamente comprometeriam tucanos. Deles, faria parte uma entrevista em que os Vedoin acusariam o candidato do PSDB, José Serra, de envolvimento na máfia que distribuía dinheiro a políticos em troca de emendas ao Orçamento para compras de ambulância. Ricardo Berzoini, então presidente do PT, foi acusado de ter dado a autorização para a compra do dossiê. Valdebran Padilha da Silva, filiado ao PT do Mato Grosso, e Gedimar Pereira Passos, advogado e ex-policial federal, seriam os encarregados de pagar os Vedoin com o dinheiro levado por Hamilton Lacerda. Valdebran e Gedimar foram presos pela PF num hotel Íbis, em São Paulo, depois de terem recebido o dinheiro de Lacerda e antes de entregá-lo aos Vedoin. Jorge Lorenzetti, churrasqueiro do presidente Lula, e Oswaldo Bargas, ex-secretário de Berzoini no Ministério do Trabalho, também estiveram envolvidos no episódio. Eles tentaram negociar com a revista Época uma entrevista em que os Vedoin fariam falsas acusações de corrupção contra Serra. A entrevista acabou sendo publicada pela revista Istoé.
Nas investigações que se seguiram à prisão de Valdebran e Gedimar, a PF identificou uma intensa troca de telefonemas entre os envolvidos, incluindo diversas ligações de Berzoini para a empresa Caso Sistemas de Segurança, hoje em nome da mulher de Freud Godoy. Godoy seria o contato de Gedimar no alto escalão do PT. Quanto a Vaccari, bem, até onde se sabe, era o único dos aloprados que estava sentado sobre uma montanha de dinheiro, a Bancoop. O fato de Hamilton Lacerda ter ligado para ele logo depois de ter cumprido a sua missão faz fervilhar a imaginação dos que até hoje se perguntam: de onde, afinal, veio o dinheiro dos aloprados?
Aliado histórico do PT, o PCdoB certificou hoje a continuidade da parceria com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e aprovou o apoio da legenda à pré-candidatura da ministra Dilma Rousseff à sucessão no Palácio do Planalto.Em reunião de cerca de seis horas, os 27 membros que integram a Comissão Política do Comitê Central do PCdoB reafirmaram, por unanimidade, resolução aprovada em fevereiro pela Executiva Nacional, segundo a qual a sigla daria apoio ao candidato escolhido pelas legendas que compõem a base de sustentação ao governo do presidente Lula.A adesão à chapa presidencial encabeçada pelo PT será oficialmente anunciada no início de abril, em Brasília. As lideranças do partido ainda não definiram se a solenidade será realizada no dia 8 ou 15 de abril.Ainda na reunião de hoje, o partido fechou questão sobre a criação de uma cúpula suprapartidária, com integrantes do PCdoB e do PT, para evitar que divergências regionais comprometam a composição nacional entre as duas legendas. O partido tem trabalhado para dar prioridade à eleição a cargos legislativos, procurando fortalecer a sigla no Congresso Nacional. A meta é eleger 20 deputados federais e 2 senadores. Hoje a bancada na Câmara tem 13 nomes e o partido tem apenas 1 senador.O secretário nacional de Organização, Walter Sorrentino, explicou que a legenda quer estar ao lado do PT nos 26 Estados e no Distrito Federal. "Buscamos evitar as divisões regionais, que apenas prejudicam os planos nacionais. Até o momento, o PCdoB não rivaliza com nenhum pré-candidato petista que pretende concorrer aos governos estaduais", afirmou.Na ata da reunião de hoje, o PCdoB chama a pré-candidata petista de "de uma mulher cuja personalidade política se forjou na luta democrática". O documento elogia o governo petista e defende a estratégia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de polarizar a disputa eleitoral entre PT e PSDB."Estão em confronto dois campos políticos antagônicos. A aliança de partidos liderada pelo presidente Lula versus legendas que sustentaram o governo neoliberal do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que levou o Brasil à ruína", critica. "Neste embate político, não há meio termo. Seu resultado ou garantirá a continuidade do ciclo político atual, ou será o retrocesso com o retorno daqueles que arrasaram o Brasil. É uma oposição de passado fracassado e de futuro temerário", diz o texto da ata da reunião.São PauloO discurso de unidade com os petistas, no entanto, sofreu na semana passada o seu primeiro revés. O PCdoB lançou o vereador Netinho de Paula (SP) ao Senado Federal, sem consultar a opinião dos seus aliados no Estado. A decisão, de acordo com a presidente estadual do PCdoB em São Paulo, Nádia Campeão, é "irreversível".Lideranças nacionais da sigla avaliam o gesto como um ato de protesto do PCdoB contra impasse do PT na escolha de um candidato à sucessão no Palácio dos Bandeirantes. Os petistas já articulam um plano B, mas ainda estão reféns do deputado Ciro Gomes (PSB), que ainda não decidiu se será candidato ao governo do Estado ou à Presidência da República. (AE)