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6 de agosto de 2017
publicado às 20h34
Juliana Paes: “Sou tão forte e destemida quanto Bibi”

 

Naiara Andrade, Extra
Em mais um desses dias luminosos de inverno, elenco e produção de “A força do querer” ocupam ladeiras, becos e vielas da comunidade Tavares Bastos, na Zona Sul do Rio, para gravar as cenas do fictício Morro do Beco. Lá no alto, numa laje com vista deslumbrante para a Baía de Guanabara — emoldurada por céu e mar azuis de dar gosto —, Juliana Paes bota a cara no sol e sente os bons ventos baterem. Papel complexo, polêmico e com inspiração real (na carioca Fabiana Escobar, que foi casada com o traficante Saulo de Sá), Bibi tem feito a atriz dominar o horário nobre da Globo. Em breve, sob a alcunha Perigosa, a possessiva mulher de Rubinho (Emilio Dantas) reinará absoluta também na favela, onde será conhecida como a Baronesa do Pó. Num papo de mais de uma hora com a Canal Extra, entre uma cena e outra, Juliana comentou o sucesso e falou sobre amor, ética, apologia ao crime, violência, vaidade e filhos.

Amor ou obsessão?

“Não é que Bibi ame Rubinho. Ela ama o amor que ele tem por ela. Existe uma fixação nesse relacionamento, um orgulho de ‘eu escolhi isso e isso vai dar certo, pelo bem ou pelo mal’. Na cabeça de Bibi, ela não tem escolha. Abandonar esse homem seria como abandonar um doente, uma vítima da vida. Ela repete para si mesma: ‘Ele errou, sim, mas foi querendo me dar uma vida melhor’. Vai levar um tempo para perceber que está sendo usada, manipulada. Mas aí ela vai se deslumbrar com o poder também. O que faz essa personagem tão rica e interessante são justamente essas pequenas viradas”.

História pregressa

“Bibi é uma carente. A história que eu criei para o passado dela na minha cabeça é a seguinte: Bibi não teve um pai presente, uma figura masculina que a fizesse viver essas emoções de maneira saudável. Faltou na formação da personalidade dela algo que alavancasse sua autoestima. Ela nem se acha bonita! Acha que Rubinho é o lindo da história, o que chama atenção e conquista aonde vai. Bibi tem uns traços das mulheres que amam demais. Talvez, para ela, seja mais importante ouvir um ‘eu preciso de você’ do que um ‘eu te amo’. Ela tem a necessidade de se sentir necessária, o desejo de ser insubstituível. É compulsivo isso”.

Vale tudo?

“Vale quase tudo por amor… O que não vale é não dormir tranquila. Nada paga a consciência em paz. O amor é um sentimento sereno, vem com a admiração e a atenção e precisa desses dois pilares. E é difícil manter a admiração quando os pilares morais da outra pessoa são muito diferentes dos seus”.

 

Bons ventos: “Bibi chegou num momento de muita segurança e maturidade como atriz”

Bons ventos: “Bibi chegou num momento de muita segurança e maturidade como atriz” Foto: Sergio Baia

 

Tensão em cena

“Moralmente, a cena mais complicada foi aquela em que Bibi pôs fogo no escritório do restaurante em que Rubinho trabalhou como maître. Claro que foi divertido tacar fogo, a gente brinca disso quando criança. Mas eu jamais faria algo assim! Nem por um filho. Quando não se tem a índole para fazer, você não faz. Não importa se movido por que tipo de amor. Eu saio das gravações muito cansada fisicamente, porque Bibi tem uma energia cíclica, é uma mulher que está sempre vibrando em alta frequência. Mas, psicologicamente, não. Eu não misturo a vida dela com a minha, não levo a personagem para casa”.

Escolha indefensável

“Há coisas que se explicam, mas não se justificam. Nenhuma ilicitude se justifica, na minha opinião. Bibi é muito passional. Não se trata de uma vilã, ela não é uma mulher de má índole, mas tem uma ética muito flexível. No caso de Fabiana (Escobar), fui criticada quando disse que ela é raçuda. Não é que eu lance um olhar condescendente a qualquer praticante do crime, mas acho que a vida acaba castigando. Ela teve problemas de relacionamento com os filhos, viu uma arma ser apontada para a cabeça de um deles e teve que batalhar para sair dessa vida errada. Poderia muito bem estar vivendo de ilusão até hoje, mas foi corajosa, teve raça para largar a vida marginal”.

A força e o querer

“Acho que a Juliana é tão forte quanto a Bibi. Eu me considero uma mulher muito destemida, corajosa. Talvez, eu não tenha os mesmos ímpetos da Fabiana, mas não tenho medo de desafios. Encaro horas de trabalho, nunca fiz questão de dublê… Sou uma ariana daquelas!”.

Repercussão nas ruas

“É muito variada, tão ambígua quanto a personalidade de Bibi. Se estou num lugar mais abastado, junto às classes A e B, escuto: ‘Que absurdo! Vontade de dar uns tabefes nessa Bibi! Larga logo esse homem!’. Mas se estou numa comunidade, e eu já gravei em algumas, o feedback é totalmente diferente: ‘Entendo você, já tive uma tia, uma prima, uma mãe que passou por isso’, ‘Eu já passei por isso, fiz loucuras por amor e me arrependi’; ‘Já deixei de fazer muita coisa na minha vida por causa de homem’. Essa personagem tem me dado a oportunidade de conhecer o dia a dia da favela. Antes, eu só tinha ido a festas no Morro do Vidigal”.

 

Juliana comemora o sucesso: “Há muito tempo eu não era chamada pelo nome de uma personagem nas ruas”

Juliana comemora o sucesso: “Há muito tempo eu não era chamada pelo nome de uma personagem nas ruas” Foto: Sergio Baia

 

Apologia ao crime na TV

“Eu não acredito na novela com um papel exclusivamente educativo. Ela até pode educar, influenciar, mas o grande papel da novela é o entretenimento. Nossa intenção é contar uma história com erros, acertos, personagens de boa e má índole, comprometidos de caráter ou não. E não dá para contar uma boa história se ela não tiver ingredientes reais. A vida real é feita disso, de pessoas que erram e aprendem com os próprios erros. Socialmente, a novela precisa promover a reflexão. Se conseguirmos isso, somos dignos de mérito”.

Sem meras coincidências

“Tudo o que é mostrado na novela aconteceu com Fabiana na vida real. Eu não sei se em maior ou menor grau, porque a gente tem licença poética para dramatizar mais uma situação, menos a outra. Mas, de maneira geral, tudo o que temos mostrado na novela está nas histórias que Fabiana conta. Eu li o livro que ela escreveu, conversamos muito, trocamos contato, mas não tenho retornos dela. Apesar de ser uma história real, tenho que resguardar meu processo criativo. Eu me permito criar em cima do que me é dado”.

Ariana impetuosa

“Nunca deixei nenhum namorado dar pitacos no meu trabalho, nas minhas escolhas. Sempre fui muito focada e independente, mesmo dentro de uma relação. E também não sou de sofrer por amor, nunca soube o que é uma dor de cotovelo. Sou ariana, acho que o signo interfere nisso. Totalmente impetuosa, mandava na lata: ‘Ah, não quer? Eu é que não quero agora!’. Por outro lado, nunca me achei a Rainha da Cocada Preta. Eu tinha as minhas inseguranças, sim… Acho que a maturidade e a chegada dos filhos mudaram isso”.

Amores diversos

“Assim como Bibi se apaixonou por Caio (Rodrigo Lombardi) e Rubinho, homens tão opostos, eu já gostei de homens com perfis muito diferentes. Acho que quando a gente se apaixona por alguém, na verdade a paixão é pelo que a gente vira perto dessa pessoa, pelo que ela proporciona pra gente. Não é sobre o outro, é sobre mim quando estou com ele, entende? Pessoas com características diferentes provocam diferentes estados de espírito, emoções diversas. Então, é perfeitamente possível amar pessoas de perfis opostos. Analisando agora, acho que nunca tive um tipo de homem, mas todos os que passaram pela minha vida foram caras espirituosos, com um senso de humor muito parecido com o meu”.

 

“Em cena, não tenho nenhuma vaidade. Prefiro que não me retoquem”, afirma a atriz

“Em cena, não tenho nenhuma vaidade. Prefiro que não me retoquem”, afirma a atriz Foto: Sergio Baia

 

Sogra versus genro

“Ao contrário do que acontece com Aurora (mãe de Bibi, interpretada por Elizangela) e Rubinho, minha mãe (Regina Couto) e meu marido (o empresário Carlos Eduardo Baptista) se amam. É até irritante o jeito que ela o defende. Eu já disse que quando eu brigasse com Dudu não contaria para minha mãe porque ela nunca fica do meu lado, sempre coloca panos quentes a favor dele (risos). A bem da verdade, meu pai era mais de implicar com meus namorados do que minha mãe. Ele sempre foi meu maior incentivador, meu grande fã, e nos deu uma criação muito reta. Engraçado é que me custa muito falar certas frases de Bibi, como ‘Eu não sou amiga de polícia!’, porque meu pai é militar. Fico pensando ‘Desculpa, paizinho!’”.

Marketing, só o pessoal

“Bibi trancou a faculdade de Direito, mas eu sou formada pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Fui até o fim nos estudos, tenho o meu diplominha lindo, enfeitando a parede do escritório lá de casa. Sou uma publicitária que investe no marketing pessoal mesmo (risos)”.

Perigos reais

“A gente vive tempos muito difíceis. Temo muito pelos meus filhos, penso com angústia em blindar o carro. Tem muita gente indo embora do Brasil por causa da violência, muitos amigos foram para Portugal. Eu, confesso, já pensei algumas vezes em ir, mas o trabalho do meu marido não permite. Da minha parte, o que me prende é a família. Não sei viver longe do meu pai e da minha mãe. Deixo de ir a lugares à noite, não dirijo mais sozinha, que é uma coisa que eu adoro fazer… Isso é muito angustiante. Uma vez, voltando de viagem de Itaipava, na Rodovia Washington Luís, eu grávida de 8 meses, os ocupantes do carro da frente desceram com fuzis para abordarem uma moto por perto. E apontaram as armas para fazer o trânsito parar. Eu não tinha posição para me abaixar e me esconder, com aquele barrigão. E num arrastão que teve recentemente na Linha Vermelha, passei por ali pouco depois, com meus dois filhos no banco de trás. É apavorante!”.

O perigo da fama

“O que é mais perigoso para um artista no seu momento de visibilidade, que não é sempre, é acreditar na fantasia da fama, do sucesso. Acho muito perigoso viver rodeado de gente te bajulando. Eu estou numa novela de sucesso, mas não trago isso para o meu CPF. Isso é da pessoa jurídica, sabe? As pessoas adoram falar que eu sou uma estrela, uma diva… E é uma delícia ouvir. Mas é importante filtrar os elogios. Esse filtro antideslumbre é saudável”.

 

“Morrer em novela é sempre muito emocionante, eu gosto desta proposta, mas torço mais por uma redenção de Bibi”, diz ela

“Morrer em novela é sempre muito emocionante, eu gosto desta proposta, mas torço mais por uma redenção de Bibi”, diz ela Foto: Sergio Baia

 

 

Poderosa, não, realizada

“Não é que eu me sinta poderosa neste momento. A palavra certa é realizada. Não acordo pensando que sou foda, eu não me sinto assim. Quando as coisas vêm com muito esforço, muito trabalho, não deixam abrir esse canal. Estou trabalhando muito por esse sucesso, não é gratuito. Claro que tem dias em que eu me arrumo e penso: ‘Com 38 anos eu estou mais bonita do que antes’. Gosto mais dos meus contornos de corpo hoje do que com 20 anos. Nesse sentido, minha vaidade fala alto. Mas tenho uma família muito humilde, que não me deixa voar demais. Minha rotina é comum, meus amigos são os de uma vida inteira, eu mesma faço a minha maquiagem e o meu cabelo, não vivo sempre rodeada de pessoas me adulando. Poderosa eu só me sinto quando começo a gravar na pele da Bibi. Aí eu me permito”.

Choro fácil e entrega total

“As pessoas falam ‘Ah, chorar com essa situação em que está o Brasil é fácil!’. Quem me dera poder pensar no Congresso e me acabar em cena… Eu crio várias realidades paralelas, ferramentas de memória afetiva, que me ajudam a me emocionar. E, com a maior sinceridade do mundo, digo: em cena, não tenho nenhuma vaidade. Prefiro que não me retoquem. Não ligo de estar com o nariz escorrendo, com a olheira marcada. Entendi, depois de muito tempo fazendo TV, que a nossa imagem fala muito. Às vezes, só de estar descomposta, nem precisa elucubrar tanto a emoção. Se o cabelo entrou na boca, vou falar com ele assim, porque na vida a gente fala com o cabelo na cara, limpa na roupa o nariz que escorre… Sou fascinada pela realidade”.

Cuidado com a própria imagem

“Eu me cuido muito, mas saio sem maquiagem, sim. As pessoas que me veem buscando meus filhos na escola sabem que às vezes eu vou de pijama. Mas tenho respeito pelos outros: faço um rabinho de cavalo, boto óculos, porque ninguém é obrigado a me ver de olheiras. As pessoas criam uma expectativa com os artistas, eu respeito isso”.

Mãe bandida

“Meu filho Pedro não vê novela, tem só 6 anos. O caçula, Antonio, de 4, muito menos. Aí o Pedro encontrou um amiguinho na praça, que perguntou: ‘É verdade que sua mãe vai virar bandida na novela?’. E ele: ‘Sei lá, ué!’. Mas, quando chegou em casa, ele me questionou. Aí eu expliquei: ‘Filho, novela é igual a livro, só que você conta a história com imagens, com pessoas. No livro não tem o Lobo Mau, o Vampiro? Na novela também, a gente tem que mostrar para as pessoas que o mal não vale a pena, por isso que a mamãe está fazendo papel da bandida’. Aí ele ficou me olhando… ‘Ah, então tá. Mas é de mentira, né?’. Foi uma situação divertida, nada traumatizante, como divulgaram por aí. Ele não foi hostilizado”.

 

“Acho muito perigoso viver rodeado de gente te bajulando”, diz Juliana

“Acho muito perigoso viver rodeado de gente te bajulando”, diz Juliana Foto: Sergio Baia

 

Os filhos e a fama

“Sempre penso que, em algum momento, Pedro e Antonio possam não gostar mais dessa exposição midiática, mas ao mesmo tempo me vem uma serenidade ao ter consciência de que cada pai e mãe tem uma profissão que traz bônus e ônus para os seus filhos. O ônus de ser filho de famoso é estar exposto, mas eu posso proporcionar outras coisas incríveis para eles, que outros pais não podem. E espero que saibam lidar com isso tudo. O que eu tento fazer para minimizar o lado ruim é não esconder tanto os meus filhos a ponto de gerar mais curiosidade sobre eles. Posto uma fotinho ou outra para gerar tranquilidade. Porque quando você nunca mostra um passeio no shopping vira algo de outro mundo. Pedro, às vezes, fica irritado com o assédio, não entende por que eu tenho que parar para tirar foto com todo mundo. E eu sou direta para explicar, não fico fantasiando: ‘As pessoas gostam de tirar foto com quem aparece na TV’. Eles já entendem a dinâmica da coisa”.

Torcida por um final feliz

“Morrer em novela é sempre muito emocionante, eu gosto desta proposta, mas torço mais por uma redenção de Bibi. Assim como aconteceu com a Bibi real, torço para que a da ficção aprenda com os próprios erros. Esta é uma boa mensagem a passar. A Fabiana Escobar respondeu a processos, e não sei porque nunca foi presa. Mas se a justiça não a condenou, eu não me considero digna de condená-la”.

Bibi na galeria de personagens

“Bibi é a minha personagem mais ambígua, mais complexa, e chegou num momento de muita segurança e maturidade como atriz. Eu encontrei uma personagem forte e estava pronta para encarar o desafio. É um grande momento da minha carreira, este tem sido um ano muito bom para mim. Comecei em janeiro de uma maneira muito especial, com ‘Dois irmãos’, aí veio Bibi, mais para frente vai vir Dona Flor (no cinema)… Tenho dificuldade de usar termos como ‘divisor de águas’, ‘papel da minha vida’. Para falar isso a gente precisa de tempo. Mas tenho sentido a repercussão nas ruas, nas redes sociais, o motorista da Globo que me diz que ‘não perde a novela por nada deste mundo’. Quando a gente está muito dentro, é difícil ter um panorama mais abrangente. Imagino que a personagem seja um sucesso, mas mantenho sempre um pé atrás, achando que estou enxergando só a minha bolha. Há muito tempo, eu não era chamada pelo nome de uma personagem nas ruas. Era sempre ‘Juliana!’, agora é ‘Bibi!’. Quando o personagem está na frente do ator, quer dizer alguma coisa, né?

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