“Acredito em Cristalina e no que estou fazendo pela cidade”
Da redação em 15/01/2012 03:39:04

Prefeito supera obstáculos e consegue atrair investimentos para o município, que conta com o maior PIB agrícola do Estado e fortalece rapidamente seu parque industrial
Do Jornal Opção
Somente quem conhece bem a realidade atual de Goiás entende o que tem se passado no município de Cristalina nos últimos tempos. Na memória da população em geral, o que há é o senso comum, de “terra dos cristais”; na vida real, o município tem o maior PIB agrícola do Estado e o 2º maior do País; é o maior produtor de alho, o 2º maior de batata e o 4º maior de cebola; tem uma das maiores áreas proporcionais do Brasil em termos de terra irrigada. Resumindo, é um fenômeno em termos de números relativos à agricultura.
Nos últimos anos, mais especificamente desde que Luiz Carlos Attié assumiu a prefeitura, um novo dado tem chamado atenção: o desenvolvimento industrial. Sem inimigos políticos — embora não sem resistência, com a qual sofreu, vinda do Legislativo municipal, durante parte do mandato —, ele tem conseguido conquistar novas fábricas. Com bom trânsito em Brasília, Attié tem também uma capacidade única entre os prefeitos goianos para conseguir aprovação de projetos.
O resultado é que Cristalina está incluída em uma série de ações do governo federal, como o Pronasci, um programa voltado à segurança pública.
Liderança entre os corretores de imóveis do Distrito Federal — foi presidente do Creci-DF durante 18 anos —, o prefeito trocou o ambiente da capital do País por Cristalina após uma reviravolta na rotina pessoal, com a perda da mulher, vítima de câncer. A experiência o fez idealizar um hospital de referência para a doença na cidade, uma obra entre vários pontos —30, no total — de seu programa de campanha, que pretende cumprir na íntegra até o fim do ano.
Patrícia Moraes Machado — Cristalina teve a linhagem política modificada a partir da gestão do sr. O município passou a ser conhecido em todo o Estado e hoje é o 2º maior PIB agrícola do País e o maior do Estado. Esse avanço é resultado de que tipo de ação?
Tivemos a era da agricultura, do plantio, da produção agrícola. Agora, a partir deste mandato, estamos entrando no processo de industrialização desses gêneros alimentícios. Há três importantes indústrias já em Cristalina e outras indo para a cidade. Esse beneficiamento permite que essa produção cresça e também gera desenvolvimento econômico e empregos no município, que é estrategicamente localizado, em uma região promissora, perto de Brasília e na confluência de duas importantes rodovias, uma que dá acesso a São Paulo e outra a Belo Horizonte e ao Rio. Ou seja, potencialmente, Cristalina é ainda muito maior do que o que está hoje. Com a experiência no ramo da construção e como empresário, creio que desenvolvemos um diálogo bastante transparente com a sociedade. Quem ganhou dinheiro com agricultura e outros negócios passou a investir na própria cidade. Hoje, percebe-se que o desenvolvimento se verifica em todas as áreas. O mercado imobiliário retrata bem isso: a construção civil é pujante na cidade, há novos restaurantes, prédios sendo construídos — tínhamos apenas um e hoje há mais três grandes obras em andamento. Então, não são só imóveis populares, há também moradia para a classe média, o que não existia e foi possibilitado com esse crescimento, com o consumo e o comércio acontecendo dentro da própria cidade.
Patrícia Moraes Machado — Mas não adianta ter toda essa estrutura se não houver uma atuação direta da Prefeitura. O que o sr. fez para modificar positivamente esse quadro?
Fizemos várias ações. Por exemplo, Cristalina é uma das 15 cidades goianas que tem um plano diretor modelo, que foi para as ruas, discutido em seis audiências públicas. Nesse plano diretor, deixamos à disposição a construção da cidade que pretendemos fazer, onde será o parque industrial, onde será a ZPE [zona de processamento de exportações, que será a segunda no Estado], onde será o aeroporto, o que será erguido ao redor dele, que bairros existirão. Enfim, isso possibilita que tenhamos uma cidade planejada, de acordo com sua vocação, que não é só agrícola, mas também no setor de minérios. A produção de cristais é algo que tem seu potencial ainda pouco conhecido, já que o cristal é um componente essencial para a informática, para equipamentos ligados à energia solar e à energia eólica. Tudo isso também foi pensado dentro desse plano diretor.
Patrícia Moraes Machado — Como o sr. buscou essas multinacionais para o município?
Quando assumimos, multinacionais como a Bonduelle e a Fugini [do setor alimentício] já faziam prospecção em Cristalina. O que fizemos foi o trabalho de facilitador para que isso ocorresse. A prefeitura conseguiu as áreas, que não são pequenas nem baratas, em parceria com o Estado e com permutas de outras áreas no município. Foi uma ação em tempo recorde do poder público, que é notadamente lento e cheio de amarras: em 2009, no primeiro ano do mandato, conseguimos comprar essas áreas e dar incentivos para que as três empresas [a outra é a Incotril] se instalassem. A Fugini tem 140 indústrias agregadas a sua cadeia produtiva. Já fomos a Monte Alto (SP), na sede da empresa, para palestra e busca de parcerias. Para isso, temos um parque industrial planejado. Outras indústrias estão a caminho. O crescimento desorganizado não chegou ao município.
Cezar Santos — Metade de seu mandato foi durante o governo Alcides. Qual parceria foi efetivamente concretizada naquele momento?
Conseguimos alguma coisa por meio do Produzir. O Estado está bem mais efetivo no que diz respeito a incentivos para a vinda de indústrias e aproveitamos bastante essa circunstância.
Cezar Santos — Mais recentemente foi anunciado um novo plano de asfaltamento de rodovias pelo governo. Cristalina foi beneficiada nesse sentido?
Devemos receber investimentos em pavimentação na segunda etapa, que deve ser divulgada em fevereiro, segundo informações do próprio governo. Na primeira, Cristalina não foi beneficiada. Com esse período chuvoso, creio que mesmo quem entrou na relação inicial não pôde receber os trabalhos. A execução deve começar em março.
Márcia Abreu — Como está se desenvolvendo o projeto Minha Casa Minha Vida em seu município?
Estamos preparando a construção de 492 casas, inclusive com serviço de escola. O contrato deve ser assinado agora, no fim de janeiro, com uma construtora de Goiânia. Há também mais 256 apartamentos dentro da cidade, em duas quadras, que são imóveis da União e cuja demanda será de servidores públicos municipais.
Patrícia Moraes Machado — Por que Cristalina hoje é o único município goiano que integra a agenda básica do governo federal?
Tenho uma vida construída em Brasília, onde morei durante quatro décadas. Tive essa sorte. Nunca mexi com política por lá, mas tenho alguma facilidade de trânsito, de conhecer o que existe em prol dos municípios. E existem muitas coisas, não só para Cristalina. O que ocorre é que isso só pode ser obtido com projetos, o que é complicado e trabalhoso, porque é necessário cumprir várias exigências. No interior, muitas vezes não há técnicos capacitados para desenvolver esses projetos e o jeito é superar isso com muita transpiração.
Cezar Santos — Em outras palavras, o sr. sabe as portas certas nas quais bater.
De fato, os recursos que vão para os municípios são poucos. Se não se conseguir emendas não se faz nada, o dinheiro está com o governo federal. Isso, evidentemente, exige de nós, prefeitos, uma postura de gestor, sem entrar em choque, sem oposição. É preciso ser institucionalmente prefeito de uma cidade. Prefeito não tem de fazer guerra política com governo. Prefeito tem de procurar melhorar, da forma mais viável, as condições da cidade da qual está à frente.
Patrícia Moraes Machado — Cristalina passou de 14º para 1º lugar em geração de emprego no Estado. Qual é a explicação para isso?
Há uma oscilação. A gente ganha e perde empregos, dependendo do período. Depois que se planta, o setor dá uma recuada; quando vem a safra, a gente recupera. Até setembro, Cristalina só perdia para Goiânia em números absolutos de geração de empregos. Em números proporcionais, não só em agricultura, nosso município é o maior gerador de empregos no Estado. A ligação da agricultura com o comércio se traduz em benefícios para toda a cadeia econômica municipal.
Patrícia Moraes Machado — A impressão que passa é de que Cristalina estaria muito mais ligada a Brasília do que a Goiás. Isso ocorre mesmo?
Embora muita gente do município trabalhe em Brasília, Cristalina é uma cidade genuinamente goiana, ao contrário de outros municípios vizinhos, que são cidades-dormitório para o Distrito Federal. Os jornais lidos em Cristalina são goianos, por exemplo. Mas é fato que existe um intercambio grande com Brasília, que está do lado, existe a aproximação por conta dos empregos que estão no Distrito Federal. Por um longo tempo, também houve um lado não muito positivo, que era o de deixar o município acomodado em relação a suas próprias possibilidades, no sentido de gerar suas condições de desenvolvimento, nas mais diversas áreas.
Cezar Santos — Há alguma ajuda do GDF para Cristalina?
No governo anterior, de José Roberto Arruda, havia projetos na área de saúde. Tradicionalmente, Brasília sempre ajudou as cidades mais próximas. Luziânia, por exemplo, foi muito beneficiada, até por conta de Joaquim Roriz [ex-governador do DF]. Cristalina já recebeu alguma coisa de Brasília, mas não o que precisa para que possa caminhar com as próprias pernas. Por se tornar um centro de compras, Brasília ganha muito mais com as cidades do Entorno do que o inverso. Na balança, quem sai ganhando é o DF.
Cezar Santos — Cristalina é tida como a capital nacional da agricultura irrigada e parece que isso vai se ampliar ainda mais. Procede?
Hoje, da área total de Cristalina, de 650 mil hectares, 350 mil deles são de área agricultável. Dessa área, há produção em pouco mais de 200 mil hectares, dos quais apenas 48 mil são irrigados. Nesses 48 mil hectares, se produz muito mais do que em todo o resto, mesmo porque nela há três safras por ano. Com essa formatação exigida hoje pelo meio ambiente, a água vem hoje das chuvas, não há intervenção no curso dos rios. Hoje há uma discussão nacional sobre a outorga da água: discute-se se Cristalina vai produzir energia ou alimentos. As outorgas para novos pivôs para expansão da irrigação dependem, ainda, do governo federal chegar a uma definição. Sabemos que há energia ociosa no Brasil, embora isso não ocorra em Cristalina. Com a nova barragem [de Batalha, no Rio São Marcos] que está sendo construída, paralisando as outorgas para novas áreas agricultáveis, fica a pergunta: será que a vocação do município é para produzir energia ou alimentos? Nós acreditamos que seja alimentos.
Cezar Santos — A crise na Celg tem atrapalhado a atividade econômica?
Bastante. O grande problema de Cristalina é a falta de energia. Essa solução para o caso da Celg foi muito bem recebida no município e a notícia do investimento do governo federal na ampliação da capacidade energética é vista com muita satisfação. Se dobrar a produção de energia, vamos dobrar também a produção de alimentos e a geração de empregos de Cristalina.
Patrícia Moraes Machado — Qual mudança o sr. fez no plano de cargos e salários do munícipio. É verdade que os servidores estavam há 20 anos sem reajuste?
Tinha funcionário que ganhava abaixo do salário mínimo. Assim, todo mês era preciso complementar esse valor. Só que na hora da aposentadoria, esse servidor se aposentava sem esse complemento. Tenho como princípio que o servidor é parceiro do poder público. Se ganhar bem, vai trabalhar com satisfação. Dessa forma, o salário mínimo de Cristalina já era de 600 reais antes de o governo federal aumentar o valor. Agora, vamos mexer novamente. É um dinheiro que é gasto dentro da cidade. Fizemos um plano de cargos e salários ousado e recebemos críticas e alertas de que não daríamos conta de pagar. Foi bom porque dividimos essa responsabilidade com o funcionalismo público, que hoje sabe que o município precisa arrecadar e tem colaborado, com sua conscientização, que pode se reverter para ele próprio. Fomos também o primeiro município a estabelecer o piso salarial para o professor, em 1º de janeiro de 2010. Na área de educação, vamos passar a contar, a partir deste ano, com três escolas em tempo integral.
Patrícia Moraes Machado — No tema educação, como o sr. reverteu o quadro que levava muita gente do município a estudar fora de Cristalina?
Não havia estudo universitário em Cristalina, a não ser uma faculdade que não tinha qualquer incentivo. Os alunos estudavam fora e isso era patrocinado pela prefeitura. No passado, as rivalidades políticas consistiam em dar o ônibus mais barato. Na gestão anterior à minha, a ordem era não pagar nada pelo transporte escolar. De 6 ônibus, passaram a 17. Isso dava ao município R$ 200 mil por mês de despesa com o serviço. E não há apenas a oneração em termos de transporte, mas também na perda de arrecadação com os jovens que saem da cidade para consumir — comprar livros, ir a restaurantes etc. — em outras cidades. São recursos que o município perdia. Isso tudo infelizmente gera um impacto social que não conseguimos zerar ainda, por tirar do convívio uma massa pensante da cidade. Muitos acabam nem voltando mais, se transferem de vez para outros municípios. Isso também é dinheiro jogado fora, sem nenhum legado cultural ou de desenvolvimento para a cidade. Estamos tentando reverter esse quadro. A Fesurv [Universidade de Rio Verde] está em Cristalina com seis cursos e perspectiva de aumento. Isso é subsidiado pelo município e hoje é quase uma reivindicação de quem está prestes a encarar o ensino superior. Também oferecemos quase 300 bolsas universitárias nos últimos três anos. São coisas que não acontecem de repente. Tínhamos um compromisso, com o governo de Brasília, de levar um campus avançado da UnB para Cristalina, que infelizmente não foi concretizado. Hoje, temos uma negociação com a PUC Goiás, na área de pós-graduação, que está visualizando a volta desses alunos que estão estudando fora. Há uma área reservada para uma cidade universitária, bem localizada, graças ao plano diretor que temos.
Márcia Abreu — Qual é a arrecadação do município?
Cristalina tem uma boa arrecadação do bolo do ICMS, em torno de 1,2%, por causa de sua produção, que é grande. Eu diria que a arrecadação nesses três anos de nossa gestão, aumentou em 150%.
Cezar Santos — E sobre o distrito agroindustrial, como está seu desenvolvimento?
Cristalina não tinha um distrito agroindustrial. Fizemos, primeiramente, um pequeno distrito e agora temos um grande, onde está a Ecotril [empresa de conservas], perto da ZPE e do novo aeroporto, cujas obras devem começar neste semestre.
Patrícia Moraes Machado — Como serão as obras do aeroporto?
Vamos começar as obras e as faremos em duas etapas. A primeira consiste em executar a pista, que está sendo projetada para descer jatos. Terá 1.620 metros, com possibilidade de ampliação para 2.500 metros. Está localizado em uma região estratégica para, no futuro, servir como aeroporto regional, para desafogar Brasília.
Patrícia Moraes Machado — O sr. está construindo, por conta da prefeitura, um polo industrial na cidade. Como o sr. vê as ações do governo estadual em centralizar a industrialização? Há uma contradição, em relação ao desenvolvimento dos municípios?
A tendência do empresariado e do governo é de, infelizmente, incentivar aquilo que já existe. Não vejo como uma tendência que vá prosperar, porque é importante criar outras regiões e distribuir melhor essa atividade, até porque os terrenos, por exemplo, em Anápolis são muito caros.
Patrícia Moraes Machado — O sr. percebe alguma dificuldade política em levar o desenvolvimento para Cristalina?
Não percebo, em relação aos últimos dois governadores, nada nesse sentido. O que percebo é que as áreas em implantação têm dificuldades maiores em conseguir. Sabíamos que a Mitsubishi iria para Cristalina, na época. Era preciso ação política, não era só dar o terreno. Mas não houve essa ação por parte da gestão do município e a montadora foi para Catalão. Agora, já se discute a ida de Suzuki para Catalão. Então, a partir de agora, qualquer montadora vai querer ir para Catalão ou Anápolis, por já ter capacitação profissional e infraestrutura. O governo precisa corrigir essas distorções.
Cezar Santos — Um problema grave em todo o Entorno do DF é a violência. Como esse drama está em Cristalina?
Não considero Cristalina uma cidade violenta. O que há lá é presença da droga, especialmente do crack, que é um mal generalizado no País. Mas na política antiviolência, atacamos várias frentes que dão sustentação uma às outras. Saúde, educação e segurança têm de caminhar juntas, apesar de que o que muda o quadro, mesmo, é a educação. Com relação especificamente à segurança, asseguro que Cristalina é um dos municípios mais seguros do Entorno, não só por ser uma cidade periférica de Brasília, mas também por termos um convênio com o Ministério da Justiça, o Pronasci [Programa Nacional de Segurança com Cidadania], juntamente com outras três cidades apenas — as outras são Foz do Iguaçu (PR), Natal (RN) e Manaus (AM). O Pronasci tem 94 itens. Cristalina é a primeira cidade do Entorno com monitoramento por câmeras. Há 26 câmeras de altíssima resolução instaladas ligadas a um gabinete gestor em que estão a PM, a Guarda Municipal e o Conselho Municipal de Segurança. Todas as informações são trocadas imediatamente. Todos os pontos nevrálgicos, entradas e saídas do município estão monitorados, o que já tem ajudado bastante o trabalho da polícia. Temos uma das Guardas Municipais mais bem aparelhadas do País. Tudo por conta de projetos com o governo federal.
Cezar Santos — O sr. tem uma secretaria específica para cuidar de projetos?
Sim, temos um pessoal dedicado exclusivamente a trabalhar para elaborar projetos e convênios. Contratamos a parte técnica onde tiver gente habilitada para executá-los.
Cezar Santos — E as estradas de Cristalina, como estão?
Não estão diferentes do restante do País. (risos) Foi muito tempo sem manutenção em 4 mil quilômetros de estradas municipais e estaduais, um número alto, como município agrícola que somos. Damos manutenção na medida do possível. No passado, tínhamos certa ajuda de Brasília. Agora, o Estado de Goiás está prometendo algum reforço. A partir do próximo mês podemos ter alguma novidade. Na área urbana, vamos ter todas as ruas asfaltadas até o fim do mandato.
Patrícia Moraes Machado — Como foi a construção do Centro Administrativo, uma de suas promessas de campanha?
Concluímos em seis meses. Não havia lugar para a Prefeitura funcionar. Voltamos, então, ao centro histórico, onde era o prédio da prefeitura antes. Fizemos em seis meses uma obra que estava parada há dez anos.
Patrícia Moraes Machado —Qual é a ligação da história de Cristalina com os franceses.
Ocorre que dois franceses, Etiene Lepesqueur e Leon Laboissière, foram garimpar na região, atrás de ouro. Acharam cristais. Há peças de cristal em museus da França. Fomos buscar essas origens, algo que acredito que seja importante. A cidade precisa buscar suas referências. Estamos implantando o francês nas escolas públicas da cidade. Outra curiosidade é que o primeiro prefeito de Cristalina foi um alemão. Hoje há muitos descendentes de alemães na cidade.
Patrícia Moraes Machado — O sr. tem buscado parcerias com o governo francês?
Temos conversas iniciais, na fase do namoro ainda. A França está em um processo de buscar recuperar o prestígio do idioma, depois da perda do espaço para o inglês. Temos tido uma boa receptividade.
Patrícia Moraes Machado — Há alguma outra ação em busca de resgate histórico?
Queremos recuperar bairros antigos, como Cristalina Velha, por exemplo. A preocupação histórica e a valorização da cultura são coisas muito caras aos franceses.
Patrícia Moraes Machado — Como está o processo de regularização fundiária no município?
Essa é minha área. Quando a pessoa vê que tem realmente sua casa como propriedade dela, a autoestima sobe e começa a investir em si mesma. Vamos agora regularizar dois bairros, Belvedere e Cidade Nova, com a entrega de 2 mil escrituras até fevereiro. A questão fundiária é problemática: 70% dos imóveis de Cristalina não são regularizados. A cidade foi crescendo em área pública, até porque em área particular é tudo mais complicado. Outro problema é a ocupação em área ambiental — de onde se transferem as pessoas que a habitam, de preferência. Para cada uma das áreas, há uma atuação diferente por parte do poder público.
Márcia Abreu — E na questão agrária? Como está o ritmo de assentamentos?
É a cidade que mais tem assentamentos do Incra, mas que são feitos sem projetos. A regularização fundiária será feita por nosso município. Criei uma gerência para fazer o desenvolvimento, nesses assentamentos, de tudo o que precisaremos para o restaurante comunitário e para a merenda escolar, por meio da agricultura familiar. Queremos também criar, na Feira do Produtor, um espaço para eles venderem o que produzem. Nesses assentamentos temos máquinas que conseguimos no Ministério da Integração, para fazer o trabalho em cada gleba. Com essa economia para essas pessoas, creio que vão poder desenvolver agricultura familiar como nunca existiu em Goiás. Serão atendidas mais de 1,6 mil famílias.
“Lazer é a maior demanda de Cristalina”
Patrícia Moraes Machado — Cristalina tem um distrito a 110 quilômetros da sede do município, Campos Lindos. Como fica a administração com esse desafio?
É um problema sério, porque é preciso criar uma estrutura particular, inclusive deixando máquinas. Mas é lá que está a Bonduelle, que preferiu se instalar naquele local para aproveitar as águas do Rio Morais, com características de água minerais. É uma localidade que está a 45 quilômetros da Rodoviária de Brasília e a 110 quilômetros do centro de Cristalina.
Patrícia Moraes Machado — E o sr. conseguiu levar algum desenvolvimento para esse distrito?
Não como eu gostaria. Cristalina tem muitos problemas e muitas vezes temos de atender ao que está mais urgente. O distrito de Campos Lindos tem 10 mil habitantes. Se não tivermos uma ação conjunta, entre União, Estado e município podemos criar ali uma nova Águas Lindas.
Patrícia Moraes Machado — No setor de saúde, o que está sendo feito em Cristalina?
Fizemos um hospital municipal, estamos concluindo uma UPA [unidade de pronto atendimento] e vamos começar, neste ano, a obra do Hospital do Câncer. É uma réplica do Hospital do Câncer de Barretos (SP). Já temos a área desapropriada, de 20 hectares, dentro de Cristalina. O projeto foi feito por uma empresa especializada em layout de hospitais desse tipo. Vamos começar pelo bloco da hemodiálise, para atender muita gente. Sobre o hospital municipal, ele foi totalmente refeito. É hoje um hospital com 47 leitos, por assim dizer, de luxo, com equipamentos de ponta, como mamógrafos, por exemplo. Tem um centro cirúrgico, com duas salas muito bem equipadas, e está apto a fazer cirurgias de próstata e exames complexos. Para a obra, tivemos recursos do Fundo Nacional de Saúde, mas 70% foi com fundos próprios. Posso dizer que a saúde de Cristalina não perde para a de nenhum município.
Patrícia Moraes Machado — E os projetos para a área de saneamento no município?
Temos um contrato assinado recentemente com a Saneago para a conclusão de todo o saneamento da cidade, com 100% do esgoto e 100% da distribuição de água. Em relação ao saneamento, vamos ter agora a terceira lagoa de decantação, a ampliação do esgoto, com a ligação de toda a cidade e a canalização do Bairro Lustosa, que é o maior setor de Cristalina. Lá, há quatro quilômetros realmente caóticos, onde o esgoto corre a céu aberto. Até o fim do ano, creio que teremos 100% de cobertura na área urbana.
Patrícia Moraes Machado — Qual seria hoje a maior demanda do município?
Creio que seja o setor de lazer e entretenimento, algo que está muito ligado à iniciativa privada, como shoppings, por exemplo. De nossa parte, estamos refazendo as praças, tornando-as aprazíveis para a população e vamos fazer o primeiro parque ecológico da cidade, que terá lago, pista de caminhada, lanchonete etc, no Bairro Belvedere, que era o bairro mais violento da cidade e hoje é o primeiro setor de Cristalina com água e esgoto em todas as residências. O trânsito, que é um ponto crítico em muitas cidades, em Cristalina tem um sistema municipal que poucas cidades têm e temos uma sinalização muito eficiente, com semáforos de LED. Começamos agora uma ciclovia de quatro quilômetros.
Patrícia Moraes Machado — O sr. acredita que um dia a representatividade maior do Entorno possa deixar de ser Luziânia e passar a ser Cristalina?
A verdade é que criou-se uma figura ao redor de Luziânia que começa a tirar a expectativa de desenvolvimento de Cristalina e de outros municípios. O que gostaríamos é que não houvesse esse tipo de representatividade por nenhum município. Trabalhamos, na verdade, para a independência e a autonomia total de Cristalina em todos os aspectos. A nossa taxa de crescimento é muito maior do que a de Luziânia.
Márcia Abreu — E como estão os projetos sociais?
Tem um projeto do governo federal chamado Mulheres da Paz, a partir do qual criamos o Amigas da Paz. São cem mulheres contratadas pelo município, que recebem ajuda de custo de 60 reais por mês para fazer palestras nos bairros. São pessoas que sofreram algum tipo de agressão e que fazem um trabalho solidário de conscientização sobre os direitos das mulheres. É um trabalho bonito, que dá a elas assistência social, tratamento odontológico e ginecológico.
Patrícia Moraes Machado — Como o sr. decidiu entrar para a política?
Foi de uma forma meio invertida. Sou empresário da construção civil e corretor de imóveis. Fui presidente do Creci de Brasília durante 18 anos e militei muito na área da construção civil. Fiquei viúvo e, nesse momento, a gente para um pouco e vai buscar o calor da família, que no meu caso é de Cristalina. Passei a frequentar mais o município e começou a soar forte em mim o sentimento de que eu poderia ajudar muito, de que eu poderia me dedicar como prefeito até. Não tinha um projeto maior do que esse, em que eu poderia aproveitar tudo o que eu aprendi. Foi algo — aliás, está sendo — de muita determinação, vontade e prazer. Faço o que faço com satisfação muito grande. Acredito realmente em Cristalina e no que eu estou fazendo por ela. Tenho comigo as lembranças do que meu pai falava do município, das histórias dos cristais e de muito mais. Fiz essa reversão, saindo de Brasília, onde eu construí demais e me perguntei o que eu poderia fazer por Cristalina. E a cidade está realmente se transformando, não só por ações do poder público, mas também pela iniciativa privada. Empresários estão indo para Cristalina, há uma fábrica saindo de Anápolis e indo para lá, uma indústria de batata palha. Nossa cidade é uma grande produtora de batata, de alta qualidade. Cerca de 10% da batata nacional é produzida em Cristalina; 12% da cebola e 40% do alho de todo o País. Criamos o Festival do ABC [Alho, Batata e Cebola], que este ano terá sua 4ª edição. As batatas são colhidas e selecionam-se as que podem viajar e durar um mês. Essas custam 10 reais o saco, que aqui em Goiânia custam 50 reais. Instalando-se lá, uma indústria dessas terá um preço muito mais competitivo.
Cezar Santos — Dá satisfação administrar o município?
Sim, muita, principalmente porque está dando tudo muito certo. As pessoas e as empresas estão ajudando, a geração de empregos está acontecendo e as indústrias estão chegando. É o grande projeto da minha vida. Sempre trabalhei com administração de cidades, nos cursos que fiz para a carreira de corretor de imóveis.
Patrícia Moraes Machado — Quando aconteceu essa virada na vida do sr.?
Tem oito anos. Minha mulher, do segundo casamento, teve câncer em 2004. Foi um ano em que eu praticamente parei, fiquei por conta disso. Esse Hospital do Câncer que está em execução — e no qual eu pretendo continuar mesmo depois de deixar de ser prefeito — terá uma fundação com o nome dela, Geórgia Cristina. Mas é uma obra que você começa, mas é coisa para 20 anos. Hoje tenho minhas coisas resolvidas, meu filho toca nossos negócios e posso me dedicar com disponibilidade para Cristalina.
Cezar Santos — Em vista de tudo isso, gostando do que faz e fazendo uma bela administração, pode-se deduzir que o sr. é candidato à reeleição.
Reeleição é algo que depende do que se fez. Se for por aí, realmente tenho muito o que mostrar. Mas é muito cedo, o que quero agora é entregar as obras em execução. Tenho uma boa avaliação — o próprio governador me retransmitiu isso, de que nossa avaliação está boa — e, claro, não descarto a possibilidade da reeleição. Mas, por enquanto, o que quero é cumprir os compromissos que assumimos. Depois é deixar as coisas acontecerem.
Cezar Santos — O que oo sr. fez até agora dá ensejo a pleitear mais um mandato?
Assumimos com um projeto para ser executado em quatro anos. Tivemos que fazer muitas adaptações e também tivemos muitos embates. No meio de tudo, ainda teve uma eleição importante para o governo do Estado. Isso segura muita coisa, paralisa até, especialmente em termos de obras, convênios. O ano de 2010 foi praticamente inerte tanto no governo federal como no estadual, por essa questão das eleições. Chegamos agora, neste ano, com um potencial muito grande, por causa do número de obras que estão sendo inauguradas. Estamos cumprindo com o que prometemos. De 25 itens essenciais à conjuntura da cidade, só falta um, que é o restaurante comunitário. E não ficamos somente nesses 25 itens, houve muita coisa que executamos e que mexeu com os brios e a autoestima dos cidadãos, que antes não tinham grandes expectativas, especialmente com relação ao futuro dos jovens, à geração de empregos. Cristalina vive realmente um momento bom, tanto na economia quanto em ascensão social, e isso faz com que a gente, como partícipe disso, tenha uma avaliação positiva.
Patrícia Moraes Machado — Todos os compromissos de campanha serão entregues?
Todos. Na época, elaborei 25 itens, que viraram 30. Desses, o único que falta é o restaurante comunitário, que estamos começando a fazer e terá alimentação ao valor de 1 real.
Márcia Abreu — Entre todas essas obras qual é a que o sr. destaca como a menina dos olhos de sua administração?
Creio que o Centro Administrativo e o hospital municipal, porque são coisas que mudam o destino da cidade.
Márcia Abreu — Quantos partidos compõem sua base de governo?
São 13 partidos que me deram sustentação no início e continuam até hoje.
Cezar Santos — O sr. tem sofrido com a oposição na Câmara ou é um céu de brigadeiro?
Confesso que em 2010 eu passei muito apertado, porque é um processo com o qual eu não tinha muita familiaridade ainda. Hoje está tudo tranquilo, fizemos o presidente da Casa e não há muitas dificuldades. Com o ano eleitoral, o lado emotivo dos debates vem à tona, mas posso dizer que temos uma boa relação.
Patrícia Moraes Machado — Mas durante todo o mandato houve certa resistência da oposição, não?
É verdade, porque se mexe em uma estrutura pré-estabelecida. Havia na cidade dois polos antagônicos, muito cristalizados, no município. Eu não tenho isso e apanhei muito por causa disso. Faço política voltada para a competência e trouxe pessoas por serem técnicos e que estavam servindo outro lado da política. A paixão, muitas vezes, não deixava isso acontecer. Acho até que isso mexeu muito, com muita gente, mas não me arrependo. Hoje, tenho trânsito com todos os adversários.
Patrícia Moraes Machado — Por que o sr. optou por ir para o PSD?
Antes de responder, é bom ressaltar que hoje tenho um bom relacionamento com o DEM [seu ex-partido], depois das feridas iniciais. Vi no PSD a oportunidade de um partido novo. O Brasil está evoluindo bastante e o partido me pareceu uma chance de algo que não fosse radical, não estivesse contra ninguém. É um partido de menos paixões, que não defende coisas do passado. Tem ideias modernas e um presente, Gilberto Kassab, que vejo como alguém com uma ótima cabeça. Aqui em Goiás, temos como líder Vilmar Rocha, uma pessoa a quem estimo bastante, pelo caráter e pela biografia, além das relações que tem, sempre com muita objetividade e franqueza com as pessoas. Então, me senti em casa para me filiar, mas sem nenhum demérito ao DEM, o partido que me projetou. Difundi muito o número 25 [do DEM] e agora vou ter uma dificuldade que é, no caso da disputa da reeleição, mudar para o 55 [número do PSD]. (risos)
Patrícia Moraes Machado — A Câmara de Cristalina ainda não elegeu seu novo presidente. Como o sr. tem observado esse processo?
É um assunto que obviamente temos interesse, mas não interfiro. Os vereadores têm feito seus debates. Há alguns aliados meus na disputa, mais próximos, para os quais eu torço, mas não me sinto confortável para interferir. A população de Cristalina tem participado diretamente do processo e procuro incentivar esse fato. Isso, sim, é importante. A eleição da Câmara é anual e vamos para o quarto presidente durante a minha gestão: o primeiro [Zé Orlando] não era ligado a mim e passou a ser; com a segunda [Cirlene Côrtes, do PMDB], não tive muita sorte; o terceiro [Olivar Caetano de Souza, do DEM] era realmente um aliado nosso. Vamos ver como será o quarto presidente, mas é realmente ruim, traumático e dispendioso ter essa eleição todo ano.
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