Era Lula distribuiu renda e reduziu pobreza, mas desigualdade persiste
Da redação em 31/12/2010 08:06:35
Ricardo Stuckert/25.out.2010/PR
Lula cumprimenta populares durante entrega de conjunto habitacional no Rio de Janeiro
Qual
é a imagem que melhor define o governo Lula? Qual é o país que, após
oito anos, o presidente deixará para a sua sucessora? O R7 ouviu especialistas para tentar traçar o perfil deste novo Brasil e
identificar o legado do primeiro operário a chegar ao Palácio do
Planalto. As opiniões, muitas vezes discordantes, oferecem um panorama
variado, pontuado por elogios e críticas.
Se, nos últimos oito anos, muitos sentiram melhoras em suas condições de
vida, seja por meio de programas de distribuição de renda ou porque
conseguiram um emprego, há quem ainda não tenha o suficiente para viver
em condições dignas. Se o crescimento da economia e iniciativas como a
expansão do crédito permitiram a famílias comprar bens como televisão,
geladeira e automóvel, é ainda grande o número de pessoas que vivem em
condições precárias de moradia e têm acesso a serviços públicos
deficientes.
Para o sociólogo Ricardo Antunes, professor da Unicamp (Universidade
Estadual de Campinas), o atual governo ficará marcado por uma “grande
frustração”.
- O Lula foi eleito em 2002 para mudar o desenho neoliberal que
predominou durante os oito anos de governo do Fernando Henrique Cardoso
[do PSDB]. E essa mudança não ocorreu.
Antunes cita como exemplos a manutenção da política macroeconômica
herdada da gestão tucana e a falta de compromisso com bandeiras
históricas do PT e da esquerda, como a reforma agrária.
- Os pilares da política econômica do governo FHC foram inteiramente
preservados e, em certo sentido, ampliados. O Brasil ainda tem os juros
mais altos do mundo, a política agrária é extremamente concentrada,
temos incentivo ao agronegócio e a não realização efetiva da reforma
agrária.
Embora reconheça que, no segundo mandato, a partir de 2007, a política
social tenha ganhado espaço, sobretudo por meio do programa Bolsa
Família e do salário mínimo, o sociólogo considera que o governo Lula
não atacou as “causas estruturais da tragédia brasileira”.
- A crítica não é ao Bolsa Família em si. Qualquer governo, diante de um
país que tem milhões de miseráveis e pobres, pode ter uma política
imediata de minimização da fome. Isso é legítimo. O problema é que essa
política não está vinculada a nenhuma mudança estrutural. As causas
estruturais da miséria e da tragédia brasileira se mantêm.
O cientista político André Singer, professor da USP (Universidade de São
Paulo), diz que, ao fazer do combate à pobreza seu principal objetivo, o
governo Lula, embora tenha optado por um caminho moderado, operou uma
grande transformação.
- Houve, de fato, uma importante redução da pobreza. Houve uma melhora
na condição de vida de milhões de pessoas de baixa e baixíssima renda.
Os dois mandatos do presidente Lula conseguiram melhorar as condições de
vida dessa camada da população que é muito ampla. Estamos falando,
então, de uma grande transformação.
Singer foi porta-voz da Presidência de 2003 e 2007 e, depois que saiu
do governo, passou a analisar os anos Lula. Ele lembra que uma das
principais promessas feitas pela presidente eleita, Dilma Rousseff, foi a
erradicação da pobreza, e afirma que somente a possibilidade de poder
fixar uma meta como essa já é, por si só, um feito significativo.
- Acho que um dos grandes legados é deixar um país que pode se colocar
este objetivo, de erradicar a pobreza em um período tangível, de quatro,
seis, oito, dez anos... Não tem tanta importância saber quanto tempo
vai levar, mas só o fato de poder dizer "nós queremos e podemos
erradicar a pobreza na próxima década" é um dos grandes legados.
Quanto à redução da desigualdade, o professor da USP afirma que houve avanços, mas em uma intensidade menor.
- Eu discordo daqueles que acham que não está havendo redução da
desigualdade. O mais correto é indicar que está havendo diminuição da
desigualdade, mas ela é mais lenta que a diminuição da pobreza. Por quê?
Provavelmente, porque uma parte dos ricos ficou mais rica, e isso se
explica pelo fato de que a lucratividade das empresas foi muito grande
nesse período, e os juros no Brasil continuam muito altos.
Ao recordar uma frase que o próprio presidente Lula costuma usar para se
referir ao seu governo, de que “nunca os ricos ganharam tanto
dinheiro”, o sociólogo Francisco de Oliveira sai em defesa da classe
trabalhadora, que segundo ele foi enfraquecida nos últimos anos.
- Na economia, não existe empate. Se ele diz isso, é porque as classes
trabalhadoras perderam. Se [os ricos] ganharam tanto dinheiro, alguém
perdeu, e esse alguém foi a classe trabalhadora.
Privatizante
Para Oliveira, que participou da fundação do PT, nos anos 80, e rompeu
com o partido em 2003, o governo Lula minou o poder da classe
trabalhadora também por meio do fortalecimento das grandes empresas, que
receberam polpudos financiamentos do BNDES (Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social).
Isso faria dele, na análise do sociólogo, o presidente “mais privatizante da história moderna” do Brasil.
-
É até uma contradição, porque geralmente a imprensa o chama de
estatizante, mas ele é privatizante, no sentido de aumentar o poder dos
grandes grupos econômicos no Brasil. Isso vai aumentar o poder de classe
desses grandes grupos, e reduz o poder de classe dos trabalhadores, que
foi a base sobre a qual se ergueu o PT. Celebra-se o aumento do
consumo, mas isso não é aumento do poder de classe, e sim produto do
sistema capitalista.
O professor da USP também minimiza o impacto do crescimento do PIB
(Produto Interno Bruto - soma das riquezas de um país) registrado nos
últimos oito anos. Para 2010, projeções indicam uma alta superior a 7%.
Na avaliação do especialista, porém, trata-se de uma “celebração pífia”.
- Não há grande feito nenhum. A taxa média de crescimento da economia
brasileira no período Lula é de 4% ao ano, e essa taxa média é inferior à
que Juscelino Kubitschek logrou, e é inferior à média nacional de
crescimento posterior à Segunda Guerra Mundial. Ele se gaba porque ganha
do Fernando Henrique Cardoso, mas o período de Collor e Fernando
Henrique foi recessivo.
Educação e saúde
Ricardo Antunes chama ainda a atenção para a necessidade de melhorar a
oferta de serviços públicos, outra dívida deixada por Lula.
- A escola pública básica está degradada. A única escola pública que
ainda tem um bom funcionamento é a universitária. Temos a deterioração
das condições de saúde, todo dia os pobres morrem nos hospitais, os
medicamentos são confundidos, os enfermeiros não são qualificados.
COMENTÁRIOS
maria rita
31/12/2010 18:31:17
ex-petista é pior que ex-marido ou ex-esposa.
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